"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 54
Nenhuma coisa em comum
Depois da decolagem, Augusto abriu o computador.
Helena colocou o cinto, ajustou o encosto e tentou ler. A primeira página do livro de Lucas trouxe de volta a dedicatória, e ela o fechou antes de conseguir seguir.
Preferiu a tela do assento.
Encontrou um programa de humor brasileiro com episódios disponíveis e escolheu um ao acaso. A história era absurda o suficiente para que não precisasse pensar em nada além de duas pessoas discutindo uma situação cada vez mais ridícula.
Começou a rir.
Augusto levantou os olhos do relatório.
Observou a tela por alguns segundos e depois olhou para ela, sem encontrar o mesmo motivo para diversão.
Helena percebeu.
"O que foi?"
"Nada."
"Você está com cara de quem vai dizer que isso é perda de tempo."
Ele fechou o computador parcialmente.
"Só não entendi o que tem de tão engraçado."
"Esse é o problema de chegar no meio."
"Não sei se entenderia desde o começo."
Helena riu de novo, dessa vez dele.
"Então pode voltar para a planilha. Cada um se diverte como consegue."
Augusto olhou o relatório, depois a tela diante dela.
"Eu não me divirto com isso."
"Está olhando há mais tempo que eu olho para qualquer coisa quando estou sofrendo."
Ele sorriu sem responder. Helena voltou ao programa, satisfeita por conseguir uma conversa que não terminara numa instrução.
Tirou os sapatos e os deixou perto do assento. Augusto os colocou juntos, voltados para o corredor, com um cuidado que a fez lembrar da casa em que nada ficava fora do lugar.
Ela não reclamou.
Também não lhe deu uma explicação sobre como pretendia calçá-los depois.
Durante algum tempo, os dois ficaram em silêncio. Ela ria de vez em quando; ele escrevia, lia e respondia ao que tinha deixado organizado antes da viagem.
Uma funcionária trouxe água e frutas. Augusto agradeceu com uma educação sem intimidade. Helena pensou que seria fácil gostar dele se conhecesse apenas aquela parte: um homem atento, discreto, que não tratava empregados como objetos.
O problema era conhecer o que acontecia quando a vontade dela não combinava com a dele.
Mais tarde, levantou-se para ir ao banheiro.
Calçou os sapatos e pediu passagem. A aeronave teve uma oscilação antes que conseguisse terminar o movimento. Helena perdeu o equilíbrio e caiu sobre o colo de Augusto.
Ele a segurou imediatamente.
Por um segundo, ficaram olhando um para o outro de uma posição incomum. Ela estava mais alta. Era ele quem precisava erguer o rosto.
Helena sentiu o próprio rosto esquentar.
"Não fiz de propósito."
"Eu percebi."
"Então pode soltar."
Augusto retirou a mão quando conseguiu apoiar-se. Uma funcionária veio conferir se estavam bem e pediu que aguardasse sentada até a condição estabilizar.
Helena voltou ao lugar.
Ficou olhando a tela sem acompanhar o que acontecia. Não gostara do susto, mas a lembrança daquele instante em que o vira de cima permaneceu com uma nitidez estranha.
Era raro olhar para ele sem sentir que precisava se defender antes.
Quando pôde ir ao banheiro, levantou com cuidado. Voltou minutos depois e encontrou Augusto com o telefone na mão.
Uma mensagem de Bianca perguntava sobre uma cláusula de contrato. Ela havia começado na empresa depois da entrevista e do ajuste da função, trabalhando perto da equipe de Pedro.
Augusto respondeu que questões daquele tipo deveriam ser encaminhadas à área jurídica responsável. Não ofereceu uma conversa longa nem perguntou como ela estava.
Guardou o aparelho.
Helena não tinha visto o nome, apenas o movimento. Não perguntou quem escrevera. Não queria transformar o silêncio numa atenção que pudesse ser interpretada como ciúme.
Ele fechou o computador quando a refeição foi oferecida.
Entregou o cardápio primeiro a ela. Helena escolheu um prato quente, uma sopa e água. Depois estendeu o menu para Augusto.
Ele começou a devolvê-lo sem escolher nada.
"Você não vai comer?", perguntou.
"Não estou com muita fome."
Helena olhou o relógio e tentou calcular quantas horas haviam passado desde o aeroporto.
"Você quase não comeu antes também."
"Está cuidando de mim?"
Ela fechou a expressão.
"Estou dizendo que uma viagem longa não fica mais agradável quando alguém resolve sobreviver de café."
Augusto sorriu e pediu uma refeição leve.
Helena voltou ao próprio prato, irritada por uma observação comum poder virar qualquer coisa no modo como ele a recebia.
Quando a comida chegou, experimentou a sopa com entusiasmo suficiente para perceber que estava com mais fome do que imaginava.
Augusto a observou e soltou uma risada baixa.
"O quê?", ela perguntou.
"Nada ruim."
"Então explica."
Ele apoiou os talheres.
"Você fica zangada comigo e, minutos depois, ainda percebe se eu comi."
Helena o olhou sem sorrir.
"Não preciso querer que uma pessoa passe mal só porque estou zangada."
"Eu sei."
"Parece que você esquece."
Augusto ficou quieto, aceitando a correção com uma atenção que ela não esperava. Helena terminou a sopa e voltou ao programa, sem oferecer outro gesto para compensar a frase.
Mais tarde, perguntou o que ele gostava de assistir quando não trabalhava.
Ele respondeu com alguns assuntos que lhe pareceram tão sérios quanto os relatórios. Helena fez uma careta.
"A gente não tem nenhuma coisa em comum."
"Pode encontrar."
"Não transformando tudo que eu gosto numa coisa inferior."
Augusto olhou a tela outra vez.
"Pode me mostrar um episódio desde o começo."
Helena hesitou, depois escolheu outro e lhe entregou um dos fones disponíveis.
Ele não começou a rir como ela.
Mas ficou até o fim da primeira cena sem abrir o computador.
Foi pouco.
Quando a cena terminou, Augusto devolveu o fone e perguntou se os personagens apareciam em outros episódios.
Helena respondeu e mostrou a lista disponível. Ele escolheu assistir a mais um trecho antes de voltar ao trabalho.
Não gostavam da mesma coisa ainda. Mas ela percebeu a diferença entre alguém não entender e alguém decidir que, por não entender, o outro deveria parar de gostar.
Deixou o episódio seguir e comeu a fruta que havia guardado. Augusto ficou ao lado, em silêncio, sem tentar transformar cada risada numa pergunta sobre por que não ria daquele jeito para ele.
Naquela viagem, Helena preferiu chamar de pouco, sem precisar chamar de nada.
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