"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 53
Você quer ouvir uma mentira?
As férias chegaram depois dos últimos trabalhos e de uma semana em que Helena dormira menos do que precisava.
Tinha completado dezenove anos naquele mês. Lucas lhe dera um livro com uma dedicatória curta, e Camila insistira num bolo pequeno depois da aula. Helena gostara dos dois gestos, mas a mudança de idade não lhe trouxera a impressão de estar mais preparada para a própria vida.
Na manhã da partida, acompanhou Lucas até a rodoviária.
Ele iria visitar os pais em Minas Gerais. Helena também tinha comprado uma passagem, imaginando passar alguns dias no estado antes de encontrar a mãe. Não faria mais aquela viagem.
Augusto enviara outra programação.
Alguns dias nas Maldivas, antes dos compromissos de fim de ano. André organizara os documentos e as passagens com antecedência, e Marisa tratara a possibilidade como uma oportunidade maravilhosa.
Helena não tinha vontade de discutir cada etapa outra vez.
Lucas a abraçou perto da plataforma e perguntou se avisaria quando chegasse. Ela disse que sim. Não mencionou a mudança de destino nem encontrou coragem para explicar por que não voltaria com ele.
Ele entrou no ônibus e acenou pela janela.
Helena respondeu até o veículo se afastar.
Depois cancelou a passagem que não usaria, pegou a mala e seguiu para o aeroporto. O trecho até São Paulo passou com o livro de aniversário aberto no colo, sem que conseguisse ler muito.
Augusto a esperava na área reservada aos passageiros da viagem internacional.
Ela o reconheceu antes de conferir o lugar indicado. Usava roupa escura, lia uma revista e tinha a tranquilidade de quem sabia que alguém já cuidara de todas as partes práticas.
Quando a viu, colocou a revista de lado.
"Chegou bem?"
"Cheguei."
"Senta aqui."
Helena escolheu a cadeira ao lado, deixando a mala perto dos pés. Olhou em volta e perguntou se André iria com eles.
"Não. É uma viagem nossa."
Ela assentiu, sem compartilhar a satisfação que ele parecia esperar.
Augusto segurou sua mão.
"Sentiu minha falta?"
Helena olhou para os dedos dele.
"Não."
Ele soltou uma risada baixa, como se tivesse recebido uma resposta divertida em vez de uma verdade.
"Podia tentar dizer uma coisa agradável."
"Você quer ouvir uma mentira?"
"Quero ouvir você dizer que sentiu minha falta."
Helena ergueu o rosto.
"Mesmo depois de eu dizer que não senti?"
Augusto a observou, ainda segurando sua mão. Não tinha mudado de ideia sobre a frase. Parecia decidido a recebê-la de qualquer forma.
Ela pensou em quantos minutos poderiam gastar ali, diante de pessoas que não viam nada além de um casal conversando antes do embarque.
"Senti sua falta", disse, com uma voz que não tentava parecer convincente.
Ele sorriu.
Helena puxou a mão assim que conseguiu e abriu a bolsa, procurando o telefone. Marisa havia enviado uma mensagem perguntando se encontrara Augusto.
Respondeu que sim.
"Aproveita bastante, minha filha. Você merece descansar."
Helena olhou a frase por muito tempo. Merecer descanso não explicava por que precisava procurar conforto justamente com o homem de quem queria distância.
Guardou o aparelho.
Augusto perguntou se queria café. Ela pediu água e um sanduíche. Não ficaria esperando a fome se tornar uma discussão naquela viagem.
Ele chamou uma funcionária e depois lhe mostrou no telefone algumas opções de acomodação.
André mantivera reservas e alternativas disponíveis enquanto ajustava a programação. Havia uma casa voltada para a praia e outras com terraço sobre a água.
Helena examinou as fotografias sem entusiasmo no começo. Uma varanda com sombra a fez parar.
"Esse lugar tem espaço para ficar sozinha?"
Augusto olhou a imagem.
"Tem mais de um ambiente."
"Não perguntei quantos cômodos tem."
Ele ficou quieto por um segundo.
"Pode usar o terraço quando quiser."
Helena assentiu e escolheu aquela opção. Não queria fingir que o cenário deixara de interessar apenas porque a companhia era errada. A fotografia do mar era bonita, e sentiu curiosidade apesar de tudo.
Augusto enviou a escolha a André.
"Vai ser bom para a gente se adaptar", disse.
Helena levantou os olhos.
"Adaptar a quê?"
"À rotina. Ao modo de conversar. Não podemos discutir cada vez que ficamos juntos."
"Podemos começar por você ouvir quando eu digo não."
Ele a observou.
"Estou ouvindo agora."
"Ouviu que não senti sua falta e pediu a mesma frase até conseguir."
A resposta tornou o silêncio mais difícil de disfarçar. Augusto pegou a revista, mas não a abriu.
Helena decidiu continuar antes que o espaço desaparecesse.
"Quero conseguir dormir nessa viagem. Quero ter momentos sozinha. E não quero precisar explicar por que estou cansada toda vez que peço para parar."
Ele demorou a responder.
"Podemos conversar sobre isso."
"Estou conversando."
Augusto passou a mão pela testa e assentiu, sem a frase pronta que costumava oferecer para encerrar um assunto.
Helena não interpretou o gesto como uma garantia. Ainda assim, sentiu um alívio pequeno por ter colocado os pedidos em voz alta.
O embarque foi anunciado pouco depois.
Ele lhe entregou a bolsa que estava sobre a cadeira e acompanhou seu passo sem tentar apressá-la. Na entrada da aeronave, uma funcionária perguntou se desejava ajuda com a bagagem.
Helena agradeceu e entrou.
Tinha deixado Lucas numa plataforma, com a promessa de que poderiam conversar à distância. Agora ia atravessar o oceano ao lado de um homem que falava do futuro dos dois como se já estivesse escolhido.
A aposta continuava sem resultado.
Já no assento, conferiu o passaporte e as informações da viagem. André enviara um resumo com as conexões e o contato do hotel. Helena salvou uma cópia no próprio telefone.
Augusto percebeu e disse que não precisava se preocupar com aquilo.
"Eu sei que você organizou", respondeu. "Quero saber também."
Ele assentiu.
Helena guardou o documento num bolso que conseguia alcançar sem abrir a mala inteira. Não tornaria aquela viagem mais livre por conhecer cada aeroporto. Ainda assim, não queria chegar a um lugar desconhecido com todas as informações nas mãos de outra pessoa.
Foi mais uma pequena preparação que fez pensando em si desde que saíra da rodoviária.
Ela precisava lembrar disso antes que o conforto daquele assento começasse a parecer uma resposta.
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