"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 44
Quero tentar outra vez
"Antes de qualquer coisa, eu preciso comer."
Helena disse a frase ao sair do carro. Augusto fechou a porta e olhou para ela, como se a informação o tivesse encontrado atrasado.
"Está com fome?"
Ela tirou a mão da dele.
"Não comi hoje. Já falei que queria voltar para casa. Você continua inventando lugares e parece que não ouve."
Augusto ficou quieto por um segundo.
"Vamos ao restaurante primeiro."
"Primeiro e agora."
A firmeza lhe trouxe um pequeno alívio. Não precisava começar cada pedido simples com um agradecimento pela possibilidade de fazê-lo.
Dentro do clube, algumas pessoas reconheceram Augusto e se aproximaram. Um homem perguntou quem o acompanhava.
"Minha namorada. Helena."
Ela sentiu o nome da relação lhe ser colocado diante de estranhos como mais uma roupa que não escolhera vestir.
Cumprimentou com a cabeça, sem sorrir muito. Augusto conversou por alguns minutos, e ela tocou sua manga para lembrá-lo do restaurante.
Ele encerrou a conversa.
Sentaram-se numa mesa afastada. Helena escolheu a refeição sem esperar que Augusto apontasse opções e pediu água. Comeu depressa no começo, depois desacelerou quando a fraqueza diminuiu.
O homem que os cumprimentara passou perto da mesa e desejou um bom passeio. Helena esperou que se afastasse antes de olhar para Augusto.
"Não precisava me apresentar daquele jeito."
"De que jeito?"
"Como se eu estivesse aqui porque queria ser sua namorada."
Augusto baixou o copo.
"O que queria que eu dissesse?"
"Meu nome. Só isso bastava."
Ele não discutiu. Helena voltou ao prato, percebendo que falar não resolvia tudo, mas impedia que aquela versão fosse a única a existir entre os dois.
Ele lhe ofereceu sobremesa. Ela recusou porque queria ir embora, não porque fosse incapaz de gostar de uma coisa doce naquele dia.
O administrador do clube veio cumprimentá-los e comentou que a área de tiro estava disponível para uma experiência acompanhada. Augusto perguntou se Helena gostaria de conhecer.
"Não tenho vontade."
"Você nunca tentou."
"Não preciso tentar tudo."
Ele assentiu e disse que gostaria de passar lá alguns minutos. Ela aceitou acompanhá-lo até a área porque, naquele momento, discutir o trajeto parecia exigir mais energia que percorrê-lo.
O som dos disparos a fez parar antes da entrada.
Um instrutor se apresentou e explicou como funcionava a experiência. Helena recebeu proteção para os olhos e para os ouvidos. A presença de alguém que falava com ela diretamente, sem esperar que Augusto respondesse em seu lugar, diminuiu um pouco a tensão.
"Pode apenas observar", o homem disse. "Depois decide se quer participar."
Helena assentiu.
Augusto fez uma rodada curta. Ela viu os alvos, o movimento das pessoas e o cuidado do profissional que acompanhava a atividade. Não era como uma cena de filme em que alguém pegava uma arma e fazia o que quisesse.
Quando o instrutor perguntou outra vez, ela hesitou.
"Uma tentativa", respondeu.
Augusto se aproximou para ajudá-la a ajustar a proteção. Helena se afastou ligeiramente, deixando que o profissional conferisse.
Ele percebeu, mas não insistiu.
A primeira experiência a deixou tensa. O ruído, mesmo abafado, passou pelo corpo como um susto. Pensou em parar antes de terminar, mas o instrutor lhe deu tempo para se recompor.
Helena olhou para o alvo marcado.
Tinha sido um gesto seu que produzira aquele resultado.
Não a vontade da mãe. Não uma reunião organizada por Augusto. Não uma dívida maior do que conseguia imaginar.
O pensamento trouxe uma energia inesperada.
"Quer parar?", perguntou o instrutor.
Ela balançou a cabeça.
"Quero tentar outra vez."
Augusto permaneceu ao lado, acompanhando a mudança em seu rosto. Helena já não olhava para ele a cada decisão. Perguntava ao profissional, esperava, escolhia continuar.
Não precisava acertar tudo.
O prazer vinha de agir e ver alguma coisa responder.
Depois de outra rodada, tirou a proteção por um momento e olhou suas próprias mãos. Ainda tremiam um pouco, mas agora a sensação não era apenas medo.
"Gostou?", Augusto perguntou.
Ela levantou o rosto, surpresa com a vontade de rir.
"Gostei."
O sorriso durou alguns segundos antes que lembrasse com quem estava. Não conseguiu recolhê-lo completamente. A alegria era pequena, mas era dela, e não precisava desaparecer só porque Augusto a tinha levado até ali.
O instrutor mostrou o resultado e comentou sua evolução. Helena fez perguntas sobre as marcas que tinha conseguido e sobre a experiência anterior dele, sem pedir orientações que pretendesse usar fora daquele lugar.
Ao encerrar, os braços estavam cansados. Ela agradeceu e deixou os equipamentos onde lhe indicaram.
No caminho até a área de descanso, Augusto lhe ofereceu uma garrafa de água. Dessa vez, ela a recebeu sem sentir que precisava recusar tudo para provar alguma coisa.
"Está diferente", ele observou.
"Estou com menos raiva de mim. Não confunda."
Ele abriu um sorriso que ela não devolveu.
Ainda assim, Helena conseguiu se sentar sem a mesma sensação de que o corpo só existia para suportar o que vinha depois.
Passaram mais algum tempo no clube. Ela não se tornou conversadora com os conhecidos de Augusto, mas respondeu a uma pergunta sobre a faculdade e pediu que não a fotografassem quando alguém sugeriu registrar a visita.
Augusto concordou antes que a pessoa insistisse.
Helena guardou aquela concordância como um gesto pontual. Não como uma prova que apagasse o resto.
No carro, olhou para o telefone. Lucas ainda não respondera sobre o programa. A incerteza voltou, mas encontrou um espaço diferente dentro dela.
Talvez ele escolhesse ficar.
Talvez uma oportunidade não fosse capaz de retirar tudo o que haviam prometido no camping.
"A aposta continua valendo?", perguntou.
Augusto virou o rosto por um instante.
"A proposta, sim. Você ainda não aceitou."
"Se eu ganhar, encerra a dívida e me deixa ir. Não inventa outro motivo depois."
"Sim."
Helena respirou fundo.
"Eu aceito."
Ele assentiu, sem demonstrar a pressa que sentira durante toda a manhã.
"Está combinado."
Helena olhou para a janela. Não tinha conquistado a liberdade. Tinha encontrado uma forma de esperar por ela, e naquele momento isso parecia suficiente para continuar respirando.
Augusto dirigiu em silêncio.
Conhecia o efeito que um pequeno instante de controle podia ter sobre alguém que passara dias se sentindo incapaz de decidir. Tinha levado Helena ao clube pensando nisso, embora não houvesse escolhido cada reação dela.
Agora a esperança fazia parte do acordo.
Ela ainda queria ir embora.
Ele acabara de lhe dar uma razão para permanecer enquanto tentava.
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