"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 41
Foi você que destruiu minha vida
Helena estendeu a mão para recuperar a caixa.
Augusto a manteve fora de seu alcance.
"Não precisa esconder", disse. "Só precisa responder."
Ela sentiu o rosto queimar de humilhação.
"Eu não escondi. Coloquei no meu bolso."
"Você costuma comprar?"
"Eu sei para que serve. Isso não devia ser uma conversa difícil."
O homem olhou para a embalagem outra vez e a apertou entre os dedos.
"Lucas já ficou com você?"
O nome fez Helena levantar a cabeça.
"Não fale dele."
"Eu perguntei uma coisa."
"Eu não devo contar minha intimidade para você."
Augusto se aproximou, e ela recuou até sentir o móvel atrás das pernas. Não queria que a conversa terminasse como a do escritório, com um braço preso e a porta longe.
"Não aconteceu o que você está imaginando", disse por fim, querendo encerrar a ameaça que percebia no olhar dele. "Mas eu não tinha de provar isso."
Augusto continuou a observá-la.
"Comprei porque não quero engravidar", Helena acrescentou. "Estou na faculdade. Eu penso nessas coisas."
Ele deixou a caixa sobre a mesa, ainda amassada.
"Não precisa se preocupar com isso comigo. Fiz uma vasectomia."
Ela demorou a entender.
"Você fez o quê?"
"Uma cirurgia. Há anos."
Helena olhou para a embalagem e voltou ao rosto dele. Era um segredo inesperado, mas não lhe oferecia a segurança que Augusto parecia imaginar.
"Isso não muda que eu quero escolher como me proteger."
"Estou dizendo que não planejo ter filhos."
"E eu estou dizendo que não quero que escolha tudo por mim."
Ele retirou a caixa da mesa e a deixou numa gaveta, longe da mão dela. Depois avisou que a família não sabia e que não queria o assunto comentado, nem mesmo com Marisa.
Helena ficou em silêncio. Sentia raiva de receber um segredo como mais uma instrução.
Augusto foi até a bancada, colocou água num copo e perguntou se ela queria beber. Helena assentiu porque a garganta estava seca.
Quando lhe entregou o copo, ele levantou a outra mão para sustentar seu queixo. Ela se afastou imediatamente.
"Eu consigo sozinha."
O gesto trouxe uma lembrança com uma nitidez que não tivera ao acordar na casa dos avós: água, uma voz baixa, a mãe ausente, um contato indevido antes que conseguisse compreender.
Helena pousou o copo.
"Naquela noite. Quando estava com febre."
Augusto a olhou.
"Você se lembra?"
A pergunta bastou.
"Você entrou no meu quarto."
"Fui ver como estava."
"E me beijou?"
Ele não respondeu depressa o suficiente para que pudesse negar a lembrança.
Helena sentiu o corpo inteiro ficar frio.
"Eu estava doente. Achei que tivesse sonhado."
"Você pedia água, chamava..."
"Pela minha mãe. Eu chamava pela minha mãe."
Ela apertou os dedos sobre a bancada. Aquilo explicava parte do medo de Marisa, as perguntas sobre os quartos, a urgência do apartamento.
Tantas pessoas tinham sabido alguma coisa antes dela.
"Eu não estava entendendo o que acontecia. Você não tinha direito."
Augusto colocou o próprio copo de lado e se aproximou. Helena levantou a mão para impedir.
"Não encosta em mim."
Ele parou por um instante.
"Helena, não quero passar a noite discutindo o passado."
"Para você é passado porque você sabia. Eu estou descobrindo agora."
As lágrimas vieram junto com a raiva. Ela olhou para a escada, para a porta da entrada, para o telefone dentro da bolsa. Precisava de uma saída antes que a noite se fechasse de novo em torno de uma vontade que não era sua.
Pegou o casaco.
"Quero ir para casa."
Augusto segurou seu braço.
"Você veio até aqui."
"E estou dizendo que quero ir embora."
"Não pode continuar fugindo de cada conversa."
Helena puxou a mão de volta e bateu no peito dele para criar distância. Augusto a segurou mais firme, chamando seu nome como se a resistência fosse uma crise que precisasse administrar.
"Foi você que destruiu minha vida", ela disse, chorando. "Eu estava tentando viver. Você não me deixou."
Ele lhe disse que poderia cuidar dela, que as coisas seriam diferentes quando parasse de se assustar com cada aproximação.
Helena não ouviu uma promessa.
Ouviu a exigência de mudar a própria reação para que ele não precisasse mudar nenhum gesto.
Naquela noite, Augusto ignorou sua recusa e impôs uma relação sexual. Helena não quis o que aconteceu. O acordo feito sob a pressão da dívida não apagou as vezes em que pediu distância, nem lhe deu condições de escolher livremente.
O que guardou foram fragmentos: a porta fechada, a dificuldade de fazer sua voz parecer suficiente, o pedido para apagarem a luz. Não queria ser observada enquanto perdia até a possibilidade de se afastar.
Ele apagou uma das luminárias.
Não lhe devolveu a saída.
Depois, Helena ficou deitada sem falar. O teto tinha linhas de uma decoração que antes não percebera. Concentrou-se nelas, tentando pensar em qualquer coisa que não fosse o corpo cansado ou a mão dele perto de sua cabeça.
Augusto perguntou se precisava de água.
Helena pensou em pedir o telefone. Não para falar com Lucas; só para segurar alguma coisa que tivesse trazido de sua própria casa.
Olhou para a bolsa, distante sobre a cadeira, e começou a se mover. Augusto perguntou o que procurava. A pergunta a fez parar por um instante.
"Minhas coisas."
Ele trouxe a bolsa e deixou ao alcance da mão. Helena a puxou para perto, sem agradecer. O objeto não tinha sido um presente. Não precisava recebê-lo como se ele estivesse lhe concedendo o direito de conservar algo seu.
Ela balançou a cabeça.
Não queria reconhecer na pergunta um cuidado que chegava depois de ter sido ignorada.
Quando finalmente se levantou, levou a bolsa ao banheiro e fechou a porta. Seu telefone tinha mensagens de Lucas. Não as abriu.
Desligou o aparelho, apoiou as mãos na pia e ficou olhando para o espelho sem conseguir sustentar o próprio olhar.
Nada no rosto anunciava o que acontecera. Era isso que a assustava: o mundo poderia vê-la voltar às aulas, responder chamada, abrir um livro e imaginar que continuava vivendo a mesma vida.
Lavou o rosto e voltou ao quarto porque não sabia como sair daquela casa sem atravessar Augusto novamente.
Ele levantou a coberta para ela.
Helena se deitou na borda oposta, virada para a janela.
Não tinha se tornado mais próxima dele.
Tinha apenas perdido mais uma maneira de ficar longe.
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