"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 39
Não vim porque senti saudade
Helena vestiu o casaco diante do espelho.
O cabelo estava preso sem cuidado, e a camisa tinha uma dobra que não passara. Olhou para si como se procurasse alguma coisa capaz de reduzir o interesse de Augusto.
Não sabia se simplicidade o afastaria.
Sabia apenas que não tinha vontade de se enfeitar para ele.
Antes de sair, conferiu a mensagem com o endereço. O hotel era o mesmo. O andar, diferente. Augusto pedira que informasse seu nome na recepção e subisse quando chegasse.
Lucas mandou um áudio enquanto ela pegava as chaves.
Falava de uma apresentação que dera certo e dizia que tentaria ligar mais tarde. Helena escutou até o fim, sentindo uma culpa que não conseguia organizar em palavras para ele.
Respondeu que estava ocupada e desejou que o trabalho fosse bem.
Na rua, parou diante de uma farmácia.
Ficou alguns segundos olhando a porta automática antes de entrar. Comprou uma caixa de preservativos e guardou no bolso interno do casaco. A atendente não fez perguntas, e Helena agradeceu por aquela indiferença profissional com uma intensidade que não demonstrou.
Não queria engravidar. Não queria abandonar a faculdade. Não queria acrescentar uma consequência que a ligasse ainda mais a um homem de quem esperava sair.
Pedir proteção para si parecia uma coisa mínima.
No carro de aplicativo, manteve a mão sobre o bolso até chegar ao hotel. O motorista perguntou se a temperatura estava agradável, e a simplicidade da pergunta quase a fez chorar.
No caminho, Marisa enviou uma mensagem perguntando se tinha saído. Helena respondeu que sim e guardou o aparelho antes de ler a seguinte.
Não queria receber um conselho sobre como tratar Augusto. Já levava consigo palavras demais: as da mãe, as de Camila, as que repetira sozinha para tornar o encontro suportável.
O motorista mudou o trajeto por causa de uma rua fechada e explicou a alteração. Helena assentiu, agradecida por ser avisada de uma coisa pequena que afetava seu destino. Na tela, os minutos previstos aumentaram. Ela não reclamou do atraso.
"Está. Obrigada."
Ele a deixou diante da entrada e desejou uma boa noite.
Helena não soube responder.
A recepcionista conferiu seu nome, telefonou e entregou um cartão. Helena entrou no elevador sentindo o coração bater num ritmo que não diminuía.
Quando a porta do quarto abriu, Augusto estava no sofá com uma revista.
Usava uma blusa escura e calça cinza. Sem o paletó, parecia menos distante do ambiente em que ela costumava encontrar os pais dos colegas. Ainda assim, não havia nada familiar na atenção com que a olhou.
Ele colocou a revista de lado.
"Boa noite."
"Boa noite."
Helena fechou a porta e permaneceu perto dela. Não tinha levado uma mala. Carregava apenas uma bolsa pequena, o telefone e a chave do apartamento.
Augusto olhou para o casaco.
"Está calor aqui. Pode tirar."
Ela abriu o zíper sozinha e segurou a peça dobrada. Não a entregou imediatamente, embora ele estendesse a mão.
"Deixo ali", disse, indicando uma cadeira.
Augusto acompanhou o movimento sem discutir.
Depois perguntou se estava melhor dos últimos dias. Helena levou um segundo para entender que não falava do resfriado de meses antes.
"Minha mãe disse que você resolveu."
"André está cuidando do que precisa ser formalizado. Não vai faltar dinheiro para encerrar os compromissos."
Ela assentiu.
"Obrigada."
A palavra não lhe pareceu suficiente nem justa. Ele esperava outra coisa em troca, e os dois sabiam.
Augusto apontou o lugar ao lado dele. Helena sentou-se deixando espaço entre os corpos. Apoiar os pés no chão e manter a bolsa no colo eram pequenas formas de lembrar que ainda podia levantar.
"Sentiu minha falta?", ele perguntou.
Ela olhou para a revista fechada.
"Não vim porque senti saudade."
Augusto ficou quieto por um instante.
"Você prefere que a gente continue falando só da dívida?"
"Foi por isso que eu vim."
Ele pegou sua mão. Helena permitiu o primeiro toque sem retribuir, esperando que terminasse ali. Quando ele a puxou para mais perto, seu corpo se enrijeceu.
"Não precisa ficar assim."
"Não sei ficar de outro jeito."
Augusto a beijou apesar da rigidez com que ela recebeu a aproximação. Helena virou o rosto quando conseguiu se afastar, segurando a bolsa contra o corpo.
Não havia alegria naquilo. A preparação dos últimos dias não transformava obrigação em vontade.
Ele perguntou se estava zangada.
"Você sabe que estou."
"Podemos passar uma noite sem discutir."
"Podemos passar uma noite sem fingir também."
A resposta saiu antes que Helena decidisse se deveria dizê-la. Augusto a observou, reconhecendo a coragem que surgia quando ela já não encontrava uma forma segura de agradá-lo.
"Gosto quando fala comigo."
"Mesmo quando digo que não quero?"
Ele não respondeu diretamente. Tocou seu rosto, e Helena afastou a cabeça, cansada de cada frase terminar num gesto que não pedira.
"Me deixa respirar."
Augusto retirou a mão.
Ela aproveitou para se afastar no sofá e colocar a bolsa sobre os joelhos novamente. Não parecia um encontro. Parecia uma espera por algo que vinha sendo marcado sem sua participação desde muito antes daquele sábado.
"Você podia pelo menos olhar para mim", ele disse.
Helena olhou.
Não sorriu.
O telefone vibrou na bolsa. Ela não precisou conferir para pensar em Lucas, e esse pensamento bastou para que Augusto também olhasse para o objeto.
"Não vai atender?"
"Agora não."
Ele pareceu satisfeito com a resposta. Helena sentiu raiva de ter oferecido, sem querer, uma coisa que ele poderia interpretar como preferência.
"Está com fome?"
Ela havia comido pouco durante o dia, esperando que o estômago deixasse de doer quando chegasse. Não deixara.
"Estou."
"O que quer comer?"
"Qualquer coisa."
Augusto se levantou e estendeu a mão. Helena hesitou antes de segurá-la.
"Podemos pedir aqui."
Ela olhou para a porta do quarto interno, entreaberta, e entendeu como seria fácil a refeição se tornar mais uma coisa adiada.
"Eu queria sair. Ir ao restaurante."
"Está cansada de mim tão depressa?"
Helena sentiu os olhos arderem.
"Eu queria comer num lugar em que conseguisse pensar em comida."
A sinceridade mudou o silêncio entre eles.
Augusto ficou olhando para ela por alguns segundos. Depois pegou o telefone, avisou que precisariam do carro e lhe entregou o casaco.
Helena vestiu a peça imediatamente, protegendo o pequeno objeto guardado no bolso.
Quando saíram do quarto, sentiu um alívio que sabia ser provisório.
Era apenas um jantar.
Naquela noite, isso já lhe parecia tempo suficiente para tentar respirar.
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