"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 36
Você ganhou
Helena tentou responder, mas a primeira palavra não saiu.
Encostou o telefone no ouvido com as duas mãos e se obrigou a respirar. O rosto ainda ardia, e a vergonha de ouvir aquela voz não era menor que o medo de perdê-la antes de fazer o pedido.
"Augusto."
Houve uma pausa curta.
"Helena."
Ele disse seu nome sem surpresa. Ela pensou que talvez tivesse visto as chamadas anteriores e escolhido o momento em que desejava atender.
"Preciso falar uma coisa."
"Estou ouvindo."
Helena fechou os olhos. Poderia desligar. O gesto continuava ao alcance de um dedo, pequeno demais para corresponder ao tamanho das consequências que imaginava.
Não o fez.
"Minha mãe teve um problema."
"Que problema?"
"Perdeu dinheiro num investimento. E usou coisas que não eram só dela."
Augusto esperou.
A ausência de perguntas a obrigou a explicar mais. Helena contou o que Marisa lhe dissera sobre as dívidas, as garantias e o medo de levar a situação a Eduardo.
Tentou ser objetiva. A voz falhou mesmo assim.
"Precisamos recuperar o que foi envolvido antes que piore. Eu queria saber se você pode emprestar o dinheiro."
"Quanto?"
"Oito milhões de reais."
Depois de dizer a quantia, Helena percebeu como ela soava na própria boca. Não combinava com uma estudante sentada no chão de um apartamento alugado, cercada de livros comprados em promoção.
Augusto não pareceu impressionado.
"Meu irmão sabe?"
"Não."
"Pedro?"
"Também não."
"Então sua mãe quer que eu resolva e esconda a situação dos dois."
Helena apertou o aparelho.
"Ela está com medo."
"Isso não responde."
"É. Quer."
A palavra saiu como uma confissão que não era sua, mas que precisava carregar.
Augusto perguntou por que Eduardo não poderia ser informado. Helena explicou novamente a saúde dele, a reação dos pais, a vergonha de Marisa. Quando terminou, sentiu que tinha defendido cada razão da mãe sem conseguir proteger a si mesma de nenhuma delas.
"Eu posso escrever um compromisso", acrescentou depressa. "Reconhecer o que foi emprestado. Minha mãe também. Não estou pedindo que dê dinheiro para nós."
"E como pretende devolver?"
"Eu vou trabalhar."
"Você está no primeiro ano da faculdade."
"Vou terminar. Posso trabalhar antes também. Fazer outras coisas."
"Que coisas?"
Helena ficou quieta por um segundo. Tinha pensado em empregos, traduções futuras, aulas, qualquer ocupação que pudesse existir entre as disciplinas. Não havia pensado que precisaria apresentar uma vida inteira como garantia naquela mesma noite.
"O que conseguir."
Augusto soltou uma respiração que se pareceu com um riso.
"Não confunda vontade de ajudar com capacidade de pagar essa quantia."
"Eu não estou dizendo que vai ser rápido."
"Está dizendo que não sabe."
Helena encostou a testa nos joelhos.
Oito milhões. Mesmo antes de imaginar um salário, o número parecia afastar a possibilidade de um fim. Não precisava de uma conta feita por ele para entender. Precisava de uma chance de transformar aquilo em algo que pudesse cumprir.
"Você pode dar um prazo maior."
"Pode durar sua vida inteira e continuar sendo insuficiente. Quer que eu aceite uma promessa que nem você consegue sustentar?"
Ela chorou em silêncio, tentando não deixar o som atravessar o telefone.
Augusto pediu que falasse.
"Estou tentando achar uma forma", respondeu.
"Há uma forma mais simples. Contar ao meu irmão."
Helena levantou a cabeça.
"Minha mãe não quer."
"Sua mãe quer muitas coisas ao mesmo tempo."
A frase a fez pensar na ligação daquela manhã. Talvez ele tivesse razão ali, mas isso não o tornava a pessoa a quem gostaria de entregar aquela certeza.
"Eu sei."
"Então por que está falando comigo?"
Helena fechou os olhos outra vez.
Porque sua mãe pedira. Porque continuava querendo ouvir a voz dela sem imaginar que a perderia. Porque a possibilidade de ser culpada por desistir a acompanharia mesmo que conseguisse defender-se naquela noite.
Nenhuma dessas respostas parecia digna de ser entregue a Augusto.
"Porque preciso da sua ajuda."
"Na última vez que conversamos, você disse que isso não aconteceria."
Ela segurou o telefone com mais força.
Ele lembrava.
Não precisava consultar uma frase guardada. Tinha esperado tempo suficiente para mantê-la pronta.
"A situação mudou", Helena disse.
"Para você."
"O que você quer que eu diga?"
"A verdade. Está me pedindo?"
A pergunta tinha uma crueldade pequena, exata. Ela já havia pedido dinheiro, oferecido uma promessa, contado tudo que conseguia. Ainda assim, ele queria ouvir a posição em que a colocara.
"Estou."
"Não ouvi."
Helena enxugou o rosto com a manga.
"Estou pedindo. Por favor."
Augusto permaneceu em silêncio por alguns segundos. Ela esperou que o reconhecimento bastasse, embora soubesse que aquela esperança não combinava com o que ele havia dito no escritório.
"Não sou obrigado a resolver o problema da sua mãe", respondeu por fim. "E não quero passar a noite fingindo que você não entende essa conversa."
"Eu entendo que você quer alguma coisa em troca."
"Entende?"
Helena não respondeu.
Ouvir a pergunta a fez lembrar de Lucas na barraca, falando de uma casa que escolheriam juntos. Tinham passado menos de dois dias desde aquela promessa. Não parecia possível que o futuro mudasse tanto sem que o quarto, a rua ou o céu mostrassem alguma diferença.
"Pense no que está disposta a fazer", Augusto disse.
"Espera."
A ligação terminou.
Helena olhou para a tela. O silêncio do apartamento voltou inteiro, sem uma voz em que pudesse apoiar o próximo pedido.
Uma mensagem da mãe apareceu quase ao mesmo tempo.
"Conseguiu falar?"
Ela levou o telefone ao peito.
Não queria responder a nenhuma das duas pessoas. Queria voltar à manhã anterior, reclamar de uma mochila pesada e ter apenas uma viagem de ônibus separando-a de casa.
Pensou em Eduardo, no modo como recebera a palavra pai sem exigir nada depois. Pensou em procurá-lo. Mas o medo de Marisa chorando, dizendo que tinha destruído a vida dela, veio antes que conseguisse escolher o contato.
Abriu novamente o nome de Augusto.
Ligou.
Ele atendeu antes do segundo toque.
"Você ganhou", Helena disse, com uma voz que já não tentava esconder o choro. "Se resolver o problema da minha mãe, eu aceito."
"Aceita o quê?"
Ela se obrigou a terminar.
"O que você está me pedindo. Ficar com você."
Em São Paulo, Augusto estava sentado diante de uma janela, com o telefone na mão e a luz da mesa acesa.
Tinha observado as duas primeiras chamadas sem responder. Agora ficou tão imóvel que precisou concentrar-se para não apertar o aparelho com força demais.
Do outro lado, Helena continuava esperando.
Ele poderia ter procurado uma justificativa bonita. Dizer que ela finalmente compreendia seus sentimentos, que a distância lhe mostrara o que desejava.
Não confundia o choro com amor.
Sabia que ela estava ali porque uma perda grande demais atingira a pessoa de quem não conseguia desistir. Também sabia o que fizera para que aquela perda chegasse no momento em que já não suportava esperar.
A voz dela soou outra vez.
"Você vai ajudar?"
Augusto fechou os olhos por um instante.
Durante quatro meses, esperara que ela o procurasse por vontade própria. Depois encontrara Lucas à porta do apartamento e decidira que não esperaria mais.
"Vou", respondeu.
A palavra fez Helena respirar do outro lado, num alívio tão doloroso que ele não poderia chamar de felicidade.
Ainda assim, a mão dele tremia quando colocou o telefone sobre a mesa.
Era a ligação que estivera esperando.
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