"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 35
O telefone que ela adiou
Helena deixou o aparelho cair sobre o colchão.
Não conseguiu levantar de imediato. Ficou sentada com os joelhos junto ao peito, olhando para a chave que continuava sobre o criado-mudo.
A mãe sabia.
Não sabia cada palavra do escritório antes daquela ligação, mas já percebera uma intenção suficiente para tirá-la da casa. Havia encontrado uma forma de protegê-la sem discutir com a família. Agora pedia que atravessasse de volta o caminho que ajudara a abrir.
Helena não conseguia separar o amor que sentia pela mãe da raiva de escutá-la suplicar.
As duas coisas estavam ali. Uma não diminuía a outra.
O telefone começou a tocar.
Ela olhou para a tela, viu o nome de Lucas e esperou alguns segundos antes de atender. Não queria que ele ouvisse sua voz daquele jeito. Também não queria passar a manhã inteira sem escutar uma pessoa que gostasse dela sem pedir uma prova.
"Oi."
"Você estava dormindo?"
"Estava."
Era mais fácil mentir sobre o sono que explicar o resto.
Lucas falou com pressa, e um aviso de embarque surgiu ao fundo. Helena afastou o telefone do ouvido para conferir se tinha entendido.
"Você está no aeroporto?"
"Estou. A equipe reorganizou a divulgação do jogo. Vou participar de umas apresentações fora daqui."
Ela se endireitou.
"Quando decidiram isso?"
"Ontem à noite confirmaram a primeira passagem. Eu tinha avisado que talvez precisasse viajar, mas achei que seria só na semana que vem."
"Por quanto tempo?"
"Depende dos encontros. Tem mais de uma cidade. Vou tentar voltar nos intervalos."
Helena segurou a borda do colchão.
Lucas explicou que os colegas mais adiantados no curso estavam ocupados com trabalhos finais e que sua parte na apresentação do projeto o tornava uma escolha natural. Conseguira conversar sobre as ausências na universidade e levaria material para não abandonar as disciplinas.
Havia entusiasmo na voz, misturado ao cansaço de organizar tudo depressa.
Ela quis ficar feliz por ele.
"Não deu para passar aqui?"
Lucas ficou quieto por um segundo.
"Eu queria. Tive que buscar uns documentos, arrumar as coisas, correr para o aeroporto. Não achei que você já estivesse acordada."
Helena apertou os olhos para conter o choro.
"Entendi."
"Você está triste?"
"Queria ver você."
"Eu também. Posso ligar quando chegar. Não vai ser sempre assim."
Ela quase pediu que não fosse. Mas o pedido lhe pareceu injusto antes mesmo de encontrar palavras. Lucas não sabia da dívida, do medo, da obrigação que sua mãe acabara de colocar em suas mãos.
Não devia abandonar uma oportunidade apenas porque ela precisava de um lugar para se esconder.
"Me avisa quando pousar", disse.
"Aviso. E me manda mensagem se precisar. Talvez eu demore durante as reuniões, mas vou responder."
Helena assentiu, esquecendo que ele não podia ver.
Lucas lhe disse que a amava antes de desligar.
Ela ficou olhando para a tela depois que a chamada terminou. O medo de que tudo estivesse conectado voltou, mais forte. A visita, a reunião noturna, a viagem repentina, o dinheiro perdido.
Mas ter medo não era o mesmo que saber.
Não tinha uma confirmação para oferecer ao namorado, nem coragem para contar a ele que sua mãe esperava que pedisse oito milhões de reais ao homem que a segurara no escritório.
Abriu a lista de contatos.
O nome ainda estava salvo como tio Augusto.
Helena olhou para aquelas palavras durante tanto tempo que a tela escureceu. Não mudou o nome. Não ligou.
O alarme que usava para se preparar para a aula tocou logo depois. Agarrou a rotina como uma desculpa que alguém tivesse deixado ao alcance da mão.
Ligaria quando voltasse.
Tomou banho, vestiu a primeira roupa limpa que encontrou e comeu um pedaço de pão sem sentir fome. A chaleira apitou por tempo demais antes que percebesse que esquecera de desligá-la.
Na universidade, sentou ao lado de Camila.
A amiga perguntou se estava cansada da viagem. Helena disse que sim. Durante a aula, copiou o título da apresentação e ficou olhando para a página vazia abaixo dele.
Uma mensagem da mãe chegou no intervalo.
"Você falou com ele?"
Helena respondeu que estava estudando.
Marisa mandou outra perguntando quando poderia tentar. A filha guardou o telefone antes de escrever algo de que se arrependesse.
Ao fim das aulas, Camila sugeriu jantar num restaurante novo. Helena aceitou porque a fome começara a aparecer e porque uma mesa com outra pessoa oferecia mais uma hora sem aquela ligação.
Tentou conversar. Riu no momento errado de uma história e recebeu um olhar atento da amiga.
"Aconteceu alguma coisa?"
"Um problema em casa. Ainda não sei resolver."
Camila não exigiu detalhes. Perguntou apenas se podia ajudar.
Helena balançou a cabeça e agradeceu. Quis guardar a pergunta simples, sem insistência, como uma coisa pequena que ainda era possível receber.
Voltou para o apartamento e tomou outro banho, desta vez para tirar o cheiro de comida da roupa e encontrar mais alguns minutos de adiamento.
Quando saiu, o telefone tinha novas mensagens de Marisa e uma fotografia enviada por Lucas, já na cidade em que faria a apresentação.
Ele parecia feliz.
Ela respondeu que a viagem parecera boa e pediu que comesse alguma coisa. Não queria colocar seu medo dentro daquele sorriso por uma tela.
Depois sentou no chão, junto ao sofá.
Pensou em não fazer nada.
Se a família descobrisse a perda, talvez Marisa tivesse de enfrentar o que fizera. Talvez as duas fossem embora. Poderiam alugar um lugar pequeno, procurar trabalho, viver com menos. Helena imaginou até interromper o curso e voltar depois, quando tivesse dinheiro.
A ideia lhe trouxe um alívio breve.
Logo veio o rosto da mãe, cansado de tantos ônibus, perguntando se ela entendia por que não conseguia começar tudo outra vez.
Helena chorou, irritada por continuar desejando protegê-la.
Deu um tapa no próprio rosto antes de perceber o movimento e ficou imóvel, assustada com a violência daquela raiva voltada para si. Depois baixou a mão e apoiou a palma no chão, tentando respirar.
Não resolveu nada.
Abriu novamente o contato de Augusto e apertou o botão de chamada.
O telefone tocou até parar sozinho.
Ligou outra vez.
Durante a espera, sentiu vergonha por insistir e uma esperança quase cruel de que ele não atendesse. Se não conseguisse falar, talvez ainda pudesse dizer à mãe que tentara.
Na terceira ligação, já procurava aquela desculpa.
Então o som foi interrompido.
"Alô."
A voz de Augusto chegou baixa e impaciente, como se ela estivesse tomando um tempo que não lhe pertencia.
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