"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 25
Uma chave que fosse só dela
Quando Helena abriu os olhos, Marisa continuava junto à cama.
A febre havia baixado. O corpo ainda estava pesado, mas a cabeça parecia menos distante, e ela conseguiu perceber a expressão da mãe antes mesmo de ouvir a pergunta sobre como se sentia.
"Você não dormiu?"
"Dormi um pouco. E você?"
"Acho que sim. Sonhei uma coisa esquisita."
Marisa ficou imóvel.
Helena procurou organizar a lembrança: água, uma voz que não era da mãe, uma proximidade desconfortável. Quanto mais tentava lembrar, menos certeza tinha de onde terminava a realidade.
"Não sei explicar", disse. "Acordei várias vezes."
Marisa pegou o copo e perguntou se queria água. Helena aceitou e bebeu sozinha, satisfeita com a facilidade de um gesto que durante a noite parecera exigir ajuda.
A mãe esperou que devolvesse o copo.
"Como é morar em Curitiba?"
"Você está perguntando da cidade?"
"Da casa. Da sua rotina."
Helena se recostou nos travesseiros.
"É boa. A Célia é gentil. Tem espaço, fica num lugar seguro."
Marisa escutou a lista de qualidades que ela mesma repetira tantas vezes.
"E você gosta?"
A filha demorou.
"Não é a mesma coisa."
"O quê?"
"Ser uma casa boa e ser uma casa em que eu gosto de ficar."
Marisa abaixou os olhos. Helena pensou que a tinha magoado e começou a acrescentar explicações, dizendo que não era ingrata, que sabia quanto custaria algo parecido, que não queria ofender Augusto.
"Eu não estou pedindo que agradeça agora", a mãe interrompeu.
Helena parou, surpresa.
Marisa arrumou uma dobra do lençol sem necessidade.
"Ele vai muito lá?"
"Quando tem trabalho. Às vezes fica."
"E entra no seu quarto?"
Helena franziu a testa.
"Bate antes. Eu fecho a porta."
A mãe assentiu lentamente, sentindo um alívio que não durou. A resposta falava do que Helena sabia. Não de tudo o que podia acontecer.
"Você se sente à vontade com ele?"
Helena olhou para a janela.
Se dissesse não, teria de explicar a madrugada da água fria, as perguntas, o medo de desobedecer a uma pessoa que todos consideravam generosa. Não queria começar uma briga durante uma visita de família, ainda mais depois da conversa sobre Eduardo.
"Ele é muito sério", respondeu. "Eu nunca sei quando vai achar alguma coisa errada."
Marisa reconheceu o cuidado da filha em falar sem acusar.
O silêncio que deixou em seguida permitiu a Helena acrescentar uma frase menor.
"Às vezes parece que eu estou hospedada, mesmo morando lá."
A mãe passou a mão sobre a dela.
"E se a gente procurasse um apartamento para você?"
Helena se ergueu um pouco depressa demais.
"Para mim?"
"Um lugar menor, perto da universidade. Com segurança, claro. Eu ajudaria a organizar."
"Eu poderia escolher?"
Marisa sentiu a pergunta como uma culpa concreta.
"Poderia."
Helena começou a falar de bairros, de uma colega que morava perto de um ponto de ônibus, da possibilidade de ir a pé para algumas aulas. Depois parou, receosa de ter mostrado alegria demais.
"Mas você acha que ele vai ficar chateado?"
"Eu converso com ele."
"Não precisa dizer que eu reclamei."
Marisa apertou seus dedos.
"Você não reclamou de nada errado."
A frase fez Helena baixar a cabeça, emocionada. Não era a mudança de endereço ainda. Não havia contrato nem chave. Mesmo assim, a possibilidade lhe devolvia um espaço que julgara perdido.
Depois do banho, desceu com a mãe para tomar café. Usava uma roupa simples e levou o casaco de Lucas dobrado sobre o braço, pretendendo guardá-lo na mala antes de sair.
Lídia estava à mesa com Antônio e Eduardo. Augusto não aparecera. Pedro olhava alguma coisa no telefone e levantou o rosto quando ela entrou.
Marisa fez as apresentações.
Helena cumprimentou os mais velhos com cuidado, sem tentar imitá-los. Lídia perguntou sobre a febre e lhe ofereceu um lugar perto da janela, onde o sol chegava mais cedo.
Antônio quis saber qual curso fazia.
"Letras. Gosto de literatura."
"Ainda bem que alguém nesta família lê um livro sem procurar uma margem de lucro", Lídia comentou.
Pedro ergueu os olhos do telefone.
"Eu leio."
"Mensagens não contam."
Helena sorriu, aliviada por poder rir de alguma coisa sem se tornar o assunto principal.
Eduardo lhe serviu café com leite e perguntou se estava melhor. Ela segurou a xícara e encontrou os olhos da mãe do outro lado da mesa.
O instante chegara sem cerimônia, entre o pão e a manteiga.
"Estou, pai. Obrigada."
Eduardo deixou a jarra sobre a mesa com mais cuidado do que precisava.
Depois sorriu. Não fez um discurso, não chamou atenção para a palavra nem exigiu que ela a repetisse.
"Que bom, minha filha."
Helena sentiu os olhos arderem e olhou rapidamente para a xícara. A mãe tocou seu braço sob a mesa.
Foi Lídia quem mencionou o rapaz de que tinham falado no almoço. Disse que seria agradável organizar alguma coisa durante as férias, com jovens da idade de Helena.
Marisa respondeu antes da filha.
"Ela está se adaptando à universidade. Acho melhor deixar essas coisas acontecerem com calma."
"Era só uma visita", Lídia explicou.
"Eu sei. Mas, por enquanto, prefiro que descanse e se concentre no curso."
Helena olhou para a mãe, reconhecendo a defesa discreta. Não conhecia o assunto anterior e não sabia que Marisa, poucas horas antes, o escutara com interesse.
Pedro observou as duas e voltou ao telefone.
Eduardo levantou-se depois do café, mas parou junto à cadeira. Marisa percebeu o gesto imediatamente e perguntou se precisava se sentar mais um pouco.
"Estou bem. Só levantei depressa."
Ela não discutiu diante dos outros. Aproximou-se, ajeitou o casaco sobre os ombros dele e perguntou pelo remédio da manhã.
Helena acompanhou a cena em silêncio.
Ali estava a vida que sua mãe desejava preservar: o marido gentil, a mesa farta, a casa onde alguém se encarregava de todo detalhe. Queria acreditar que podia fazer parte dela sem entregar o direito de ficar sozinha.
Na saída, Marisa disse novamente que procurariam um apartamento.
Dessa vez, Helena não perguntou se Augusto permitiria.
Abraçou a mãe com força e pensou numa chave pequena, comum, que não precisasse dividir com ninguém.
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