"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 23
O casamento que ele não permitia
O médico chegou antes que Helena conseguisse trocar de roupa.
Marisa lhe emprestara uma camiseta limpa, e ela se sentou na beirada da cama ainda tentando convencer todos de que precisava apenas dormir. Quando o termômetro marcou trinta e oito e meio, perdeu a vontade de argumentar.
O profissional fez perguntas, examinou sua garganta e recomendou descanso, líquidos e acompanhamento da evolução dos sintomas. Deixou orientações para a família e explicou em que situações deveriam procurar atendimento novamente.
Helena escutou tudo com uma vergonha desproporcional.
"Eu atrapalhei o almoço."
"Ninguém precisa estar saudável para ter direito de chegar em casa", Eduardo respondeu da porta.
Ela levantou os olhos para ele.
O padrasto parecia cansado, mas sorria. Marisa pediu que não ficasse parado no corredor, e ele disse que só queria conferir se Helena estava confortável.
"Estou. Obrigada."
A palavra que prometera usar continuou presa. Não era o momento, decidiu, embora soubesse que sempre poderia encontrar uma razão parecida.
Eduardo se despediu com um gesto e saiu. Marisa acompanhou o médico, deixando a filha sob os cuidados de uma funcionária que trouxe água, uma bandeja e uma toalha pequena.
Helena agradeceu a cada objeto como se tivessem sido buscados em outro continente.
Depois ficou sozinha.
Escreveu a Lucas que tinha febre. Ele respondeu imediatamente, culpando-se pelo passeio ao ar livre. Ela negou que fosse culpa dele e tirou uma fotografia da flor guardada no livro.
Algumas pétalas estavam amassadas, mas a cor permanecia viva.
"Chegou inteira", escreveu.
"Você precisava chegar inteira também."
Helena sorriu e tentou responder, mas a cabeça começou a pesar. Deixou o telefone no criado-mudo e fechou os olhos por alguns minutos.
Na sala de jantar, a ausência dela modificara a organização dos lugares sem interromper o almoço.
Antônio Ferraz sentava à cabeceira. Lídia perguntou duas vezes se a menina havia comido e recebeu de Marisa a garantia de que uma bandeja fora levada ao quarto.
"Depois a conhecemos com calma", a matriarca disse. "Doente, ninguém tem obrigação de conversar."
Marisa agradeceu, satisfeita com a acolhida.
Augusto escutava em silêncio. Tinha colocado o telefone junto ao prato, numa posição que lhe permitia ver a tela sem movê-lo.
Eduardo comentou sobre o voo de Helena, depois perguntou ao filho como andavam as reuniões de trabalho. Pedro respondeu com uma formalidade que não usara no carro e procurou evitar assuntos capazes de provocar uma correção do tio.
Durante alguns minutos, conseguiu.
Lídia mudou a conversa ao mencionar uma conhecida que havia encontrado num evento beneficente. A filha dela voltara do exterior e estava trabalhando com a família.
"Uma moça excelente. Educada, inteligente."
Augusto pousou o garfo.
"Fico feliz por ela."
"Não precisa responder como se estivesse numa reunião. Eu ainda nem terminei."
Eduardo sorriu para o prato. Pedro escondeu uma risada com o copo.
Lídia continuou olhando para o filho mais novo.
"Você vai fazer trinta e nove este ano. Não acha que já viveu tempo suficiente sozinho?"
"Moro sozinho. Não vivo sozinho."
"Sabe muito bem do que estou falando."
Antônio acrescentou que a casa ficava grande demais para uma pessoa e que uma família podia dar um sentido diferente ao trabalho. Augusto escutou sem discutir o valor da família, apenas dizendo que não pretendia marcar um casamento por necessidade de preencher uma agenda.
"E Renata?", Lídia perguntou.
"Não existe essa possibilidade."
A firmeza encerrou o nome da ex-mulher antes que alguém pudesse acrescentar uma lembrança agradável.
Marisa manteve os olhos no prato. Sabia pouco sobre aquela separação e não queria demonstrar curiosidade num assunto que os demais tratavam com cuidado.
Lídia voltou-se para Pedro.
"Você também não tem muito mais tempo para rir dos outros."
"Eu não estava rindo."
"Então pode ouvir sério."
Pedro ergueu as mãos. Eduardo disse que o filho precisava se firmar no trabalho antes de assumir outras responsabilidades, mas Antônio respondeu que as duas coisas não eram incompatíveis.
Augusto tomou um gole de água.
Foi Pedro quem, tentando afastar a atenção de si, encontrou o nome que não deveria ter colocado na mesa.
"Desse jeito, vão organizar meu casamento, o do tio e o da Helena na mesma conversa."
Marisa soltou uma pequena risada.
"Helena acabou de entrar na universidade."
"A filha da Teresa também está estudando", Lídia comentou. "Está conhecendo um rapaz ótimo, neto de uns amigos nossos. Ninguém falou em casar amanhã."
O assunto poderia ter terminado ali. Mas Pedro percebeu Augusto imóvel ao lado e acrescentou que Helena talvez gostasse de conhecer pessoas da idade dela quando viesse passar as férias.
"O filho do Sérgio não voltou agora?", perguntou à avó.
Lídia animou-se com a lembrança. O rapaz terminava a faculdade, ajudava nos negócios do pai e, segundo ela, tinha maneiras excelentes.
Marisa escutou com atenção crescente.
Uma amizade numa família conhecida lhe parecia menos arriscada que os encontros sobre os quais a filha falava tão pouco. Perguntou a idade do rapaz e se também morava em São Paulo.
Augusto colocou o copo sobre a mesa com cuidado.
"Helena não precisa disso."
Lídia olhou para ele.
"Disso o quê?"
"De alguém organizando a vida pessoal dela."
Pedro abaixou a cabeça para esconder a expressão. Marisa ficou surpresa com a intervenção.
"Seria só uma apresentação", disse.
"Ela está no começo do curso. Tem outras coisas com que se preocupar."
"Você dizia exatamente o contrário quando tinha dezoito anos", Antônio observou. "Queria decidir tudo sozinho."
"E decidi."
Eduardo interrompeu com uma pergunta sobre a sobremesa. Conhecia o tom do irmão o suficiente para perceber que insistir criaria uma discussão sem motivo compreensível para a maior parte da mesa.
Lídia aceitou a mudança, embora não parecesse convencida.
Marisa olhou discretamente para Augusto. Talvez ele quisesse evitar que Helena se sentisse pressionada. Era um cuidado que combinava com o que vinha fazendo desde o casamento.
Ainda assim, havia uma dureza incomum naquele rosto.
Uma funcionária entrou para avisar que a menina no quarto tinha acordado e perguntara pela mãe.
Marisa se levantou imediatamente.
"Com licença. Vou ver como ela está."
Augusto acompanhou sua saída com os olhos. Pedro esperou alguns segundos antes de pegar o telefone sob a mesa.
A mensagem que enviou ao tio tinha apenas uma pergunta: queria que continuasse fingindo não perceber?
Augusto leu, ergueu o rosto e encontrou o sorriso do sobrinho.
Não respondeu pelo aparelho.
"Você tem trabalho demais para se ocupar da Helena", disse em voz baixa.
Pedro guardou o telefone.
Naquele almoço, todos podiam ser aconselhados a encontrar alguém.
Só a menina que dormia no quarto parecia ter despertado uma proibição.
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