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"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 20

正文开头

A casa para a qual não podiam voltar

Lucas agradeceu pelas informações durante quase dez minutos de mensagens.

Helena tentou explicar que não havia feito nada extraordinário. Só perguntara, escutara e anotara. Ele disse que era exatamente isso que precisava de alguém: uma pessoa capaz de prestar atenção quando ele começava a falar depressa demais.

Ela guardou o telefone sorrindo.

Depois o aparelho tocou outra vez. Era Marisa, e o sorriso permaneceu no rosto de Helena até a mãe começar a organizar o fim de semana.

"Pedro busca você no aeroporto. Eduardo quer apresentar você direito aos pais dele. Vai ser um almoço tranquilo, só a família."

"Eu já conheci o Eduardo, mãe."

"Não estou falando dele. Estou falando de Antônio e Lídia. Eles não puderam ir ao casamento, você lembra."

Helena se sentou na beirada da cama.

"Lembro. Eu preciso levar alguma coisa?"

"Não. Precisa só ir arrumadinha e ser educada. E queria pedir uma coisa antes."

O tom da mãe mudou o suficiente para Helena deixar de olhar as mensagens de Lucas.

"O quê?"

"Chame Eduardo de pai."

Ela permaneceu quieta.

Do outro lado, Marisa explicou que o marido a tratava como filha, que os avós gostariam de perceber união, que não custava nada retribuir o carinho recebido.

Não custava nada.

Helena olhou para a pequena fotografia guardada na capa do caderno. Ela tinha quinze anos ali, e seu pai usava uma camisa gasta de tanto lavar. Tinham ido comprar material escolar numa cidade vizinha e tirado a foto enquanto esperavam o ônibus de volta.

"Eu posso ser educada sem chamar ele assim."

"Leninha..."

"Não é porque eu não gosto dele. Eu gosto. Só não consigo trocar a palavra como se não tivesse significado."

Marisa soltou o ar lentamente.

"Ninguém pediu para você esquecer seu pai."

"Mas parece que tudo precisa ficar mais fácil para as outras pessoas. E eu que tenho de fazer."

A frase saiu trêmula. Helena segurou a borda do colchão, irritada consigo mesma por sentir vontade de chorar tão depressa.

Por alguns segundos, a mãe não falou.

Depois perguntou se ela achava que a vida anterior tinha sido fácil para qualquer uma das duas.

Helena fechou os olhos.

Em Santa Clara, a notícia chegara numa tarde quente. Dois meninos tinham entrado no reservatório, numa parte que parecia rasa da margem. Seu pai ouvira os gritos e correra até eles antes que alguém conseguisse chamar ajuda.

Os meninos saíram vivos.

Ele não voltou.

Durante dias, a casa recebeu gente que falava baixo, levava comida e dizia que ele era um herói. Helena odiara a palavra. Um herói podia existir nos jornais, nas conversas da praça, numa placa que alguém sugeriu colocar perto da água.

O pai que procurava precisava abrir a porta de casa.

Ninguém conseguira fazer isso.

"Você sabe por que eu saí de lá?", Marisa perguntou.

"Para trabalhar."

"Também. Mas não foi só isso."

正文1

A mãe contou uma coisa que Helena conhecia em pedaços: os pedidos de ajuda feitos aos parentes, o dinheiro que prometiam e esqueciam, as visitas em que ela precisava demonstrar gratidão por uma sacola de compras enquanto escutava comentários sobre suas escolhas.

"Seu tio disse que seu pai tinha sido irresponsável. Que devia ter pensado na família antes de entrar na água."

Helena abriu os olhos.

"Você nunca me contou isso."

"Porque você já estava sofrendo."

Ela olhou novamente para a fotografia. Recordava algumas conversas interrompidas quando entrava na sala, mas não aquelas palavras.

"E as famílias dos meninos?"

"Houve agradecimentos no começo. Depois cada um seguiu a própria vida. Eu não queria cobrar nada de crianças que também tinham passado por um susto. Mas, quando precisei de emprego, nem todas as portas que prometeram abrir continuavam abertas."

Marisa não falou com raiva dos meninos. Falou com o cansaço de quem passara anos recolhendo consequências que os outros podiam deixar para trás.

Helena puxou o caderno para perto.

"Eu não sabia que tinha sido assim."

"Não queria que você soubesse tudo. Eu precisava que estudasse. Que tivesse uma vida maior do que ficar contando moedas comigo."

A mãe recordou os plantões, os ônibus antes do amanhecer, o uniforme levado para lavar numa sacola separada. Helena se lembrava de adormecer esperando que ela chegasse e de acordar com o cheiro de café, tentando descobrir se Marisa já tinha descansado.

Foi no hospital que conhecera Eduardo.

Ele não aparecera como um salvador num primeiro dia. Tinham conversado ao longo de atendimentos, depois fora do trabalho. Perguntara por Helena, lembrara o curso que ela queria fazer, tratara Marisa como alguém que merecia sentar e comer uma refeição ainda quente.

"Eu também quis ser feliz", a mãe disse.

Helena enxugou o rosto com as costas da mão.

"Eu quero que você seja."

"Então não transforme cada passo numa prova de que estou abandonando o passado."

A frase a atingiu porque uma parte dela reconheceu aquela intenção. Quando recusava chamar Eduardo de pai, às vezes queria apenas proteger uma lembrança. Em outras, queria que sua mãe demonstrasse que também sentia a dificuldade.

"Não estou tentando castigar você."

"Eu sei, minha filha."

Marisa voltou a usar uma voz macia. Perguntou se comera, se levaria um casaco na viagem, se precisava que mandassem alguma coisa ao apartamento de Curitiba.

Helena ouviu aquelas perguntas conhecidas e sentiu saudade de uma cozinha menor, onde a mãe reclamava de deixar sapatos no caminho e cortava a fruta em pedaços enquanto conversavam.

"Às vezes eu queria voltar para casa", confessou.

"Nós não podemos voltar."

"Eu sei que o papai não está lá."

"Não estou falando só dele. Aquela vida acabou, Helena. Eu não tenho forças para começar de novo do mesmo jeito."

O silêncio ficou cheio de coisas que nenhuma das duas sabia resolver pelo telefone.

Helena passou o polegar pela borda da foto. Seu pai teria gostado de Eduardo? Talvez. Era difícil imaginar os dois no mesmo espaço sem sentir que traía um deles.

"Vou tentar", disse por fim.

"Tentar o quê?"

"Chamar ele de pai. Não promete que vai sair bonito."

Marisa riu, emocionada, e a risada fez Helena chorar mais um pouco.

"Ele não precisa de nada bonito. Vai ficar feliz de ouvir você."

Depois da ligação, Helena ficou sentada até a tela escurecer.

Lucas perguntou se estava tudo bem. Ela respondeu que sim, que só tinha conversado com a mãe. Não queria que o passeio do dia seguinte começasse com a obrigação de consolá-la.

Tirou a fotografia da capa e a colocou junto à cama.

"Eu não esqueci você", murmurou.

Ninguém respondeu. Ainda assim, falar em voz alta lhe permitiu respirar um pouco melhor.

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