"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 10
Ele estava esperando no escuro
O relógio de Lucas marcava quase três horas quando o carro parou diante do condomínio.
Helena se inclinou para guardar um brinco que tirara durante o caminho.
"Obrigada por me chamar."
"Você podia parar de agradecer por se divertir comigo."
Ela sorriu.
"Foi muito bom."
Lucas desceu e a acompanhou até a portaria. O carro de aplicativo não tinha autorização para entrar.
Entregou a bolsa que ela esquecera no banco.
"Avise quando estiver lá dentro."
"Minha bateria morreu."
"Então coloca para carregar e avisa depois."
Helena assentiu. Ele lhe tocou a testa com um dedo, numa brincadeira rápida.
Não sentiu vontade de se afastar.
Depois de se despedir, atravessou a rua interna quase cantarolando. O funcionário da portaria desejara boa noite sem perguntar onde estivera.
Ainda podia ser uma estudante que voltava de uma festa.
Encostou o dedo na fechadura.
Ao abrir a porta, percebeu o cheiro de cigarro.
Parou.
A casa estava escura, mas havia alguma coisa diferente no silêncio.
Helena tateou a parede e acendeu a luz.
Augusto estava sentado no sofá.
"Você voltou."
A bolsa escorregou de seu braço.
"Eu... Não sabia que você vinha."
Ele apagou o cigarro num cinzeiro que nunca vira ali.
"Eu também não sabia que você sairia."
Helena pegou a bolsa do chão e tirou o telefone.
"Ficou sem bateria. Não ouvi as ligações."
Augusto olhou do aparelho para seu rosto. A atenção desceu pela blusa, passou pelo short e chegou aos sapatos.
Helena sentiu o corpo encolher, como se precisasse se cobrir diante de uma pergunta que ele ainda não fizera.
"Eu fui com amigos da universidade. O Lucas veio me deixar."
O nome piorou alguma coisa na expressão dele.
"Aquele rapaz."
"Ele estava com a turma. Tinham meninas também."
"Perguntei quem estava lá?"
Helena apertou a bolsa.
Ele se levantou.
Ela deu um passo para trás, envergonhada por demonstrar medo dentro de uma casa onde deveria sentir segurança.
"Posso explicar."
"Estou ouvindo."
"A gente foi a um bar. Depois ao karaokê. Eu não sabia que estava tão tarde."
"Bebeu?"
"Pouco."
Augusto chegou perto o suficiente para sentir o perfume e o cheiro do drinque.
"Sua mãe sabia?"
Helena baixou o rosto.
"Não."
"Olhe para mim."
Ela ergueu os olhos.
"No primeiro dia, você me chamou de um posto policial. Agora some outra vez, desliga o telefone e volta assim."
"Eu não desliguei. Acabou a bateria."
"A diferença é pequena para quem ficou tentando encontrar você."
A culpa atingiu Helena antes que a raiva pudesse se formar.
"Desculpa. Eu devia ter avisado."
Augusto segurou seu braço.
Ela se assustou.
"O que você está fazendo?"
"Venha."
Ele a conduziu pela escada, sem dar tempo para decidir se queria subir. Helena tentou acompanhar, mas o passo dele era maior.
"Devagar. Você está apertando."
Augusto afrouxou a mão sem soltá-la.
No banheiro, ela puxou o braço de novo.
"Eu posso ir tomar banho sozinha."
Ele abriu o chuveirinho da banheira e apontou para suas pernas, sem esperar que tirasse os sapatos. A água fria molhou o tecido do short e a fez recuar.
"Para! Está gelada!"
Helena tentou alcançar o registro. Augusto o fechou antes.
O susto deixara seus olhos cheios.
"Isso não é jeito de falar comigo."
Ele olhou para o chão molhado, depois para ela.
"E sumir desse jeito é?"
"Eu não sumi de propósito!"
As palavras saíram mais altas do que pretendia.
Augusto permaneceu parado.
O silêncio dele a assustava mais do que um grito.
"Minha mãe nunca fez isso", Helena acrescentou, com a voz quebrada.
"Sua mãe veria essas roupas com a mesma tranquilidade que você?"
Ele pegou o telefone no bolso.
Helena olhou para a câmera e deu um passo rápido.
"Não manda foto. Por favor."
"Ela merece saber como você está vivendo."
"Você prometeu não contar sobre aquele dia."
"Estou falando de hoje."
Helena estendeu a mão para o aparelho, mas ele o manteve fora do alcance.
O chão escorregadio a fez perder o equilíbrio. Augusto a segurou pela cintura antes que caísse.
Ela se afastou assim que conseguiu firmar os pés.
"Não encosta."
A expressão dele endureceu.
Helena ficou com mais medo e, ao mesmo tempo, sentiu raiva por precisar temer alguém a quem deveria poder dizer aquilo.
"Eu não fiz nada tão horrível. Só saí. Todo mundo sai."
"Todo mundo também sabe avisar onde está."
"Eu errei nisso. Não em todo o resto."
Augusto guardou o telefone.
Helena continuou olhando para o bolso dele, sem confiar que aquilo significasse o fim da ameaça.
Ele pegou uma toalha e a colocou sobre a bancada.
"Tome banho."
"Depois que você sair."
Ele não se moveu imediatamente.
Helena sentiu o choro crescer.
"Eu estou pedindo uma coisa normal. Por favor, sai."
Augusto olhou seu rosto molhado de lágrimas.
Por alguns segundos, ela não soube o que ele decidiria.
Então ele foi até a porta.
"Essas roupas não precisam voltar para o seu armário."
Helena não respondeu.
"Ouviu?"
Ela assentiu apenas para que fosse embora.
A porta se fechou.
Helena girou o trinco, colocou a toalha no chão e ficou parada até parar de tremer.
Não tinha feito nada que justificasse aquilo. Sabia. Mas a frase não conseguia apagar o medo de ver a mãe decepcionada, de ser mandada de volta, de perder o curso que acabara de começar.
Tomou um banho rápido e vestiu o roupão que pendia atrás da porta.
Augusto estava sentado no quarto, perto da janela. Uma caneca de leite esperava na mesa.
"Venha beber."
Helena permaneceu à porta.
"Eu quero dormir."
"Pode dormir depois."
Sentou na cadeira mais próxima da mesa, evitando a cama. Segurou a caneca com as duas mãos.
Augusto pegou uma toalha seca e tocou seu cabelo.
Ela se encolheu.
"Está molhado. Vai ficar com frio."
O tom voltara a ser gentil.
Helena quis perguntar como conseguia mudar tão depressa. Não perguntou.
Ele secou as pontas devagar, sem puxar.
"Eu fiquei preocupado."
"Você me assustou."
Augusto não respondeu logo.
"Se você tivesse atendido, eu não precisaria estar aqui."
Ela olhou para o leite.
Mesmo agora, quando tentava explicar, ele voltava ao erro dela.
"Da próxima vez eu aviso", disse.
"Não quero outra noite como esta."
"Eu também não."
Augusto afastou a toalha e lhe ajeitou o cabelo atrás da orelha.
"Então estamos entendidos."
Helena assentiu, embora não estivessem.
Quando ele saiu, esperou os passos desaparecerem na escada antes de pegar o telefone. Ligou-o ao carregador e viu as chamadas perdidas.
Havia uma mensagem de Lucas perguntando se entrara bem.
Escreveu que sim.
Ficou olhando para aquela mentira pequena até a tela apagar.
As roupas novas continuavam numa cadeira do banheiro. Helena não as jogou fora. Dobrou-as e as colocou no fundo de uma gaveta, onde ele não as veria.
Foi a única coisa que conseguiu decidir naquela madrugada.
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