"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 8
Você pode contar comigo
O telefone tocou quando a luz começava a atravessar a cortina.
Helena o procurou sobre a cabeceira e quase o deixou cair ao ver o nome de Lucas.
"Você saiu?"
"Saí. Estou no hostel. Você está bem?"
Ela fechou os olhos.
"Estou. Fiquei esperando sua mensagem."
"Meu celular estava guardado. Depois a bateria acabou. Desculpa."
Lucas parecia cansado, mas falava com aquela pressa de quem precisava provar que tudo estava resolvido.
"O homem parou de gritar quando um advogado apareceu. E conseguiram imagens do lugar. Não dá para ver tudo, mas dá para ver ele se aproximando de você."
"Então acreditaram em mim?"
"Sim. Ainda preciso acompanhar umas coisas, mas me liberaram. Não vai ser aquela catástrofe que ele estava prometendo."
Helena sentou na cama.
"Graças a Deus."
"O advogado disse que conhecia seu tio. Foi você que pediu ajuda?"
Ela olhou para a porta fechada.
"Foi."
"Tenho que agradecer a ele."
"Depois. Descansa primeiro."
Lucas ficou quieto por um instante.
"Eu estraguei seu primeiro dia."
"Foi aquele homem que estragou. Mas você não pode sair batendo nas pessoas. Eu fiquei com muito medo."
"Eu sei. Na hora, só pensei no que ele tinha feito."
"Então da próxima vez pensa em mim esperando do lado de fora."
Ele soltou o ar.
"Está bem. Você tem razão."
A resposta simples quase a fez chorar.
"Você voltou para o quarto?", ele perguntou.
"Estou numa casa da família. Meu... tio achou melhor."
Não contou que tentara recusar. Lucas já estava se sentindo culpado demais.
"Mais tarde posso ver você?"
"Eu preciso buscar minhas coisas. Te aviso."
Desligou com uma leveza que não sentia desde o evento.
Foi só ao levantar que reparou na camisa de Augusto sobre seu corpo.
Lembrou a noite anterior e tornou a ficar inquieta.
Lavou o rosto, vestiu as próprias roupas e dobrou a camisa. Não quis colocá-la diretamente entre as limpas. Deixou-a separada para perguntar onde lavar.
Ao descer, viu Augusto na sala, já vestido, examinando um tablet.
"Bom dia", disse, surpresa.
"Bom dia. Dormiu?"
"Um pouco. O Lucas ligou."
"Soube que ele foi liberado."
Ela se aproximou.
"Obrigada por ajudar. De verdade."
Augusto colocou o tablet sobre a mesa.
"Não precisava passar por aquilo sozinha."
Helena olhou para o chão, ainda sem saber como responder a uma gentileza tão grande depois das exigências da noite anterior.
Ele indicou a cozinha.
"O café está pronto."
Havia pão, ovos, frutas e uma caneca de leite. Helena olhou ao redor, procurando quem preparara tudo.
"Você fez?"
"Não parece uma tarefa tão difícil."
Ela sorriu, pela primeira vez perto dele naquela manhã.
"Eu não disse que parecia."
Sentou e pegou uma fatia de pão. A fome voltou antes da segunda mordida.
Augusto se acomodou ao lado, não na cadeira em frente. Ela percebeu, mas não encontrou motivo para trocar de lugar.
"A camisa ficou lá em cima", disse. "Eu usei porque você falou que podia. Só não sabia onde deixar para lavar."
"A senhora que vem hoje resolve."
"Eu posso lavar também."
"Coma, Helena."
Ela bebeu leite para não continuar a conversa.
Uma gota ficou no canto de sua boca.
Augusto estendeu a mão e a limpou com o polegar. Ela se afastou, mas só depois do toque.
"Eu tenho guardanapo", disse.
Ele baixou os olhos para o dedo, como se só então reparasse no que fizera. Pegou uma folha de papel e o limpou, demorando mais do que o necessário.
"Tem."
Helena puxou o guardanapo para junto do prato.
O sorriso de antes desaparecera.
"Hoje preciso ir à universidade", disse. "Tem uma apresentação do curso. Depois passo na residência."
"Já falei com o atendimento. Você pode resolver essas coisas mais tarde."
Ela parou de mastigar.
"Falou por mim?"
"Você não dormiu direito. Expliquei que teve uma noite difícil e precisava descansar."
"Eu não pedi para faltar."
"Não é uma aula."
"Mas é a minha apresentação. Eu quero conhecer as pessoas."
Augusto segurou um ovo e começou a tirar a casca.
"Vai conhecer. Um dia não muda nada."
"Para você."
Ele ergueu os olhos.
Helena sentiu o susto do próprio atrevimento, mas já não podia fingir que não dissera.
"Eu sei que você ajudou ontem. Eu agradeço. Só que não precisa decidir tudo."
Augusto colocou o ovo num pequeno prato.
"Estou cuidando de você."
"Você falou que não precisava chamar de tio. Agora diz que pode cuidar como se fosse..."
Ela interrompeu a frase.
Augusto esperou.
"Como se fosse o quê?"
Helena apertou as mãos sobre os joelhos.
"Como se pudesse me proibir de fazer as coisas."
"Não proibi. Organizei."
"Sem perguntar. De novo."
O silêncio que se seguiu não foi longo, mas ela sentiu que havia retirado alguma coisa da superfície tranquila da manhã.
Augusto pousou as mãos na mesa.
"Sua mãe está preocupada com você longe de casa."
"Então eu falo com ela."
"E ela vai poder estar disponível sempre?"
Helena não respondeu.
"Marisa acabou de se casar. Seu marido tem problemas de saúde. Os dois estão construindo uma vida. Você sabe disso."
"Eu sei. Não preciso que me lembre."
Ele a observou.
"Talvez não goste de ouvir, mas algumas coisas mudaram. Ela tem outras responsabilidades agora."
Helena olhou para o leite na caneca. A superfície já perdera o vapor.
Era exatamente o que tentava não pensar desde o casamento.
Augusto não precisava conhecer sua vida tão bem para acertar aquele lugar.
"Minha mãe continua sendo minha mãe."
"Claro. Ninguém está dizendo o contrário. Mas pode ter outras prioridades, outro filho, um dia. Isso não quer dizer que deixe de amar você."
Helena afastou a cadeira.
"Não fala assim."
"Helena..."
"Eu vim estudar longe para ela não ter que escolher. Eu não estou pedindo que deixe tudo por mim."
O choro apareceu antes que pudesse controlar a voz.
Ficou com raiva de si mesma. Queria discutir um compromisso na universidade, não mostrar ao homem aquilo que mais temia.
Augusto se levantou e lhe ofereceu um lenço.
Dessa vez, ela o pegou imediatamente.
"Eu sei", ele disse, baixando a voz. "Você está tentando não dar trabalho a ninguém."
Helena enxugou os olhos.
"Então deixa."
"Não precisa tentar comigo."
Ele se aproximou devagar. Tocou seu ombro, esperou que ela não recuasse e a trouxe para perto.
Helena queria permanecer zangada, mas estava cansada, aliviada por Lucas e ferida pelas palavras sobre a mãe.
O abraço lhe ofereceu um lugar onde não precisava ficar em pé sozinha.
Pensou, com uma saudade súbita, em como o pai costumava pôr a mão nas suas costas quando ela chorava por uma nota ruim.
A lembrança fez as lágrimas aumentarem.
"Eu sinto falta dele", disse, quase sem voz.
Augusto passou a mão em seu cabelo.
"Do seu pai?"
Ela assentiu contra o tecido da camisa dele.
"Você não precisa explicar."
Ficou ali por alguns segundos a mais do que gostaria de admitir.
Então percebeu quem a segurava e se afastou, limpando o rosto.
Augusto deixou que saísse do abraço.
"Termine de comer. Depois o motorista leva você para buscar a mala."
"Eu não decidi que vou morar aqui."
"Decida depois de descansar."
Ela não disse sim.
Ele também não pediu que dissesse.
Quando Helena subiu para pegar o telefone, viu uma mensagem nova de Marisa. A mãe agradecia ao cunhado por oferecer a casa e dizia que a filha devia aproveitar aquela sorte.
Helena leu duas vezes.
O abraço de poucos minutos antes ainda parecia quente nas suas costas.
Não sabia o que doía mais: a mãe ter concordado, ou Augusto ter sabido, desde o começo, que ela concordaria.
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