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"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 3

正文开头

Ele disse que era só uma coincidência

Na praia, ninguém lhe pediu para sorrir do jeito certo.

Helena saiu do mar com os pés cobertos de areia, o cabelo embaraçado pelo sal e uma fome que não combinava com a elegância das mesas do casamento.

"Deixaram alguma coisa para mim?"

Lucas levantou uma sacola de papel.

"O último pastel. Defendi com a minha vida."

"Você comeu dois."

"Por isso eu tinha forças para defender."

Ela riu e pegou o pastel ainda morno.

Os amigos estavam espalhados na varanda da casa alugada. Uma menina tentava limpar a lente dos óculos com a barra da camiseta. Dois rapazes discutiam sobre a carne que alguém esquecera de tirar do congelador.

O almoço certamente atrasaria.

Helena não se importou.

Sentou no degrau, com o prato equilibrado nos joelhos, e ficou olhando o mar entre os telhados das casas.

À noite, compravam comida na rua ou improvisavam macarrão. Pela manhã, alguém batia às portas para avisar que já estava tarde demais para ficar na cama.

Ela aprendeu a atravessar o mercado com uma lista curta, dividir despesas e devolver o troco na caixa comum da cozinha.

Gostava de ouvir os amigos reclamando da louça. Gostava até de lavar a sua parte.

Era bom ter alguma coisa para fazer sem que outra pessoa decidisse por ela.

Na terceira tarde, Lucas se sentou ao seu lado na areia.

"Falta pouco para Curitiba."

"Você fala como se a gente fosse atravessar o mundo."

"Para mim, já serve. Nunca morei longe dos meus pais."

Helena desenhou um círculo com o dedo.

"Também não."

"Está com medo?"

"Um pouco."

Ele não riu dela.

"Eu vou estar lá. Se você se perder no campus, a gente se perde junto."

Helena ergueu o rosto. Lucas olhava para o mar, mas tinha as orelhas vermelhas.

Fingiu não perceber.

"Você escolheu a mesma universidade só para ter alguém que explique literatura para você?"

"Claro. Programação exige muito Machado de Assis."

Ela riu outra vez.

Lucas sorriu como se aquela fosse a resposta que esperara a tarde inteira.

Em São Paulo, enquanto Helena descobria quanto arroz era necessário para alimentar oito pessoas, Augusto visitou a casa do irmão.

Eduardo o recebeu no escritório, com uma xícara de café já preparada.

"Finalmente conseguiu tirar meia hora para nós?"

"Você reclamou que só me via em reuniões."

"E vou continuar reclamando se olhar para esse telefone a cada cinco minutos."

Augusto colocou o aparelho virado para baixo.

Marisa entrou com uma bandeja. Ofereceu pão de queijo, café e uma fatia de bolo que fizera naquela manhã.

"Não sabia que você vinha. Teria preparado outra coisa."

"Isto está ótimo."

Augusto aceitou o café.

Ouviu Eduardo contar sobre os últimos exames e fez duas perguntas sobre a próxima consulta. Só depois olhou para a poltrona vazia junto à janela.

"Sua filha não está?"

Marisa sorriu.

"Leninha? Viajou com os amigos. Foram passar uns dias na praia."

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"Sozinha?"

"Com a turma do colégio. Uns oito, eu acho."

Augusto passou o polegar pela alça da xícara.

"É uma idade boa para viajar."

"Eu quis mandar alguém junto, mas ela não deixou. Está querendo independência."

Eduardo pegou um pão de queijo.

"Deixe a menina aproveitar. Depois começam as aulas."

"Eu deixei", Marisa respondeu. "Só pedi que me ligasse todos os dias."

Augusto pousou a xícara.

"Todos da mesma turma?"

"Sim. Meninos e meninas. Tem um rapaz que estudou com ela desde que chegamos aqui. Muito educado. Vai para Curitiba também."

"Entendi."

Marisa soltou uma risada leve.

"Quem sabe eu não esteja criando uma universitária apaixonada e ainda não descobri."

Eduardo olhou para o irmão.

Augusto continuava com a expressão de antes. Apenas deixara de tocar no café.

"Ela vai ter tempo para essas coisas", disse. "Agora o curso deve vir primeiro."

"Eu falo exatamente isso", Marisa concordou. "Mas a gente nunca sabe o que se passa na cabeça deles."

Augusto pegou o telefone e digitou uma mensagem breve.

As reuniões da tarde poderiam voltar para a agenda.

Terminou o café poucos minutos depois. Marisa ainda lhe ofereceu mais bolo, mas ele agradeceu e se levantou.

Ao acompanhá-lo até a porta, Eduardo tocou seu braço.

"Não precisava perguntar tanto. Marisa fica achando que está incomodando você."

"Não incomodou."

"A menina também não é sua responsabilidade."

Augusto ajeitou o punho da camisa.

"Você está se preocupando à toa."

Não explicou qual das preocupações do irmão considerava desnecessária.

Quando Helena voltou da viagem, o assunto da casa já era sua partida.

Marisa quis comprar roupas novas. Helena aceitou duas calças, recusou um casaco que custava quase o valor de uma antiga mensalidade escolar e passou o restante do dia tentando encaixar livros na mala.

"Eles pesam", a mãe reclamou.

"Eu sei."

"Pode comprar outros quando chegar."

"Eu não quero outros. Quero estes."

Marisa a deixou organizar as coisas à sua maneira, pelo menos naquela noite.

Na manhã da viagem, Helena desceu com a mochila nas costas e a mala batendo de leve nos degraus.

Ainda precisava chamar o carro.

"Espere", a mãe disse, saindo da cozinha. "Beba alguma coisa antes."

Colocou um copo de leite em sua mão.

Helena tomou dois goles e olhou o relógio.

"Já estou atrasada."

"Não está. Seu tio vem buscar você."

Ela engasgou.

Marisa pegou o copo antes que o leite caísse.

"Devagar."

"Que tio?"

"Augusto, ué. Quantos você tem aqui?"

Helena limpou a boca com as costas da mão.

"Por quê?"

"Ele vai para Curitiba a trabalho. Ligou ontem e perguntou em que dia você viajaria. Quando eu disse que era hoje, ofereceu para irem juntos."

"Você nem me perguntou."

"Não achei que você fosse reclamar de uma carona."

"Não é a carona."

Marisa esperou.

Helena não encontrou uma explicação que pudesse oferecer sem parecer ingrata ou levantar uma suspeita que ela própria não sabia formular.

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"Eu podia ir sozinha. Já estava tudo organizado."

"E continua organizado. Ele até cuidou da passagem. Você vai chegar com muito mais conforto."

Ela ficou olhando para a mãe.

"Minha passagem?"

"Sua reserva antiga foi cancelada. O voo dele sai um pouco mais tarde. Está vendo como não estamos atrasadas?"

Helena apertou a alça da mochila.

Gostaria de ter sido avisada antes. Gostaria de que alguma coisa ligada à própria vida ainda dependesse de sua concordância.

"Mãe, eu agradeço, mas não quero dar trabalho a ele."

"Leninha, é justamente o contrário. Ele está indo para lá de qualquer maneira. Não transforme uma gentileza numa complicação."

O carro parou diante da casa antes que Helena conseguisse insistir.

Um motorista de terno desceu, abriu o porta-malas e se aproximou para pegar sua bagagem.

"Bom dia, senhorita Helena."

Ela entregou a mala por reflexo.

A porta traseira foi aberta.

Augusto estava lá dentro, com uma pasta sobre os joelhos e a mesma tranquilidade do casamento.

"Bom dia", disse a Marisa.

"Bom dia. Muito obrigada por isso. Fico bem mais tranquila sabendo que ela não vai chegar sozinha."

"Não precisa agradecer."

Ele olhou para Helena.

Ela sentiu o corpo inteiro se aprumar.

"Bom dia, tio Augusto."

"Entre."

Apontou o espaço ao seu lado.

Helena abraçou a mãe antes de entrar. Demorou um pouco mais do que pretendia.

"Me liga quando chegar", Marisa pediu.

"Ligo."

"E não fique com vergonha de pedir ajuda."

Helena assentiu e se acomodou no canto do banco.

Quando o carro começou a andar, manteve a mochila sobre as pernas.

"Pode deixá-la no chão", Augusto disse.

"Assim está bom."

Ele não insistiu.

Perguntou da praia, ouviu que ela gostara e quis saber se conhecera algum lugar diferente. Helena respondeu sem contar as conversas na areia ou o sorriso de Lucas.

O trajeto ficou mais silencioso depois disso.

No aeroporto, uma funcionária os conduziu por um acesso que Helena nunca utilizara. Augusto caminhava sem pressa, mas seus passos eram longos. Ela precisou acelerar para acompanhá-lo.

"Não corra", ele disse, percebendo.

Reduziu o ritmo.

Helena sentiu vergonha por ter obrigado aquele homem a andar mais devagar.

Durante o embarque, agradeceu duas vezes à funcionária e quase deixou cair o cartão ao guardá-lo na bolsa.

Augusto o segurou antes.

"Calma. Ninguém vai sair sem você."

Ela recebeu o cartão de volta sem olhar diretamente para ele.

No avião, sentou junto da janela. O espaço era maior do que esperava, mas a presença de Augusto ao lado ainda parecia ocupar tudo.

Ele abriu uma revista de negócios.

"Se quiser água ou alguma coisa para comer, é só pedir."

"Está bem."

Helena colocou o telefone no colo para avisar à mãe que já embarcara.

Uma mensagem de Lucas apareceu antes.

"Já cheguei! Acho que encontrei o caminho do campus sem causar um acidente internacional. Você chega que horas?"

Ela mordeu o lábio para conter o sorriso.

"Depois do almoço."

"Vou buscar você no aeroporto. Depois a gente faz sua matrícula e procura alguma coisa decente para comer."

Helena olhou para a revista nas mãos do homem ao lado.

Digitou devagar.

"Você não precisa atravessar a cidade por minha causa."

"Quero atravessar a cidade por sua causa."

Ela ficou olhando para a frase por alguns segundos.

O sorriso surgiu sem sua permissão.

"Com quem está conversando?"

Augusto não virara a página.

Helena levantou a cabeça.

"Um amigo do colégio."

"O que também veio estudar aqui?"

Ela hesitou.

Não se lembrava de ter contado aquilo a ele.

"É. O Lucas. Minha mãe falou dele?"

"Falou."

Helena baixou o telefone, embora não tivesse feito nada que precisasse esconder.

"Ele já chegou", explicou. "Queria me buscar."

Só então Augusto fechou a revista.

Seu olhar saiu da tela apagada e encontrou o dela.

"Seu namorado?"

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