"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 2
O número que eu não queria ligar
"Meu celular foi roubado."
Helena soltou a frase antes que o silêncio ficasse constrangedor.
Augusto manteve a mão junto ao aparelho.
"Quando?"
"Semana passada. No ônibus. Minha mãe ainda não comprou outro."
Era verdade. Ela guardara o cartão do transporte no bolso e só notara o zíper aberto da mochila ao chegar em casa.
Marisa ficara furiosa, não com ela, mas com a falta de cuidado. Dissera que podiam ter comprado dez telefones com os vestidos daquele casamento, mas que Helena precisava aprender a não dar oportunidade ao azar.
Naquele momento, porém, a perda pareceu inesperadamente útil.
"Entendi", disse Augusto.
Recolheu o celular.
Helena soltou o ar devagar, escondendo o alívio atrás de outra garfada.
As luzes do salão diminuíram. O cerimonialista chamou a atenção dos convidados, e Eduardo estendeu a mão para Marisa junto do pequeno altar de flores.
A mãe sorriu antes mesmo de ouvir os votos.
Helena nunca a vira sorrir daquela maneira no apartamento alugado, ao fim de um plantão de doze horas.
Gostava de lembrar a voz de Marisa na cozinha da antiga casa, discutindo com seu pai porque ele deixara panela demais para lavar. Depois os dois riam de alguma coisa que ela não compreendia, e a discussão acabava.
Agora havia outro homem segurando aquela mão.
Eduardo era gentil. Estava olhando para a mãe como se ela merecesse o melhor de tudo.
Helena desejou que o pai pudesse saber que as duas estavam bem.
Uma lágrima caiu antes que ela tivesse tempo de piscar.
Procurou o guardanapo no colo.
"Aqui."
Um lenço branco surgiu ao seu lado.
Ela estendeu os dedos para pegá-lo, mas Augusto ergueu a mão em direção ao seu rosto.
O papel tocou o canto de seu olho.
Helena ficou imóvel.
Não queria fazer uma cena. Não queria afastar a mão dele bruscamente diante das outras pessoas. Talvez fosse apenas um gesto de um homem mais velho para alguém da família.
Então ele deslizou o lenço por sua bochecha e parou perto da boca.
Ela sentiu o perfume outra vez.
"Eu mesma limpo. Obrigada."
Segurou o lenço com firmeza.
Augusto o soltou.
Helena enxugou os olhos, depois esfregou os lábios para tirar o brilho que a incomodava desde cedo.
O papel ficou marcado de rosa.
Ela o dobrou várias vezes, concentrando-se naquele pequeno trabalho enquanto os convidados aplaudiam a troca das alianças.
"Você está bem?"
"Estou."
"Saudade de alguém?"
Helena olhou para o altar.
"Do meu pai."
Augusto não respondeu imediatamente.
"Imagino que dias assim sejam difíceis."
Ela assentiu, grata por ele não dizer que devia esquecer a tristeza e aproveitar a festa.
Talvez ele fosse gentil de um jeito que ela ainda não entendia.
Foi isso que tentou pensar quando precisou se afastar alguns centímetros para conseguir respirar sem sentir o corpo dele tão perto.
A cerimônia terminou. Marisa e Eduardo passaram entre as mesas para receber abraços e brindar.
Um homem de cabelos grisalhos perguntou pelo filho do noivo.
"Pedro continua na Inglaterra?"
"Ainda tem compromissos da universidade", respondeu Eduardo. "Mas volta no mês que vem."
"Devia ter vindo ao casamento do pai."
O sorriso de Eduardo vacilou.
Marisa se adiantou, delicada.
"Eu disse que ele não precisava interromper os estudos por nossa causa. Vamos ter muitas oportunidades de comemorar juntos."
Helena percebeu o esforço por trás da resposta.
Os pais de Eduardo também não tinham vindo. Ninguém explicara o motivo a ela. As cadeiras que deveriam ocupar haviam sido preenchidas por outras pessoas, sem comentário.
Quando os noivos chegaram à mesa, Eduardo já bebera mais do que costumava.
Tocou o ombro do irmão.
"Obrigado por ter vindo, Augusto. Se fosse depender de papai..."
"Eduardo."
Uma única palavra.
O irmão parou.
Augusto não elevou a voz nem retirou o sorriso discreto. Ainda assim, Helena viu a expressão de Marisa mudar.
"Ele está emocionado", a mãe disse, apoiando a mão no braço do marido. "Foi um dia comprido."
Eduardo respirou fundo e ergueu a taça.
"Ao casamento."
Augusto acompanhou o brinde.
Marisa puxou a filha de leve.
"Leninha, pode chamar o garçom para servir mais um pouquinho ao seu tio? Quero brindar também."
Helena chamou o funcionário mais próximo.
Quando ele se aproximou com a garrafa, Augusto cobriu a borda da taça com a mão.
"Já está suficiente."
Helena olhou para ele, receosa de que a mãe interpretasse a recusa como uma rejeição.
Não sabia pedir que ele colaborasse sem parecer inconveniente.
Talvez seu rosto tivesse dito tudo, porque Augusto a observou por um instante e retirou a mão.
"Só um pouco."
Marisa sorriu, aliviada.
"Obrigada."
Helena também sorriu, quase sem perceber.
Augusto ergueu a taça. Antes de beber, seus olhos voltaram para ela.
Mais tarde, quando Helena ficou sozinha à mesa, tentou lembrar se ele sorrira de verdade em algum momento.
Não conseguiu.
Só se lembrava da sensação de que tinha visto coisas nela que ela preferia esconder.
Naquela noite, de volta à casa de Eduardo, subiu direto para o quarto.
A mala aberta sobre a cama lhe trouxe um conforto imediato.
Dentro havia shorts, camisetas, chinelos e um livro com a capa dobrada. Objetos seus, que não exigiam pose nem agradecimento.
Os amigos haviam alugado uma casa perto da praia para uma viagem curta antes do início das aulas.
Ela pegou um vestido de algodão e o colocou sobre as roupas.
Podia ouvir, no corredor, Marisa pedindo que deixassem água ao lado da cama de Eduardo. Mesmo depois do casamento, a mãe continuava sabendo quais cuidados ele precisava.
Helena estava fechando um nécessaire quando Marisa entrou.
Descalça, sem as joias, ainda tinha o cabelo arrumado da cerimônia.
"Não foi dormir?"
"Queria deixar tudo pronto. Vê se eu esqueci alguma coisa."
Marisa se sentou na beira da cama e examinou a mala.
"Você colocou protetor solar?"
"Dois."
"E o remédio para enjoo?"
"Na bolsa."
"Dinheiro?"
Helena apontou o envelope na mesa.
A mãe pareceu satisfeita, mas continuou alisando uma camiseta.
"Podia mandar alguém junto de vocês. Pelo menos uma pessoa para ajudar com a comida."
"Mãe, não."
"Eu ficaria mais tranquila."
"A gente vai cozinhar. Ou comprar alguma coisa. Ninguém está levando empregada para a praia."
Marisa levantou as sobrancelhas.
"Não precisa falar assim."
Helena se sentou ao lado dela.
"Eu sei que você quer ajudar. Mas eu quero fazer essa viagem com meus amigos. Só isso."
A mãe passou a mão em seu cabelo.
"Você sempre acha que pedir alguma coisa vai dar trabalho."
"Dessa vez estou pedindo para não ter ajuda."
Marisa riu.
O som era o de antes. Helena encostou a cabeça em seu ombro.
"Está feliz?", perguntou.
"Muito."
"Então está bom."
A mãe ficou quieta por um instante, depois se levantou como se tivesse lembrado de algo.
"Espere aqui."
Voltou com uma caixa de celular.
Helena endireitou as costas.
"É para mim?"
"Não, comprei para a parede", Marisa brincou. "Claro que é para você."
Era um modelo que Helena vira apenas nas vitrines.
Tirou o aparelho da caixa com cuidado, sentindo o peso frio na mão.
"Mãe, precisava ser tão caro?"
"Você vai morar longe. Quero conseguir falar com você sem ficar ouvindo que a câmera não funciona ou que a bateria não dura."
Helena a abraçou.
"Obrigada."
"Já coloquei seu chip. Salvei meu número e o do Eduardo."
Helena desbloqueou a tela e abriu os contatos.
Havia um terceiro nome.
Tio Augusto.
Seu entusiasmo diminuiu.
"Por que o número dele?"
"Porque é importante ter."
"Eu mal conheço esse homem."
Marisa suspirou.
"Ele é da família agora."
"Da família do Eduardo."
"Helena."
O nome inteiro encerrou a discussão antes que ela começasse.
A mãe se acomodou outra vez ao seu lado.
"Você sabe quantas pessoas gostariam de ter o telefone pessoal dele? Eduardo pediu por mim. Augusto pode ajudar se acontecer alguma coisa em Curitiba."
"Eu posso ligar para você."
"E vai ligar. Mas há coisas que eu não consigo resolver."
Helena olhou para o nome na tela.
Lembrou o lenço tocando seu rosto, a ordem breve que fizera Eduardo se calar, a mão retirada da taça depois de um único olhar seu.
Não soube explicar por que aquilo a incomodava.
Marisa lhe apertou o ombro.
"Se um dia tiver um problema de verdade, uma palavra dele pode fazer mais do que tudo o que nós duas tentaríamos sozinhas. Só guarde o número."
Helena apagou a tela.
"Está bem."
Depois que a mãe saiu, abriu a conversa com Lucas e avisou que estava com telefone novo.
A resposta veio quase imediatamente.
"Achei que você tivesse me esquecido. A turma já está discutindo quem vai lavar a louça na viagem."
Helena sorriu.
"Pode colocar seu nome."
"Só se você cozinhar."
"Então você vai passar fome."
Ficou conversando até sentir sono. Antes de se deitar, conectou o aparelho ao carregador.
O número de Augusto continuava ali.
Não faria diferença, pensou. Ter um telefone salvo não significava que algum dia precisaria usá-lo.
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