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"O BILHETE DA FILHA DA EMPREGADA FEZ O CHEFE DA MÁFIA REVOGAR SUA ORDEM" Capítulo 5 — A noiva levou a menina

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Camila arrancou o telefone da mão de Dante e assistiu ao vídeo novamente.

Luna estava numa sala de paredes verdes, sentada sobre uma cadeira alta. Não havia janelas visíveis. A mala vermelha permanecia aberta no chão, e o coelho de pelúcia estava nos braços da menina. Verônica surgia apenas da cintura para baixo, mas o vestido claro e a voz eram inconfundíveis.

“Ela confiava em Verônica”, disse Camila. “Eu também.”

Camila lembrou que Verônica costumava oferecer brinquedos e roupas caras a Luna, sempre perguntando o que a menina ouvia perto do escritório. Na época, parecera carinho. Agora, cada presente assumia a forma de uma pergunta disfarçada. A noiva treinara a confiança da criança antes de precisar usá-la.

Dante fechou os olhos por um segundo.

“Foi assim que tiraram Luna da casa da promotora. Sem arrombamento, sem barulho.”

Rafael dirigia em alta velocidade pela estrada molhada. “A equipe disse que Verônica chegou com uma ordem sua. O documento tinha sua assinatura digital.”

“Então Mauro ainda controla parte do sistema.”

Camila devolveu o telefone.

“Pare o carro.”

“Não.”

“Minha filha foi levada porque você decidiu que todos à sua volta obedeceriam sem pensar. Não vai decidir sozinho outra vez.”

Dante inclinou-se para a frente.

“Se voltarmos à fazenda, Augusto mata você quando conseguir os originais.”

“Se não voltarmos, ele machuca Luna para me obrigar a falar.”

“Ele precisa de você viva.”

“Você não conhece minha filha.”

“Conheço o homem que a levou.”

Camila o encarou.

“Não. Você conhece o tio que escolheu enxergar. O homem verdadeiro estava na sua frente o tempo todo.”

Rafael reduziu a velocidade, desconfortável. Dante não reagiu com raiva. Aquelas palavras confirmavam o que começava a admitir: o poder o ensinara a desconfiar de estranhos e o tornara cego para os íntimos.

“O vídeo tem alguma pista”, disse ele. “Verônica quer que entremos em pânico antes de observar.”

Camila ampliou a imagem. No fundo, ouviam-se badaladas abafadas. A parede verde tinha uma faixa com pequenas flores douradas. Sobre uma mesa havia um porta-retrato de prata virado para baixo.

“Conheço esse papel de parede”, disse Dante. “É o antigo quarto de brinquedos da casa dos meus pais, nos Jardins.”

“Augusto disse fazenda para nos levar ao lugar errado.”

“Ou Verônica tirou Luna de lá sem autorização.”

Rafael mudou a rota. A antiga residência Montenegro ficava fechada havia anos, cercada por muros altos e árvores que escondiam a fachada da rua. Dante mantivera a propriedade como um mausoléu que nunca visitava.

Durante o trajeto, Camila contou o que lembrava da noite do ataque. Sua mãe, Joana Rocha, trabalhava como cozinheira para os Montenegro. Levara Camila ao serviço porque a creche fechara mais cedo. Pouco depois do jantar, a menina vira Augusto abrir o portão lateral para três homens. Quando os tiros começaram, Joana mandara a filha procurar Dante.

“Minha mãe ficou para trás”, disse Camila. “Nunca mais a vi.”

Camila retirou do bolso a pulseira azul que usava desde jovem. Dentro do tecido havia duas iniciais bordadas: J.R. A peça pertencera a Joana e fora o único objeto devolvido quando Camila saiu do abrigo.

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Dante tocou a borda gasta.

“Eu me lembro dessa cor. Sua mãe amarrou a pulseira no meu pulso para marcar o caminho pelo corredor escuro.”

Camila percebeu que ele não reconstruía apenas fatos; reconstruía pessoas que Augusto reduzira a obstáculos. Pela primeira vez, acreditou que Dante poderia enfrentar a própria herança sem tentar protegê-la.

“Disseram que todos os funcionários morreram.”

“Não encontraram o corpo dela. Assim como não encontraram a verdade.”

Dante recordou uma mulher de avental branco empurrando uma estante contra a porta da cozinha. Até então, aquela memória surgia apenas em pesadelos sem rosto.

“Sua mãe nos deu tempo para escapar.”

“E Augusto apagou o nome dela dos registros.”

O carro parou a duas quadras da casa. Rafael enviou homens pelos fundos enquanto Dante e Camila atravessavam o jardim lateral. Uma porta estava destrancada, provocação evidente.

No interior, os móveis permaneciam cobertos por lençóis. O relógio do hall continuava funcionando, alimentado por alguém. Cada badalada parecia contar os anos roubados.

Camila subiu primeiro. Dante segurou seu braço.

“Fique atrás de mim.”

“Passei metade da vida procurando este lugar. Não vou entrar atrás de ninguém.”

Ela afastou a mão dele, mas não com desprezo. Era uma fronteira. Dante respeitou.

No quarto verde, encontraram a cadeira vazia, a mala aberta e o coelho sobre o tapete. Camila correu e apertou o brinquedo contra o peito.

“Luna!”

Um alto-falante escondido reproduziu a voz de Verônica.

“Ela está bem. Por enquanto.”

Dante arrancou o aparelho da parede.

“Apareça.”

“Você sempre gostou de dar ordens, meu amor. Nunca percebeu quem escrevia as informações em que baseava suas decisões.”

“O que você quer?”

“A gravação original, o relatório da assistente social e Camila. Em troca, devolvo a menina.”

Camila aproximou-se do alto-falante.

“Deixe Luna falar.”

Houve silêncio. Depois, a voz infantil surgiu distante.

“Mamãe?”

“Estou aqui, meu amor.”

“Eu fui obediente.”

Camila mordeu o lábio para não chorar.

“Você não fez nada errado. Escute: nenhum adulto pode pedir que você desapareça para proteger quem ama.”

Dante sentiu a frase atravessá-lo. Era exatamente o que sua ordem fizera Luna acreditar.

Verônica desligou o áudio.

Na parede atrás da cadeira, alguém escrevera com giz de cera vermelho: METADE DO BISCOITO.

“Foi Luna”, disse Camila. “Ela está deixando pistas.”

Dante examinou o chão. Migalhas formavam uma linha até o corredor, depois desciam a escada de serviço. No último degrau havia uma fita vermelha do cabelo de Luna.

Eles seguiram até a cozinha antiga. A porta do depósito estava trancada por fora. Dante arrombou-a.

Lá dentro encontraram Lucas Rocha, irmão de Camila, machucado e amarrado a um cano.

Camila correu para ele.

“Onde está Luna?”

Lucas respirou com dificuldade.

“Verônica a levou há dez minutos. Um carro branco.”

“Para onde?”

“Não ouvi. Mas ela discutiu com Mauro. Disse que não entregaria a menina a Augusto enquanto não garantisse o casamento.”

Dante cortou as cordas.

“Você copiou os arquivos?”

Lucas assentiu.

“Descobri desvios nas empresas. Mauro usou meu acesso para me culpar. Eu procurei Camila porque havia um arquivo com o nome da mãe dela.”

“Onde estão as cópias?”

Lucas olhou para o coelho nos braços da irmã.

“Não no armário 214. Aquilo era só a chave para encontrar o verdadeiro arquivo.”

Camila apalpou a barriga do brinquedo. A costura estava aberta. Alguém retirara a chave, mas não percebebera uma segunda camada de tecido. Dentro dela havia um cartão de memória.

Lucas sorriu apesar da dor.

“A gravação original está aí. E outra coisa que Augusto pagaria qualquer valor para destruir.”

Dante inseriu o cartão no celular. O primeiro vídeo mostrava Augusto abrindo o portão na noite do ataque. O segundo mostrava uma mulher sendo levada viva da propriedade horas depois.

Camila reconheceu a mãe.

Antes que pudesse falar, o alarme da casa disparou. Pelas janelas, luzes de viaturas invadiram o jardim.

Uma voz ordenou pelo megafone:

“Dante Montenegro, saia com as mãos para cima. Há uma denúncia de sequestro contra você.”

No telefone de Dante, surgiu uma notícia publicada minutos antes: CHEFE DO GRUPO MONTENEGRO SEQUESTRA FILHA DE EMPREGADA PARA SILENCIAR TESTEMUNHA.

A fotografia que acompanhava a matéria mostrava Dante carregando Luna para dentro do carro no Santa Cecília.

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