"O BILHETE DA FILHA DA EMPREGADA FEZ O CHEFE DA MÁFIA REVOGAR SUA ORDEM" Capítulo 4 — A empregada que conhecia seu passado
Camila acordou com gosto de sangue na boca e as mãos presas atrás de uma cadeira.
O salão da Fazenda Montenegro estava quase escuro. A chuva golpeava os vitrais, e o relógio antigo marcava onze e vinte. À sua frente, Augusto girava lentamente o anel negro no dedo.
“Você deveria ter desaparecido quando saiu do abrigo”, disse ele.
Augusto caminhou até uma cômoda e retirou uma fotografia de Joana usando uniforme de cozinheira. Colocou-a diante de Camila como quem exibia um troféu.
“Sua mãe poderia ter vivido confortavelmente se tivesse entregado a fita”, afirmou. “Preferiu condenar vocês duas.”
Camila tentou controlar a respiração. “Ela está viva?”
“Você continua fazendo perguntas perigosas.”
“Isso não é resposta.”
“É a única que merece.”
Mauro desviou os olhos. O gesto revelou que sabia mais. Camila guardou a reação. Se Joana estivesse morta, Augusto teria dito para quebrá-la. A ambiguidade era útil apenas se a mãe ainda pudesse ser usada.
“Foi você quem mandou as cartas falsas?”, perguntou ela.
Augusto sorriu. “Uma criança abandonada aceita qualquer família. Uma adulta abandonada aceita qualquer emprego. Até na casa do homem que deveria odiar.”
Camila ergueu o queixo. “Eu entrei naquela casa para descobrir a verdade. Fiquei porque encontrei humanidade onde você tentou deixar apenas medo.”
Augusto apertou o maxilar. A certeza de que controlava Camila dependia de tratá-la como funcionária faminta por dinheiro. Descobrir que ela permanecera por escolha, observando e reunindo provas, transformava a mulher amarrada numa adversária que ele subestimara dentro da própria família.
Camila ergueu o rosto.
“Eu tinha cinco anos.”
“Crianças crescem. Memórias também.”
“Foi por isso que pagou para me transferirem?”
Augusto serviu conhaque.
“Paguei para que tivesse uma família.”
“Pagou para me manter longe de Dante.”
“E funcionou durante vinte e quatro anos.”
Camila pensou em Luna. Na pequena mala vermelha preparada às escondidas, no medo que a filha sentira ao ouvir a ordem de expulsão. Precisava ganhar tempo.
“Se Dante encontrou o armário, já sabe de tudo.”
“Não sabe o suficiente.”
Augusto aproximou o copo dos lábios dela, mas Camila virou o rosto.
“Você abriu o portão naquela noite.”
“Essa é a lembrança de uma criança assustada.”
“Eu vi seu anel quando você entregou a chave aos homens.”
O sorriso dele desapareceu.
“Seu problema sempre foi olhar demais.”
A porta se abriu, e Mauro entrou molhado. Camila sentiu um choque. Até então, imaginava que o chefe de segurança apenas obedecia a Augusto por dinheiro. A naturalidade com que os dois se cumprimentaram revelou uma parceria antiga.
“Dante saiu do Santa Cecília com os documentos”, informou Mauro. “Perdemos dois homens.”
Augusto arremessou o copo contra a parede.
“E a menina?”
“Com Rafael.”
“Rafael sempre teve fraqueza por crianças.”
Camila puxou as cordas até ferir os pulsos.
“Deixem Luna fora disso.”
Augusto se inclinou.
“Foi você quem a colocou no centro quando escondeu a chave no brinquedo.”
“Eu precisava proteger a prova.”
“Não. Você queria que Dante lembrasse de você.”
A acusação acertou um ponto que Camila evitava. Quando fora contratada como auxiliar de limpeza na mansão, reconhecera Dante imediatamente. O menino magro e furioso do abrigo tornara-se um homem poderoso, cercado por medo. Ela esperara que ele reconhecesse o coelho, a pulseira azul ou a forma como sempre dividia um biscoito com Luna.
Ele não reconhecera.
Camila decidira ficar apenas até encontrar os registros que ligavam Augusto ao ataque. Então Luna entrara no escritório proibido de Dante numa madrugada e o encontrara ferido, sozinho. A menina passara a colorir perto dele. Dante fingia tolerar, mas sempre deixava chocolate na mesa.
Camila vira naquele homem traços do garoto que um dia protegera. E isso tornara tudo mais perigoso.
Mauro colocou um notebook sobre a mesa.
“A transferência que incrimina Lucas está pronta. Quando Dante chegar, mostramos que Camila e o irmão tentaram extorquir a família.”
“Ele não acreditará”, disse Camila.
“Ontem acreditou.”
A verdade a feriu. Dante não lhe perguntara nada. Não olhara em seus olhos antes de ordenar que ela partisse. Bastara o sobrenome Rocha aparecer num relatório para que todo o serviço, a confiança e os pequenos gestos deixassem de valer.
Faróis atravessaram os vitrais.
Augusto sorriu.
“Pontual como o pai.”
Dante entrou sozinho pela porta principal, paletó encharcado e uma caixa de metal nas mãos. Dois homens apontaram armas para ele.
“Soltem Camila”, ordenou.
Augusto abriu os braços.
“Você invade minha casa e dá ordens?”
“Esta fazenda foi comprada pelo meu pai.”
“E preservada por mim enquanto você chorava num abrigo.”
Dante pousou a caixa sobre a mesa.
“A chave, a fita e os documentos estão aí.”
Mauro abriu a tampa. Dentro havia papéis e o gravador.
“Agora solte-a.”
Augusto fez sinal. Um segurança cortou as cordas de Camila, mas manteve a mão em seu ombro.
Ela tentou avisar Dante com os olhos. A caixa não poderia conter os originais; ele não seria tão imprudente. Ainda assim, algo na calma dele a assustava.
“Onde está Luna?”, perguntou Camila.
“Segura.”
“Você prometeu não trazê-la?”
“Prometi.”
Augusto riu.
“Bonita cena. A empregada e o chefe descobrindo que brincavam juntos na infância.”
Dante não desviou os olhos de Camila.
“Por que nunca me contou?”
“Porque eu precisava saber se você ainda era o menino que eu salvei ou se tinha se tornado um deles.”
“E qual foi sua conclusão?”
“Ontem, você mandou minha filha embora por um crime que meu irmão não cometeu.”
O golpe foi público e merecido. Dante recebeu sem se defender.
“Eu errei.”
Augusto ergueu as sobrancelhas. Nenhum Montenegro admitia erro diante de subordinados.
Dante continuou:
“E vim corrigir.”
As luzes se apagaram.
Rafael cortara a energia no gerador externo. Dante avançou no escuro, derrubou o homem ao lado de Camila e a puxou para trás de uma coluna. Disparos atingiram a mesa. Mauro gritou ordens contraditórias.
“Há uma porta de serviço atrás da tapeçaria”, sussurrou Camila. “Eu vi quando era criança.”
Eles correram. Camila encontrou a trava oculta, e os dois entraram num corredor estreito. Dante fechou a passagem no momento em que as luzes de emergência acenderam.
“Você está ferida?”
“Não importa.”
“Para mim, importa.”
Camila o encarou. Por um instante, a distância entre patrão e empregada desapareceu, restando apenas duas pessoas unidas por uma noite que nenhum dos dois superara.
“Luna realmente está segura?”
“Com Rafael e uma equipe que Augusto não conhece.”
“E os documentos?”
“Cópias. Os originais já estão com uma promotora.”
Camila respirou aliviada, mas passos ecoaram no corredor.
Dante segurou sua mão e a conduziu por uma escada até a adega. Na saída, Rafael esperava com o carro ligado. Eles entraram sob tiros que acertaram a lataria.
Só quando os portões ficaram para trás Camila percebeu que Dante ainda segurava sua mão.
Ele soltou devagar.
“Luna está na casa da promotora?”
Rafael olhou pelo retrovisor.
“Estava.”
Dante virou-se.
“O que significa ‘estava’?”
“A equipe encontrou a casa vazia. Não havia sinal de arrombamento.”
Camila perdeu o ar.
O celular de Dante vibrou. Um vídeo mostrava Luna sentada diante de uma câmera, abraçada ao coelho. Atrás dela, Verônica segurava a pequena mala vermelha.
“Desculpa, seu Dante”, disse Luna, chorando. “A tia falou que a mamãe só volta se eu for uma menina obediente.”
Verônica inclinou-se para a câmera e sorriu.
“Traga Camila de volta à fazenda. Desta vez, sem truques.”
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