"O BILHETE DA FILHA DA EMPREGADA FEZ O CHEFE DA MÁFIA REVOGAR SUA ORDEM" Capítulo 2 — O quarto que alguém limpou
Dante atendeu o celular de Camila sem dizer uma palavra.
Do outro lado, ouviu apenas uma respiração curta e o barulho de um motor. Depois, a ligação caiu.
Ele guardou o aparelho no bolso e encarou Verônica.
“Onde está Augusto?”
“Como eu saberia?”
“Você jantou com ele ontem.”
“Ele é seu tio e nosso padrinho de casamento. Isso não me transforma em secretária dele.”
Dante fez sinal para Rafael levar Luna à cozinha. A menina se agarrou à perna dele.
“Eu vou junto buscar a mamãe.”
“Você vai ficar segura aqui.”
“Aqui não é seguro.”
Os adultos ficaram imóveis. Luna apontou para o segundo andar.
“O homem do anel entrou no quarto da mamãe. Eu vi.”
Dante abaixou-se outra vez.
“Quando?”
“Quando estava escuro. Ele falou que mamãe tinha esquecido uma coisa.”
“Que coisa?”
“Uma foto.”
Dante olhou para Rafael.
“Você fica com ela. Dois homens na cozinha, dois no corredor. Se alguém tentar levá-la, atire primeiro e me ligue depois.”
Luna arregalou os olhos. Dante percebeu o próprio erro e suavizou a voz.
“É modo de falar, pequena.”
“Não pareceu.”
Apesar da urgência, Rafael quase sorriu.
Dante subiu para o quarto destinado a Camila e Luna. Não era grande, mas recebia o sol da manhã e ficava perto da lavanderia. Camila jamais pedira uma acomodação melhor. Quando Dante oferecera aumentar seu salário, ela recusara e pedira que ele regularizasse as horas extras das outras funcionárias.
Aquilo o irritara na ocasião. Agora parecia um aviso sobre a mulher que ele se recusara a conhecer.
O quarto estava organizado demais. As roupas de Luna permaneciam no armário, mas as gavetas de Camila tinham sido esvaziadas. O lençol não apresentava uma dobra sequer. No criado-mudo, o celular estava ao lado de um copo de água intocado.
Dante abriu o armário inferior. Encontrou um envelope de pagamento ainda lacrado e seis contracheques. Camila não recebera em dinheiro; guardara todos ali.
Verônica entrou atrás dele.
“Você realmente vai revirar o quarto de uma funcionária?”
“Alguém já revirou.”
“Ou ela fugiu.”
Dante ergueu um dos envelopes.
“Sem o salário?”
“Para parecer inocente.”
“Você tem uma explicação pronta para tudo.”
Verônica respirou fundo.
“Estou tentando impedir que uma chantagista destrua sua família.”
“Minha família começou a se destruir muito antes de Camila entrar nesta casa.”
Dante se aproximou da janela. No parapeito, quase invisível sob a cortina, havia um fragmento de papel fotográfico. Ele puxou. Era parte de uma imagem antiga: a mão de uma criança segurando um coelho de pelúcia.
Seu estômago se contraiu.
Na infância, no Lar Santa Cecília, uma menina de cabelos cacheados o seguia pelos corredores carregando um coelho parecido. Dante lembrava-se apenas do apelido que lhe dera: Mila.
“Você conhece essa fotografia?”, perguntou Verônica.
“Não.”
Ele mentiu porque ainda não sabia em quem confiar.
No térreo, Mauro Vilela acabava de chegar. Alto, grisalho e impecável no terno cinza, ele comandava a segurança dos Montenegro havia quinze anos. Fora a pessoa que apresentara as provas contra Lucas Rocha.
“Soube do desaparecimento”, disse Mauro. “Já mobilizei uma equipe.”
“Não pedi que mobilizasse.”
“Estou tentando ajudar.”
Dante colocou sobre a mesa o celular de Camila.
“Meu tio ligou para ela há poucos minutos.”
Mauro não piscou.
“Augusto liga para muitos funcionários. Ele administra parte da casa.”
“Não administra mais.”
Verônica desceu atrás deles.
“Dante, não transforme uma coincidência em guerra.”
“Coincidência é o nome que covardes dão a uma sequência de provas.”
Ele ordenou que Mauro entregasse as gravações. O chefe de segurança abriu o tablet e mostrou imagens do portão de serviço. Às 2h17, Camila aparecia caminhando sozinha até o próprio carro. A imagem era granulada, mas suficiente para reconhecer o uniforme cinza e o cabelo preso.
“Ela saiu por vontade própria”, declarou Mauro.
Dante assistiu novamente.
“Amplie a mão esquerda.”
Mauro hesitou antes de obedecer. A mulher carregava uma bolsa, mas não usava a pulseira de tecido azul que Camila nunca tirava. Dante a vira nela todas as manhãs durante onze meses.
“Essa não é Camila.”
“A câmera distorce cores.”
“Ela também ficou dez centímetros mais alta?”
Mauro fechou o tablet.
“Pode ser o salto.”
“Camila trabalha de tênis.”
Dante estendeu a mão.
“Quero o arquivo original.”
“Está no servidor.”
“Então me dê acesso.”
“O sistema está em manutenção.”
Dante mandou chamar Cecília, a jovem analista responsável pela automação da casa. Ela chegou segurando um notebook e explicou que o servidor entrara em manutenção remota às 2h05, sem solicitação registrada. O acesso partira de um terminal instalado no escritório de Mauro.
“Consigo recuperar o original, mas preciso de algumas horas”, disse ela.
“Faça uma cópia fora da rede.”
Mauro tentou tomar o computador.
“Essa funcionária não tem autorização para retirar dados da propriedade.”
Dante colocou-se entre os dois.
“Agora tem.”
Cecília conectou um dispositivo e encontrou outro detalhe. O relógio da gravação fora adiantado em quarenta minutos. Às 2h17 mostradas na tela, o carro de Camila já estava sendo captado por um radar na rodovia. A imagem não podia ser autêntica.
“Alguém montou o vídeo antes de ela desaparecer”, concluiu Cecília.
Mauro perdeu a calma por uma fração de segundo. Foi o bastante.
Cecília salvou três cópias e entregou uma diretamente a Rafael. Dante determinou que nenhum arquivo voltasse ao servidor da mansão. A casa que ele julgava impenetrável acabara de provar que paredes altas não serviam quando o perigo possuía senha e confiança.
Dante o encarou em silêncio. Mauro havia ensinado ao jovem herdeiro que uma mentira raramente aparecia na voz; aparecia no excesso de explicações.
Antes que pudesse confrontá-lo, Luna surgiu correndo da cozinha. Rafael veio atrás.
“Ela encontrou isto dentro do coelho”, explicou ele.
Luna segurava uma pequena chave de latão presa a uma etiqueta: 214.
“Mamãe costurou aqui”, disse a menina. “Falou para eu entregar ao homem que lembrasse da metade do biscoito.”
Dante perdeu a cor.
No Santa Cecília, a pequena Mila dividia tudo ao meio. Principalmente biscoitos de chocolate. Quando Dante tinha pesadelos, ela deixava metade no travesseiro dele.
Mauro observou a chave, e por um instante seu rosto revelou algo que não deveria: reconhecimento.
Dante guardou a peça no bolso.
“Rafael, prepare o carro.”
Mauro avançou um passo.
“Você não pode ir ao Santa Cecília. O prédio está condenado.”
“Eu não disse aonde iria.”
O silêncio denunciou mais que qualquer confissão.
Dante retirou a arma de Mauro com um movimento rápido e entregou-a a Rafael.
“A partir de agora, você não comanda nem a porta da garagem.”
Mauro ergueu as mãos.
“Está cometendo um erro.”
“Talvez. Mas desta vez o erro será meu, não uma decisão que você colocou na minha boca.”
Luna puxou o paletó de Dante.
“Você lembrou do biscoito?”
Ele olhou para o coelho sem orelha, para a chave e para o pedaço de fotografia.
“Lembrei de uma menina.”
“Era minha mamãe?”
Dante não respondeu.
Ao sair, recebeu no telefone uma mensagem enviada do número de Camila. Havia uma fotografia dela sentada no banco traseiro de um carro, pulsos presos por uma fita preta. No vidro, refletia-se o anel de Augusto.
Abaixo da imagem, uma ordem:
TRAGA A CHAVE 214 E A MENINA. SOZINHO.
Dante apagou a tela antes que Luna visse.
Pela primeira vez, compreendeu que não estavam usando Camila para chegar até ele.
Estavam usando Luna para obrigar Camila a entregar algo que sua família procurava havia vinte e quatro anos.
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