"A Filha da Empregada Imitou o Chefe da Máfia por 14 Dias… Até Ele Descobrir o Motivo" Capítulo 3 — O Homem Que Não Sorria Havia 18 Meses
"Repete o que você acabou de dizer, Sofia."
Marina estava ajoelhada ao lado da cama, segurando delicadamente as mãos da filha.
A menina esfregou os olhos.
"Eu tô com sono, mamãe."
"Eu sei, meu amor. Mas você falou que alguém matou a moça bonita."
Sofia assentiu.
"Foi."
"Quem?"
A criança olhou para o canto escuro do quarto.
Por alguns segundos, pareceu escutar alguma coisa.
Então seu rostinho mudou.
"Ela não quer falar."
Marina sentiu um frio percorrer sua coluna.
"Por quê?"
"Porque ele fica bravo."
"Quem fica bravo?"
Sofia puxou o cobertor até o queixo.
"O homem que machucou ela."
Antes que Marina pudesse fazer outra pergunta, a menina fechou os olhos.
Poucos minutos depois, dormia profundamente.
Marina permaneceu imóvel.
Não acreditava em fantasmas.
Sua mãe costumava contar histórias sobre almas que não encontravam descanso, mas Marina sempre considerara aquilo superstição.
Agora, porém, havia uma criança de três anos descrevendo acontecimentos que ninguém lhe contara.
E uma mulher morta aparentemente tentando transmitir uma mensagem.
Na manhã seguinte, Dante Montenegro encontrou Bruno esperando diante do escritório.
"Conseguiu recuperar os arquivos?"
"Ainda não. O cartão está danificado."
"Quanto tempo?"
"O técnico pediu dois dias."
Dante soltou uma respiração impaciente.
"Ele tem um."
Bruno assentiu.
"Também investiguei o histórico da Marina."
Dante levantou os olhos.
"Por quê?"
"Porque o senhor pediu que verificássemos qualquer pessoa com acesso ao corredor."
"E encontrou alguma coisa?"
"Ela nasceu em Santos. Mudou-se para São Paulo aos vinte e três anos. Trabalhou em dois restaurantes e depois em serviços domésticos."
"E o pai da menina?"
"Não participa da criação. Marina tem a guarda da filha."
Dante permaneceu em silêncio.
Bruno continuou:
"Não encontrei ligação dela com nossos adversários. Nem com a família Montenegro."
"Então pare de investigar a vida pessoal dela."
O segurança pareceu surpreso.
"Senhor?"
"Eu disse que já chega."
Bruno guardou a pasta.
Antes de sair, acrescentou:
"Tem mais uma coisa."
Dante esperou.
"Teresa confirmou que Camila gostava de crianças."
A expressão de Dante endureceu.
"Eu sei."
"Ela visitava uma instituição infantil em Santo Amaro. Continuou fazendo doações até pouco antes de morrer."
Dante olhou para a janela.
Camila sempre dizia que aquela mansão era grande demais para duas pessoas.
Ele nunca entendera o que ela realmente queria dizer.
Até agora.
Ao meio-dia, Sofia estava sentada em um banquinho na cozinha.
Teresa havia permitido que Marina a mantivesse ali enquanto organizava a despensa.
A menina balançava as pernas, segurando uma pequena tigela.
"Cadê o moço bravo?"
Marina quase deixou cair uma colher.
"Filha, não chama o senhor Montenegro assim."
"Mas ele é bravo."
"Mesmo assim."
Sofia pensou.
"Então posso chamar de Dante?"
"Não!"
A resposta saiu tão depressa que Teresa soltou uma risada.
"Deixa a menina, Marina."
"Se ela chamar o patrão pelo primeiro nome, eu perco meu emprego."
Teresa olhou para Sofia.
"Talvez não."
Marina estranhou o tom.
A governanta estava diferente desde o episódio do quarto.
Mais silenciosa.
Mais preocupada.
Antes que Marina pudesse perguntar alguma coisa, um funcionário entrou na cozinha.
"O senhor Montenegro vai almoçar."
Todos começaram a se movimentar.
O almoço de Dante seguia regras rígidas.
A mesa precisava estar pronta exatamente às doze e meia.
Ninguém deveria permanecer na sala depois de servir.
E a cadeira à direita dele permanecia vazia.
Era o lugar de Camila.
Havia dezoito meses que ninguém se sentava ali.
Dante entrou na sala de jantar com Ricardo Montenegro.
O primo tinha trinta e oito anos, cabelos escuros cuidadosamente penteados e um sorriso que raramente chegava aos olhos.
"Você precisa voltar a aparecer nos eventos da família", Ricardo dizia.
"Não tenho interesse."
"Valentina perguntou por você."
"Problema dela."
Ricardo sorriu.
"Você não pode continuar vivendo como um viúvo para sempre."
Dante parou diante da mesa.
"Escolha melhor suas palavras."
Ricardo ergueu as mãos.
"Estou preocupado com você."
Dante se sentou.
"Então se preocupe em entregar os relatórios financeiros."
O sorriso do primo desapareceu por um instante.
Mas logo voltou.
"Naturalmente."
Os dois começaram a almoçar.
Foi quando uma voz pequena surgiu na porta.
"Dante!"
O garfo de Ricardo parou no ar.
Dante levantou a cabeça.
Sofia apareceu segurando uma tigelinha de arroz.
Atrás dela, Marina corria desesperada.
"Sofia! Volta aqui!"
Mas a menina já havia atravessado metade da sala.
Caminhou diretamente até a cadeira vazia.
Tentou subir.
Não conseguiu.
Então olhou para Dante.
"Me ajuda?"
Ricardo ficou vermelho.
"Que absurdo é esse?"
Marina alcançou a filha.
"Me desculpe, senhor. Eu só fui buscar água e ela..."
"Essa criança não deveria estar aqui", Ricardo interrompeu.
Sofia olhou para ele.
"Eu tô com fome."
"Então vá comer na cozinha!"
A menina encolheu os ombros.
Marina pegou sua mão.
"Vamos, filha."
Mas Sofia resistiu.
"Eu quero comer com ele."
Ricardo bateu a mão na mesa.
"Essa cadeira não é para você!"
Sofia se assustou.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
Dante pousou lentamente os talheres.
"Ricardo."
O primo se virou.
"O quê?"
"Não grite com a menina."
"Você está brincando? Ela está tentando sentar no lugar da Camila!"
Dante olhou para a cadeira vazia.
Por um instante, o passado pareceu invadir a sala.
Camila sorrindo enquanto servia café.
Camila reclamando que ele nunca largava o celular.
Camila segurando sua mão por baixo da mesa.
Então Sofia falou:
"A moça não fica brava."
O silêncio caiu sobre todos.
Dante virou lentamente a cabeça.
"O que você disse?"
Sofia apontou para a cadeira.
"Ela falou que eu posso."
Marina sentiu as pernas enfraquecerem.
Ricardo soltou uma risada nervosa.
"Agora vamos permitir que uma criança invente histórias sobre mortos?"
Dante não olhou para ele.
Continuou observando Sofia.
"Você quer sentar aí?"
A menina assentiu.
"Quero."
Dante puxou a cadeira.
"Então sente."
Marina ficou paralisada.
Ricardo abriu a boca.
"Dante, você não pode..."
"Posso."
A palavra foi baixa.
Definitiva.
Dante ajudou Sofia a subir.
Os pezinhos não alcançavam o chão.
A menina colocou a tigela diante de si.
Depois cruzou as mãos atrás das costas, imitando a postura séria do chefe.
Dante observou.
"Vai comer assim?"
Sofia tentou segurar a colher sem descruzar os braços.
Não conseguiu.
A colher caiu dentro da tigela.
O arroz espirrou sobre a mesa.
Sofia arregalou os olhos.
Dante olhou para a sujeira.
Marina prendeu a respiração.
Então ele começou a rir.
Não foi apenas um sorriso.
Foi uma risada verdadeira, profunda, inesperada.
Sofia também riu.
E, pela primeira vez em dezoito meses, a sala de jantar dos Montenegro deixou de parecer um lugar de luto.
Mais tarde, Marina encontrou Dante na varanda.
Sofia dormia em uma poltrona próxima, abraçada ao ursinho.
"Senhor Montenegro..."
Ele se virou.
"Pode falar."
"Obrigada pelo almoço."
Dante olhou para a menina.
"Ela sempre é assim?"
"Assim como?"
"Sem medo."
Marina sorriu discretamente.
"Ela tem medo de trovão. De cachorro grande. E de ficar sozinha no escuro."
"Mas não de mim."
"Não."
Dante ficou em silêncio.
Marina respirou fundo.
"Ela acha que o senhor é triste."
"Ela não está errada."
A sinceridade da resposta surpreendeu Marina.
Dante apoiou as mãos no parapeito.
"Camila queria ter filhos."
Marina não respondeu.
"Eu sempre dizia que não era o momento. Que minha vida era perigosa demais."
Ele olhou para a aliança que ainda usava.
"Ela morreu antes que eu pudesse mudar de ideia."
Marina sentiu uma tristeza profunda.
"Talvez sua esposa soubesse que o senhor podia ser diferente."
Dante soltou uma respiração amarga.
"Você não sabe o que eu sou."
"Não. Mas sei o que vi hoje."
Ele se virou.
"O quê?"
"Um homem que podia ter humilhado uma criança e escolheu fazê-la sorrir."
Dante sustentou seu olhar.
Por um instante, nenhum dos dois falou.
Então uma brisa atravessou a varanda.
Sofia se mexeu durante o sono.
E murmurou:
"Não fica triste, tia Camila."
Dante congelou.
Marina se aproximou da filha.
Sofia continuava dormindo.
Mas seus lábios se moveram novamente.
"Eu conto pra ele."
Dante deu um passo à frente.
"Conta o quê?"
A menina abriu os olhos lentamente.
Olhou para o espaço vazio ao lado da poltrona.
Depois para Dante.
"Ela quer que você saiba que não foi culpa sua."
Os olhos dele ficaram úmidos.
Marina viu.
Mas não comentou.
Naquela noite, Teresa encontrou Marina sozinha na lavanderia.
A governanta fechou a porta.
"Precisamos conversar."
Marina percebeu o medo em seu rosto.
"Aconteceu alguma coisa?"
Teresa hesitou.
"Camila me procurou três dias antes de morrer."
Marina ficou imóvel.
"Ela estava assustada. Disse que alguém da família estava mentindo para Dante."
"Quem?"
"Ela não falou o nome."
Teresa apertou as mãos.
"Mas me fez prometer uma coisa."
"O quê?"
"Que, se acontecesse alguma coisa com ela, eu não confiaria em ninguém daquela família."
Marina sentiu o coração acelerar.
"Nem no senhor Dante?"
Teresa balançou a cabeça.
"Ela disse que Dante era o único que não sabia de nada."
Um ruído veio do corredor.
As duas se viraram.
A porta estava entreaberta.
Do outro lado, Ricardo Montenegro permanecia imóvel.
Seu sorriso habitual havia desaparecido.
"Que conversa interessante."
Teresa empalideceu.
Ricardo entrou lentamente.
"Vocês estavam falando da minha prima?"
Marina tentou responder.
Mas ele ergueu a mão.
"Não precisa explicar."
Olhou diretamente para Teresa.
"Alguns mortos deveriam continuar enterrados."
E saiu.
Naquela mesma noite, quando Teresa abriu o armário de seu quarto, encontrou uma fotografia antiga de Camila.
Alguém havia riscado o rosto da mulher com uma caneta preta.
Atrás da fotografia, havia uma única frase:
"A próxima pessoa que falar vai morrer como ela."
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