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"O Milionário Que Escolheu a Gordinha" Capítulo 3 — O Segredo da Casa Humilde

正文开头

O colar de diamantes brilhava tanto que Marina mal conseguia olhar para ele.

Dante o colocara sobre a mesa de um restaurante elegante dos Jardins, dentro de uma caixa de veludo azul. Um garçom acabara de servir dois pratos que ela nem reconhecia.

"O que é isso?", perguntou.

"Um presente."

"Pelo quê?"

"Pelo que aconteceu na mansão. Achei que merecia alguma coisa bonita."

Marina fechou a caixa com delicadeza.

"É bonito. Mas eu não quero."

"Não precisa se preocupar com o preço."

"Não estou preocupada com o preço. Estou preocupada com a ideia."

Dante ficou imóvel.

"Qual ideia?"

"A de que um colar conserta o que você fez."

Ele recostou-se na cadeira. A conversa havia começado bem. Marina contara que trabalhava numa pequena empresa de atendimento administrativo e ajudava a mãe com encomendas de costura. Dante falara da infância na mansão, dos almoços silenciosos e da pressão para assumir o grupo depois da morte do pai.

Por alguns minutos, pareciam duas pessoas comuns.

Até o presente.

"Não tentei comprar você", disse ele.

"Eu sei que talvez não tenha sido sua intenção. Mas dinheiro demais também pode impedir uma pessoa de enxergar a outra."

Dante olhou para a caixa.

"O que você gostaria que eu tivesse trazido?"

"Nada. Você já tinha prometido uma conversa."

Ele pediu ao garçom que levasse a joia embora.

Marina relaxou um pouco.

"Posso fazer uma pergunta?", disse Dante.

"Pode. Não prometo responder."

"Por que se inscreveu naquela seleção?"

Marina demorou a falar. Não queria admitir que a propaganda do evento prometia uma avaliação médica gratuita a todas as participantes. Havia imaginado que poderia conversar com um especialista e conseguir orientação para Gabriel. Só descobrira no local que não existia consulta alguma.

"Porque eu precisava de uma informação", respondeu. "E a propaganda dava a entender que havia médicos envolvidos."

Dante franziu a testa.

"Que informação?"

"Sobre articulações. Para meu irmão."

Ele compreendeu o tamanho da falha de comunicação.

"Eu não sabia que anunciavam o evento desse jeito."

"Pois deveria saber. Seu nome estava em tudo."

Dante não contestou.

"Eu acreditava que estava sendo responsável", admitiu. "Depois do acidente, toda decisão parecia envolver o futuro de alguém que nem nasceu."

"Ter medo é humano", respondeu Marina. "O problema é deixar o medo virar regra para os outros."

"Você sempre fala assim?"

"Assim como?"

"Como se soubesse exatamente onde dói."

Ela mexeu o café, pensativa.

"Talvez porque já tenha ouvido muita gente falando do corpo dos outros como se fosse assunto público."

Dante olhou para as próprias mãos. O aparelho, os formulários, a fila de mulheres: de repente tudo lhe pareceu profundamente vergonhoso.

Depois do almoço, ofereceu novamente uma carona. Marina aceitou apenas até a estação de metrô. No caminho, falou de Gabriel sem contar detalhes íntimos: gostava de barcos, de futebol na televisão e de inventar perguntas que ninguém sabia responder.

"Ele parece esperto", comentou Dante.

"Esperto demais. Principalmente quando quer fugir da lição de matemática."

正文1

O sorriso dela transformou seu rosto. Dante percebeu que passara dias tentando descobrir o segredo da máquina e quase não prestara atenção ao modo como Marina se iluminava ao falar do irmão.

Na manhã seguinte, Dante apareceu na Vila Mariana sem avisar.

Vestia camisa preta, calça escura e sapatos que pareciam custar mais do que a máquina de costura da família Oliveira. Bruno, seu motorista, ficou esperando na esquina.

A casa era pequena, com um portão azul descascado e vasos de plantas junto à entrada. Dante tocou a campainha duas vezes.

Dona Rosa abriu.

"Pois não?"

"Bom dia. Sou Dante Montenegro. Gostaria de falar com Marina."

Rosa olhou para o homem, depois para o carro estacionado à distância.

"O milionário?"

"Infelizmente, é assim que muita gente me apresenta."

Ela cruzou os braços.

"Minha filha está no quintal. Mas aviso que aqui ninguém recebe ordem."

"Estou começando a aprender isso."

Rosa o deixou entrar.

A sala cheirava a café recém-passado e tecido limpo. Havia fotografias de família nas paredes e uma televisão antiga sobre um móvel baixo.

Dante ouviu uma voz infantil.

"Marina, aperta mais essa tira? Está escapando."

No quintal, Gabriel estava sentado num banco, com uma órtese em cada perna. Marina se ajoelhara diante dele para ajustar as tiras de velcro.

"Não pode ficar frouxa", explicou ela. "O fisioterapeuta mostrou como fazer."

"Eu sei, mas hoje está chata."

Dante parou junto à porta.

Marina levantou o rosto.

"O que você está fazendo aqui?"

"Queria conhecer seu mundo. Acho que deveria ter ligado antes."

"Deveria."

Gabriel observou o visitante com interesse.

"É ele?"

"Ele quem?", perguntou Marina.

"O cara do teste das pernas."

Dante quase sorriu.

"Sou eu."

"Você testa as pernas das pessoas porque não sabe usar régua?"

Marina levou a mão ao rosto. Dante soltou uma gargalhada inesperada.

"Acho que sua irmã teria feito a mesma pergunta."

"Ela faz perguntas piores", disse Gabriel.

Dona Rosa apareceu com café e pão de queijo. Dante tentou recusar, mas o menino já apontava para a cadeira ao lado.

"Senta. Aqui ninguém fica em pé só porque é rico."

Dante sentou.

Durante a manhã, Gabriel mostrou seus desenhos. Explicou que alguns dias conseguia caminhar até a esquina, enquanto em outros precisava descansar muito antes de sair. Contou que detestava quando desconhecidos falavam dele como se não estivesse ouvindo.

"Eu não gosto que tenham pena", declarou. "Mas aceito bolo de chocolate."

Dante riu novamente.

Enquanto as peças secavam, Gabriel explicou que queria visitar Santos para ver barcos de verdade. Marina prometera levá-lo quando conseguissem juntar dinheiro para a viagem e para as despesas do tratamento daquele mês.

"Você já viu o mar?", perguntou Gabriel.

"Muitas vezes", respondeu Dante.

"Então sabe se ele é tão grande quanto parece na televisão?"

"É maior. E muda de cor o tempo todo."

"Eu queria ver isso."

Dante quase ofereceu um passeio imediato, com carro e hotel. Lembrou-se, porém, do que Marina dissera sobre resolver tudo com dinheiro. Em vez disso, perguntou ao menino qual barco gostaria de construir primeiro.

正文2

Marina o observava em silêncio. Não havia piedade no olhar dele, apenas atenção. Era a primeira vez que o via esquecer o telefone por tanto tempo.

Depois, Gabriel pediu ajuda para montar um barquinho de madeira que ganhara de um vizinho. Dante se sentou no chão, arregaçou as mangas e tentou encaixar duas peças.

"Está errado", corrigiu o menino.

"Você tem certeza?"

"Tenho oito anos, não sou bobo."

"Justo."

Quando finalmente terminaram, Gabriel colocou o barco sobre uma bacia de água. A embarcação tombou imediatamente.

"Afundou", disse Dante.

"Não. Está testando a água."

Marina começou a rir. Dante acompanhou, incapaz de conter a alegria simples daquela cena.

Ao sair, ele encontrou Rosa na cozinha.

"Sua filha faz muito por vocês", comentou.

"Faz. Mas não pense que ela precisa de um salvador."

"Não penso."

"Ótimo. Porque homem que chega com dinheiro achando que resolve tudo costuma sair sem entender nada."

Dante assentiu. A frase se parecia tanto com algo que Marina diria que ele não pôde deixar de sorrir.

Antes de ir embora, encontrou Marina no portão.

"Obrigado por me deixar ficar."

"Foi o Gabriel quem deixou."

"Então agradeça a ele."

Ela hesitou.

"Você foi gentil com meu irmão."

"Ele foi gentil comigo. Mesmo depois de me chamar de homem da régua."

Marina sorriu de verdade.

Dante teve vontade de beijá-la, mas não se aproximou. Pela primeira vez, compreendeu que respeitar o tempo dela era mais importante do que satisfazer o próprio desejo.

Naquela noite, recebeu uma ligação de Henrique.

"Dante, revisei as leituras antigas. Precisamos conversar imediatamente."

"Sobre Marina?"

"Sobre uma candidata que apareceu antes dela."

Dante se levantou.

"Você disse que Marina foi a primeira."

"Eu acreditava nisso. Mas alguém alterou os registros oficiais."

"Quem?"

Do outro lado da linha, Henrique respirou com dificuldade.

"Seu tio mentiu sobre os resultados. E talvez tenha mentido sobre muito mais."

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