"O Milionário Que Escolheu a Gordinha" Capítulo 2 — A Mulher Que Disse Não ao Herdeiro
"Você sabe com quem está falando?"
Ricardo Montenegro se colocou entre Marina e a porta da mansão. A voz dele era baixa, mas carregada de ameaça.
Marina segurou a bolsa contra o corpo.
"Sei. Com um homem que acha que pode decidir o futuro de uma desconhecida."
"Estou falando do meu sobrinho."
"Então talvez o senhor devesse ensiná-lo a fazer um convite antes de anunciar um casamento."
Algumas convidadas esconderam o rosto. Valentina soltou uma risada curta, esperando que Dante explodisse.
Mas Dante não levantou a voz.
"Tio Ricardo, afaste-se."
"Essa mulher está humilhando nossa família."
"Ela respondeu a uma proposta que eu nem deveria ter feito."
Marina se surpreendeu. Não esperava ouvi-lo admitir um erro diante de tanta gente.
Dante se voltou para os funcionários.
"A seleção terminou. Todos podem ir embora."
Valentina avançou.
"Quatro anos, Dante! Minha família apoiou esse projeto desde o início. Você vai encerrar tudo por causa dela?"
"Vou encerrar porque já deveria ter encerrado."
"Ela só teve sorte!"
"Então considere uma sorte não precisar se casar comigo."
A frase arrancou um silêncio desconfortável. Valentina saiu pisando duro, acompanhada por duas amigas.
Marina caminhou até o vestíbulo. Dante a alcançou antes que chegasse à escadaria.
"Espere."
"Vai me pedir outra prova?"
"Vou pedir desculpas."
Ela parou.
"Pelo pedido de casamento ou pela forma como aquelas mulheres me trataram?"
"Pelos dois. E por não ter interrompido os insultos antes."
Marina respirou fundo. Estava acostumada a homens poderosos tentando comprar o fim de uma discussão com meia dúzia de palavras.
"O senhor conhece a posição dos meus joelhos", disse. "Conhece a estrutura dos meus pés e o peso que coloco em cada perna. Mas não sabe o que me faz rir. Não sabe do que tenho medo. Nem sabe se eu quero filhos."
Dante ouviu sem interromper.
"E, mesmo assim, decidiu que eu seria sua esposa."
"Você tem razão."
"Isso foi rápido."
"Estou tentando não cometer o mesmo erro duas vezes."
Ela quase sorriu, mas se conteve.
"Por que essa máquina existe?"
Dante olhou para a sala vazia atrás deles. Havia uma resposta curta, a que repetira a si mesmo durante anos. E havia a resposta verdadeira, da qual sentia vergonha.
"Sofri um acidente durante uma viagem ao interior. Na investigação médica, descobriram uma alteração hereditária que pode afetar articulações."
Marina não disse nada.
"Passei meses com medo de ter filhos que enfrentassem dores parecidas. Um especialista propôs observar certos padrões de apoio e alinhamento corporal. O aparelho nasceu daí."
"E isso garante alguma coisa?"
Dante hesitou.
"Disseram que poderia indicar um risco menor."
"Disseram quem?"
"Médicos, consultores... gente em quem confiei."
Marina o encarou.
"Meu irmão frequenta consultórios desde pequeno. Aprendi uma coisa: um corpo não é um resultado de máquina. E ninguém pode prometer saúde para um filho olhando as pernas da mãe."
A observação o atingiu mais profundamente do que a recusa.
"Você tem um irmão?"
"Tenho. E não vou transformá-lo em assunto de uma conversa de corredor."
Dante baixou os olhos.
"Desculpe."
Naquele momento, Henrique apareceu carregando uma pasta. Parecia querer falar com Dante, mas recuou ao ver Marina.
"Senhor Montenegro, os registros..."
"Depois, doutor."
Marina percebeu o nervosismo do médico.
"Ele parece preocupado."
"É um dia complicado."
"Talvez para todas nós que fomos medidas como mercadoria também tenha sido."
Dante não tentou se defender.
Do lado de fora, uma garoa fina cobria o jardim. Um motorista abriu a porta de uma limusine, mas Marina recusou a carona.
"Posso mandar um carro menor", ofereceu Dante.
"Eu sei pegar ônibus."
"Não quis ofender."
"Então não transforme cada resposta minha em um problema que seu dinheiro precisa resolver."
Ele permaneceu ao lado da escada.
"Eu gostaria de conhecer você de verdade. Sem aparelho. Sem conselho. Sem pedido de casamento."
Marina examinou seu rosto. A arrogância ainda estava ali, mas agora dividia espaço com um constrangimento sincero.
"Uma conversa", respondeu. "Em lugar público. E eu pago o meu café."
Dante assentiu.
"Combinado."
Antes de sair, Marina passou pela portaria onde uma funcionária mais velha lhe devolveu o documento de identidade. A mulher evitou seu olhar.
"A senhora foi muito corajosa", sussurrou.
"Não fiz nada extraordinário."
"Aqui dentro, discordar dele é extraordinário."
Marina guardou o documento. Aquela frase a incomodou mais do que os insultos. Como seria viver cercado de pessoas que nunca diziam não? E que espécie de solidão existia por trás daquela riqueza?
No ônibus de volta à Vila Mariana, Marina recebeu mensagens de números desconhecidos. Uma fotografia dela no aparelho já circulava nas redes sociais. A legenda a chamava de mulher escolhida pelo milionário.
Outra postagem zombava de seu vestido e de seu corpo.
Ela desligou a tela.
O ônibus atravessou avenidas iluminadas e depois ruas cada vez mais familiares. Marina observou mulheres saindo do trabalho, um pai carregando a mochila da filha e um casal discutindo baixinho perto da porta. Vidas comuns, cheias de decisões próprias. Ela não trocaria aquela liberdade por uma mansão, por mais bonitas que fossem suas escadas.
No entanto, lembrava-se da maneira como Dante aceitara a crítica. Não parecia um gesto ensaiado. Talvez houvesse um homem diferente por trás da figura que aparecia nas revistas.
Em casa, Dona Rosa costurava uma barra de calça perto da janela. Gabriel, de oito anos, desenhava um barco sobre a mesa.
"E então?", perguntou o menino. "Você conheceu o homem rico?"
"Conheci."
"Ele é bonito?"
"É muito convencido."
"Isso não responde."
Rosa riu. Marina abraçou o irmão, cuidando para não esbarrar nas órteses que ele usava abaixo dos joelhos.
"Depois eu conto."
Mais tarde, na mansão, Dante encontrou Henrique no antigo escritório do pai.
"Quero uma avaliação independente daquele aparelho", anunciou. "E quero saber por que nunca me explicaram claramente suas limitações."
Henrique sentou-se devagar.
"É uma decisão sensata. O equipamento não diagnostica genes, Dante. Nunca diagnosticou."
"Então por que me deixaram acreditar que eu podia escolher uma esposa com base nele?"
"Porque algumas pessoas confundiram um indício físico com uma certeza. E outras acharam conveniente manter a confusão."
Dante se aproximou da mesa.
"Outras pessoas quem?"
Henrique abriu a boca, mas a porta se moveu. Ricardo entrou sem bater.
"Temos uma crise de imagem para resolver", anunciou. "A imprensa quer saber quem é a mulher."
"Ela tem nome", respondeu Dante.
Ricardo sorriu sem humor.
"O conselho está recebendo ligações de investidores. Todos querem saber se você pretende anunciar um noivado."
"Não haverá anúncio nenhum."
"Sua vida pessoal não é apenas sua, Dante. Você representa acionistas, funcionários e contratos."
"E isso me dá o direito de desrespeitar alguém?"
Ricardo não respondeu. Apenas ajeitou os punhos da camisa, como fazia sempre que uma conversa ameaçava escapar ao seu controle.
"É justamente o nome que precisamos controlar."
Dante ordenou que o tio saísse. Quando ficaram sozinhos, Henrique fechou a pasta rapidamente.
"Há documentos antigos que preciso rever", murmurou.
Naquela noite, Ricardo ligou para um assessor de confiança.
"Procure o arquivo Ferreira."
"O de dezenove meses atrás?"
"Esse mesmo."
"Mas o registro foi retirado da seleção."
Ricardo olhou para a fotografia de Marina publicada na internet.
"Descubram onde Beatriz Ferreira está. Antes que Dante descubra que Marina Oliveira não foi a primeira."
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