"O Filho da Empregada Foi Chamado de Ladrão na Mansão" Capítulo 5 — O Segredo de Enzo
O clique da fechadura fez Enzo correr até a porta.
“Pai!”
Ele girou a maçaneta duas vezes. Otávio não respondeu do corredor.
Dante permaneceu diante do compartimento aberto, segurando o caderno preto e o pen drive. A calma em seu rosto era a mesma que costumava anteceder decisões capazes de alterar a vida de muita gente.
“Afaste-se da porta”, disse.
“Ele vai voltar.”
“Eu sei.”
Dante retirou o celular do bolso. Antes que conseguisse ligar, a luz do escritório apagou. O ar-condicionado parou, e o teclado eletrônico escondido atrás dos livros emitiu um som curto.
Otávio havia cortado a energia do cômodo.
Enzo começou a respirar depressa.
“Ele fazia isso quando eu não obedecia.”
“Trancava você aqui?”
O menino assentiu.
“No escuro. Dizia que ladrões precisavam aprender como era ficar sozinhos.”
Dante acendeu a lanterna do telefone. A revelação atingiu um lugar que as planilhas de dinheiro não alcançavam. Durante anos, ele vira o sobrinho provocar funcionários, quebrar objetos e desaparecer durante festas. A família chamava aquilo de falta de limites.
Ninguém perguntara de onde vinha o desespero.
“Olhe para mim”, Dante disse.
Enzo demorou, mas ergueu os olhos.
“Você não vai ficar trancado.”
Dante telefonou para Rafael, informou a localização e pediu que bloqueasse todas as saídas da propriedade. Menos de dois minutos depois, ouviu-se o ruído de ferramentas junto à fechadura.
A porta se abriu. Rafael entrou com dois seguranças.
“Otávio saiu pela garagem leste”, informou. “O motorista disse que ele pegou um dos carros sem escolta.”
“Localize o veículo. Não tente abordá-lo até sabermos com quem ele está falando.”
Dante entregou o pen drive a Rafael, mas manteve o caderno consigo. Enzo observou o objeto como se cada página fosse capaz de trazer o pai de volta.
“Ele vai dizer que fui eu”, murmurou.
“Dizer o quê?”
“Que roubei tudo. Que escrevi os nomes. Que inventei as ordens.”
“Você roubou algumas peças.”
Enzo recuou, surpreso com a dureza.
“Achei que ia me defender.”
“Vou protegê-lo do que seu pai fez. Não vou fingir que você não feriu Theo.”
O menino passou a mão pelo rosto.
“Helena falou a mesma coisa.”
“Então escute nós dois.”
Rafael voltou pouco depois. O pen drive continha planilhas criptografadas e dezenas de certificados de autenticidade digitalizados. Alguns pertenciam às joias recuperadas; outros descreviam peças que ainda não haviam sido denunciadas.
Havia também fotografias de funcionários da mansão, acompanhadas por informações sobre salários, dívidas e filhos.
A imagem de Helena fora tirada na lavanderia. A de Theo, diante da escola.
Dante sentiu o sangue esfriar.
“Há quanto tempo isso está aqui?”
“Os arquivos mais antigos são de dois anos atrás”, Rafael respondeu. “Mas a fotografia de Theo foi adicionada na semana passada.”
Enzo olhou para a tela.
“Meu pai perguntou se o menino esperava a mãe sozinho.”
“O que você respondeu?”
“Que sim.”
“E depois?”
“Ele disse que eu devia fazer amizade.”
Enzo começou a chorar sem emitir som. Dante fechou o computador e pediu que Teresa preparasse um quarto distante da ala de Otávio.
“Não quero dormir aqui”, disse o garoto.
“Onde quer ficar?”
“Na cozinha.”
Dante quase perguntou por quê. Então se lembrou do prato que Helena havia colocado diante dele, sem interrogatório e sem absolvição.
“Teresa ficará com você.”
“E Helena?”
“Ela está com o filho.”
“Vai voltar?”
Dante não prometeu o que não podia controlar.
Na manhã seguinte, Helena recebeu uma ligação de Teresa antes das sete. Enzo não comera o café e se recusava a sair da cozinha. Theo ouviu parte da conversa.
“Ele quer minha mãe depois de me chamar de ladrão?”, perguntou.
“Ele está com medo.”
“Eu também estava.”
Helena sentou-se ao lado dele.
“Você não precisa gostar dele. Nem perdoar agora.”
“Mas você vai ajudá-lo.”
“Vou impedir que um adulto continue usando uma criança. Isso não apaga o que aconteceu com você.”
Theo ficou calado por muito tempo.
“Eu quero ir junto.”
“Tem certeza?”
“Quero ouvir ele contar a verdade olhando para mim.”
Quando chegaram à mansão, Dante os esperava na entrada de serviço. Helena percebeu que ele escolhera aquele acesso em vez da escadaria principal, evitando transformar o retorno deles em espetáculo.
Na cozinha, Enzo estava sentado no chão, encostado no armário. Ao ver Theo, levantou-se depressa.
“Eu não sabia que você viria.”
“Eu também não.”
Theo colocou a mochila sobre a mesa.
Enzo encarou o objeto.
“Foi meu pai que me deu o relógio. Eu coloquei no bolso menor quando você foi pegar brigadeiro.”
“Por que eu?”
“Porque você estava sozinho.”
“Isso eu já sei.”
Enzo apertou os punhos.
“Porque pensei que ninguém ia acreditar em você. E porque fiquei com raiva quando minha mãe disse que sua mãe falava com você como se você fosse importante.”
Theo levou alguns segundos para entender.
“Você fez isso porque minha mãe gosta de mim?”
Enzo baixou a cabeça.
“Meu pai só presta atenção quando faço alguma coisa errada.”
Theo não o consolou. Também não o insultou.
“Então devia ter feito alguma coisa com ele. Não comigo.”
“Eu sei.”
“Agora sabe.”
Helena observou o filho sair para o corredor. Quis segui-lo, mas Dante tocou de leve seu braço e apontou para a janela. Theo apenas precisava ficar sozinho no jardim.
O toque durou um instante. Ainda assim, os dois perceberam.
“Ele foi mais justo do que muitos adultos naquela sala”, Dante disse.
“Foi ferido cedo demais. Não transforme isso em virtude.”
Dante aceitou a correção sem se defender.
Rafael entrou com uma nova informação. O carro de Otávio havia sido localizado diante de um escritório de avaliação de joias na Rua Oscar Freire. O proprietário era um dos consultores da fundação.
“Temos mandado para entrar?”, Helena perguntou.
“Ainda não”, respondeu Dante.
“Então ele pode retirar tudo.”
“Se eu agir sem prova suficiente, Otávio dirá que é uma disputa familiar. Preciso que ele nos leve ao restante da rede.”
Helena olhou para Enzo. O menino apertava os próprios braços, como se tentasse desaparecer.
“Enquanto espera pela rede, ele continua ao alcance do pai.”
“Não mais.”
Dante telefonou para a advogada da família e ordenou que fosse iniciado um pedido emergencial de proteção para Enzo. Também determinou que Otávio tivesse o acesso à mansão suspenso.
Rafael entregou-lhe uma folha recém-impressa.
“Há outra coisa. O caderno menciona um pagamento marcado para amanhã. O local está abreviado como E2.”
Enzo ergueu a cabeça.
“Estacionamento dois.”
“Da fundação?”, Dante perguntou.
“Da mansão. Meu pai encontra Verônica lá quando não quer aparecer nas câmeras da entrada.”
Rafael verificou o mapa de segurança.
“Não existe câmera no setor dois.”
Enzo olhou para Dante.
“Existe, sim. Meu pai instalou uma que só ele controla.”
O garoto explicou que a câmera ficava escondida dentro de uma luminária quebrada, voltada para as vagas usadas por Otávio. A transmissão chegava a um tablet que o pai guardava num compartimento do carro.
Rafael verificou o inventário dos veículos. O tablet não constava entre os equipamentos oficiais da segurança.
“Se recuperarmos as imagens, talvez encontremos encontros anteriores”, disse.
Dante pediu que ninguém retirasse a câmera antes do pagamento. Queria que Otávio acreditasse que o setor continuava invisível.
Helena percebeu a inquietação de Enzo.
“Você não precisa ir até lá amanhã.”
“Mas posso mostrar onde ele para.”
“Pode desenhar.”
“Se eu não ajudar, vão achar que continuo protegendo meu pai.”
Helena se ajoelhou diante dele.
“Ajudar não significa se colocar novamente ao alcance dele. Adultos devem conseguir uma prova sem usar você como isca.”
Dante ouviu sem interromper. Em seguida, pediu papel e caneta. Enzo desenhou as entradas, a posição da luminária e o local onde Verônica costumava estacionar.
Quando terminou, Dante guardou o desenho junto ao caderno.
“Isso basta. Amanhã você fica longe da garagem.”
Enzo pareceu surpreso por sua informação ter sido aceita sem que sua presença fosse exigida como preço.
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