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"O Apocalipse Despertou Minhas Tatuagens. Carrego Todos os Deuses nas Costas." Capítulo 11

正文开头

Os deuses não se ajoelharam

Clara apareceu no portão ao amanhecer.

Suas serpentes estavam despertas. Uma branca, outra verde, formando arcos atrás dos ombros. Havia cortes em seu rosto e uma mala pequena na mão.

Reconheci-a antes que Cérbero precisasse confirmar.

"Vi meu dragão no céu", disse.

Bianca estava junto à porta da cozinha e não parecia disposta a entregar o espaço sem conhecer a visita.

Apresentei as duas.

Clara entrou sem procurar o melhor quarto. Queria olhar minhas marcas.

Tocou os símbolos do antebraço e mostrou o papel onde os registrara.

"Descobri a ligação. A sequência chama as imagens juntas. Os elementos dão uma forma à passagem."

"Foi o que trouxe Xingtian."

Ela levantou os olhos.

"Você abriu?"

"Por um golpe. Quase não fiquei em pé depois."

Clara assentiu como quem encontrava uma confirmação desagradável.

"Seu corpo paga o espaço que não consegue oferecer. Uma imagem é um custo. Todas juntas..."

"Eu lembro do aviso."

Bianca se aproximou.

"Pode aprender sem precisar fazer?"

"Pode", respondeu Clara. "E devia."

Minha companheira olhou para mim.

"Ouviu?"

Peguei a caneca.

"As duas têm muito pouco tempo de convivência para concordar tão rápido."

Clara sorriu pela primeira vez. Bianca não tentou esconder o próprio.

A casa tinha luz, comida e pessoas capazes de discutir comigo sem colocar combustível na porta.

Eu devia ter conseguido descansar.

Mas a chuva continuava.

O Rei Dragão sentia algo acima das nuvens. Uma resistência que não pertencia à água. Cada vez que eu buscava a origem dos temporais pelo vínculo, encontrava a mesma pressão distante.

A segunda lua ainda estava semanas à frente.

Na primeira vida, eu só esperara sua chegada.

Desta vez, podia procurar o lugar de onde vinham as ordens.

Saí depois do café.

Bianca ajeitou a gola do meu casaco.

"Vai olhar. Não inventa outra guerra."

"Vou olhar."

Ela segurou minha mão por mais um segundo.

O dragão nos levou para cima, comigo e Cérbero sobre seu dorso.

A nuvem não acabava.

Atravessamos relâmpagos, camadas escuras e uma pressão que obrigou meu parceiro a reduzir o corpo. A proteção do Rei Dragão manteve ar e espaço ao nosso redor, mas meus sentidos começaram a perder alcance.

Continuamos.

Muito acima de qualquer tempestade natural, encontramos uma parede.

Eu a toquei.

Transparente, fria, flexível quando a mão descansava. Dura como nada que eu conhecesse quando tentei empurrar.

Cérbero lançou fogo.

A superfície ficou vermelha e voltou ao normal.

O dragão tentou com uma descarga que fez a nuvem inteira brilhar.

Nada.

Minha cidade, meus três refúgios e todas as rotas que eu planejara estavam debaixo da mesma prisão.

O entendimento foi simples e furioso.

Os monstros continuariam chegando. O clima continuaria mudando. Cada vitória compraria apenas o direito de entrar numa luta maior.

Alguém tinha colocado um teto sobre a Terra e transformado a sobrevivência numa disputa sem saída.

Eu não precisava conhecer seu nome para saber que ele seria meu inimigo.

正文1

Um rugido atravessou a escuridão.

O guardião apareceu com quatro braços, armas diferentes e uma presença capaz de me dobrar sobre o dorso do dragão.

Cérbero reconheceu sua natureza e me entregou a informação pelo vínculo.

Décimo nível.

Eu estava no terceiro.

A criatura me observou sem pressa.

"Retorne."

Sua voz surgiu dentro da minha cabeça.

A pressão chegou em seguida. O dragão encolheu. Cérbero baixou as três cabeças, resistindo sem conseguir avançar.

Eu segurei uma das escamas e mantive o rosto erguido.

"Foi você que fechou isso?"

O guardião apontou para baixo.

"Continue no seu lugar."

Na primeira vida, eu aceitara lugares demais.

O chão do depósito.

A rua depois de perder minha casa.

A fila em que trocava trabalho por comida insuficiente.

Desta vez, chegara até o teto.

Não desceria para fingir que não o tinha encontrado.

A criatura aproximou a arma.

Uma linha de luz ligou seu braço à barreira.

Percebi o que precisava atingir.

O muro e o guardião eram parte da mesma força.

Toquei os símbolos.

Cérbero virou para mim de repente. Sua recusa veio antes de qualquer imagem: sabia o que eu considerava fazer.

O dragão também sabia.

Eu os olhei.

Não dei uma ordem fingindo que seria fácil.

"Uma vez. Tudo que temos."

Cérbero encostou as três cabeças ao meu corpo, uma depois da outra. O dragão levantou o rosto apesar da pressão.

Meu exército tinha começado com um cachorro que queria bolo de mel.

Terminaria comigo até onde o caminho deixasse.

Abri o primeiro símbolo.

O guardião parou.

A água ao nosso redor se transformou num arco. O fogo de Cérbero atravessou a escuridão sem consumir o ar. As marcas da minha pele começaram a responder em sequência.

A fênix abriu as asas.

O dragão de gelo ergueu o corpo ao longo da coluna.

Xingtian voltou, maior do que a sombra que salvara minha cobertura.

Meu coração perdeu um compasso.

Abri os outros.

Pangu surgiu com uma presença que fez a própria barreira vibrar. Nüwa levantou as mãos diante da superfície. Os deuses que Clara reunira no espaço das minhas costas encontraram passagem através do corpo que eu começava a deixar de sentir.

O guardião recuou.

Pela primeira vez, sua voz perdeu a ordem.

"Você não pode sustentar isso."

"Não preciso sustentar para sempre."

Ele ergueu as quatro armas.

Xingtian recebeu a primeira e a partiu.

O dragão de gelo prendeu o movimento seguinte antes que chegasse ao Rei Dragão. A fênix atravessou a terceira investida, transformando a sombra da arma em luz.

Pangu atingiu a ligação entre o guardião e o muro.

Uma rachadura vermelha apareceu.

Eu senti a resposta dentro dos ossos.

A dor não me derrubou porque já não havia chão para alcançar.

O monstro tentou nos empurrar para baixo. Sua pressão esmagou parte da corrente luminosa e atingiu meu peito.

Cérbero ficou entre nós.

As três bocas lançaram fogo sobre a força que o oprimia.

正文2

Meu cachorro, limitado pelo corpo que eu oferecera durante tantas lutas, recebeu por um instante a liberdade que eu comprava com o fim desse corpo.

Avançou.

O Rei Dragão veio com ele, abrindo a tempestade pelo meio.

Nüwa tocou a rachadura.

A superfície reconheceu uma vontade mais antiga do que a prisão e começou a ceder.

O guardião tentou reparar a ligação.

Eu concentrei o que restava.

Não tinha mais mão suficiente para agarrar uma arma. Tinha a convocação aberta e meus companheiros na posição certa.

Apontei tudo para o mesmo ponto.

O golpe de Pangu chegou primeiro.

Xingtian atravessou a defesa rompida.

O fogo, o gelo e a água seguiram juntos.

O guardião perdeu uma arma, depois outra. Sua voz tentou formar uma nova ordem, mas o rugido do Rei Dragão ocupou o espaço antes dela.

A criatura que me mandara continuar no meu lugar caiu contra a própria barreira.

Não se ajoelhou.

Não teve tempo.

A luz atravessou seu corpo e rompeu a força que mantinha o mundo fechado.

O estrondo foi maior do que qualquer trovão que eu ouvira.

A parede se abriu.

As nuvens começaram a desaparecer, rasgadas pela luz do sol. A chuva perdeu a ordem que a mantinha caindo. A pressão saiu do meu peito, e, por um segundo, respirar não exigiu luta.

Vi Porto Sereno.

Não a cidade inteira de antes. Ruínas, água, telhados e gente que ainda precisava reconstruir.

Mas havia sol.

Não haveria uma segunda lua mandando novas criaturas para repetir a sentença.

A água começou a procurar seus caminhos sem uma força alimentando o desastre.

Nenhum morto voltou.

Eu também não voltaria.

Senti o custo terminar de atravessar o corpo. As imagens deixavam minha pele, retornando a uma existência que eu não podia acompanhar.

Cérbero permaneceu perto enquanto conseguiu.

Pelo vínculo, alcancei a casa do sul uma última vez.

Bianca estava no jardim com Clara. As serpentes da tatuadora perdiam o contorno. Minha companheira olhava para cima, protegendo os olhos da luz que não via havia semanas.

Levou a mão à boca.

Eu quis lembrar onde guardara o café, a cópia do caderno e a chave do segundo depósito.

Então percebi que ela já sabia.

Aprendera a casa.

Aprendera a lutar.

Não lhe deixava apenas uma despensa.

Cérbero encostou a testa na minha palma, tão suave quanto na primeira noite.

"Bom parceiro", pensei.

A resposta foi uma certeza quente, suficiente para me acompanhar até o fim.

Uma faixa dourada atravessou o céu aberto e seguiu além da Terra. Não encontrei nela outra cama, outra data ou uma terceira vida esperando.

Encontrei a distância que ninguém mais podia fechar sobre nós.

Bianca continuava junto ao portão.

Não consegui pedir que parasse de esperar.

Só consegui ver o sol tocar seu rosto antes de tudo desaparecer.

Vendi meu império para não morrer de joelhos.

Quando a última porta se abriu, o mundo inteiro saiu comigo.

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