"A Garçonete Que Conquistou o Filho do Mafioso" Capítulo 4 — O Segredo Que o Menino Contou à Empregada
“Foi o tio Ricardo.”
Marina parou com a caixa de lápis nas mãos.
Lucas estava sentado no tapete, apontando para um desenho feito com traços desajeitados: uma mulher de vestido amarelo, um carro preto e um homem alto.
“Você quer me contar sobre seu desenho?”, ela perguntou, sem esconder a surpresa.
“Ele gritou.”
“Quem gritou?”
Lucas apertou o lápis com força. Seu lábio inferior tremeu.
Marina percebeu que insistir seria um erro.
“Tudo bem. A gente pode guardar e brincar de outra coisa.”
Lucas entregou o papel a ela.
“Guarda.”
“Vou guardar.”
Marina colocou o desenho numa pasta, ao lado dos outros. Não sabia o que aquilo significava. Crianças misturavam lembranças, sonhos e histórias. Ainda assim, o nome Ricardo lhe causou desconforto.
Naquela manhã, Dante tinha saído cedo para uma reunião na Faria Lima. Marina decidiu esperar até que ele voltasse, em vez de telefonar e criar pânico.
A casa parecia diferente depois da discussão com Verônica. Os funcionários falavam mais baixo. Bruno havia reforçado as orientações para que ninguém entrasse no quarto de Lucas sem avisar.
Teresa trouxe frutas cortadas.
“Ele está comendo melhor”, comentou.
“Hoje escolheu sozinho a banana.”
“Dona Beatriz ficaria feliz.”
Marina ergueu os olhos.
“Você trabalhou com ela?”
“Desde antes de Lucas nascer.”
“Ela era próxima do menino?”
Teresa sorriu com tristeza.
“Os dois eram inseparáveis. Ela cantava para ele todas as noites.”
“E por que tiraram as fotos dela?”
O sorriso desapareceu.
“Doutor Dante não suportava olhar. Dona Verônica disse que seria melhor guardar tudo.”
Marina assentiu. Começava a entender por que o menino parecia viver num lugar onde a mãe nunca existira.
Depois do almoço, Lucas recusou a sopa e se encolheu no sofá. Sua testa estava quente.
“Teresa, você pode trazer o termômetro?”
A temperatura confirmou febre. Marina avisou Dante e seguiu as orientações do pediatra da família, que recomendou avaliação presencial por causa do abatimento do menino.
Dante chegou ao hospital particular em menos de meia hora.
“Por que ninguém me ligou antes?”
“Ligamos assim que percebemos a febre”, Marina respondeu. “O médico está examinando Lucas.”
“Ele estava bem de manhã?”
“Estava. Brincou, comeu fruta e depois ficou quietinho.”
Dante andou de um lado para o outro no corredor.
“Não suporto esperar sem saber.”
“Eu também estou preocupada. Mas ele está sendo atendido.”
O médico explicou que Lucas apresentava uma infecção viral comum, sem sinais de gravidade naquele momento. Orientou hidratação, repouso e acompanhamento dos sintomas.
Dante soltou o ar devagar, como se só então lembrasse que precisava respirar.
Lucas, cansado, pediu que Marina ficasse perto da cama. Ela se sentou e contou uma história sobre um dinossauro que tinha medo de trovão.
“Ele também chorava?”, Lucas perguntou.
“Às vezes.”
“Dinossauro pode chorar?”
“Pode. Até os grandes.”
O menino olhou para Dante.
“Papai é grande.”
Marina sorriu.
“É, seu pai é bem grande.”
Dante fingiu examinar o celular para esconder a emoção.
Mais tarde, Lucas adormeceu. Marina recostou a cabeça na poltrona e fechou os olhos por alguns minutos.
Quando acordou, encontrou um casaco sobre os ombros. Dante estava junto à janela.
“Você precisava descansar”, ele disse.
“Obrigada.”
“Eu fui injusto com você ontem.”
Marina tocou de leve a própria face. A marca do tapa quase desaparecera.
“Quem me bateu foi sua tia.”
“Mas fui eu quem trouxe você para um lugar onde ninguém explicou as regras.”
“Algumas regras não deveriam existir.”
Dante concordou com um movimento discreto.
“Quero que Lucas seja acompanhado por uma psicóloga infantil. E gostaria que você participasse das orientações, se concordar.”
“Concordo. Desde que o objetivo seja ajudar Lucas, não fazer ele parar de incomodar os adultos.”
“Justo.”
O silêncio entre eles deixou de ser hostil.
Na saída do hospital, Dante insistiu em levá-la para casa antes de voltar à mansão com Lucas e Teresa. Marina aceitou porque já passava da meia-noite.
O carro parou diante de um prédio antigo na Vila Mariana. A pintura da fachada descascava perto do portão.
“Você mora aqui?”, Dante perguntou.
“Eu, minha mãe e meu irmão.”
“Seu pai?”
“Foi embora quando Pedro era pequeno.”
Dante esperou. Marina continuou, surpreendida por desejar contar.
“Pedro começou a ter crises de pânico. Eu não sabia o que fazer. A primeira pessoa que nos ajudou disse para não segurá-lo à força.”
“Foi assim que você soube lidar com Lucas?”
“Em parte. Mas cada criança é diferente. Eu não tenho todas as respostas.”
Dante olhou para as próprias mãos.
“Eu também não.”
Marina observou o rosto dele. Pela primeira vez, não parecia o homem que intimidara um restaurante inteiro. Parecia apenas um pai exausto.
“Você pode aprender”, ela disse.
Dante ficou olhando para ela por tempo demais.
“Boa noite, Marina.”
“Boa noite, Dante.”
Foi a primeira vez que ela o chamou pelo nome. Os dois perceberam.
No dia seguinte, Lucas acordou sem febre e pediu para desenhar. Marina sentou ao lado dele, sem mencionar a conversa anterior.
Dante chegou durante a brincadeira. Trazia uma caixa com fotografias de Beatriz, que encontrara no escritório.
“Pensei que talvez Lucas quisesse escolher uma para o quarto.”
Marina abriu um sorriso.
“Acho uma boa ideia.”
Lucas correu até o pai e escolheu uma fotografia da mãe segurando um bolo de aniversário. Dante colocou a imagem numa moldura simples, ao alcance do menino.
Depois, Lucas pegou a pasta de desenhos.
“Papai, olha.”
Mostrou o carro preto e o homem alto.
Dante se agachou.
“Quem é esse, filho?”
Marina percebeu o perigo da pergunta e falou com calma.
“Ele mencionou um nome antes, mas não quis continuar. Talvez seja melhor conversar com a doutora Helena antes de perguntar mais.”
Dante assentiu. Estava prestes a guardar o desenho quando Lucas apontou espontaneamente para a figura.
“Foi o tio Ricardo.”
Dante parou.
Ricardo Vasconcelos era seu sócio havia dez anos. Entrava naquela casa como membro da família. Tinha carregado Lucas no colo no primeiro aniversário.
“Você viu o tio Ricardo com a mamãe?”, Dante perguntou, antes de conseguir se conter.
Lucas assentiu.
“Ele fez a mamãe chorar.”
O menino apertou a mão de Marina.
“Ela falou para ele ir embora.”
Dante sentiu o sangue gelar. Na semana anterior à morte de Beatriz, Ricardo garantira que mal tinha falado com ela.
Marina pousou a mão sobre a mesa, perto de Dante.
“Não pressione Lucas. O que ele disse precisa ser tratado com cuidado.”
Dante fechou os olhos e respirou fundo. Quando voltou a abri-los, falou suavemente com o filho.
“Obrigado por me mostrar seu desenho. Você quer brincar com seus carrinhos agora?”
Lucas assentiu e correu para o tapete.
Dante levantou-se. Sua expressão tinha mudado completamente.
“Bruno”, chamou pelo telefone. “Preciso de você no escritório.”
“Algum problema, senhor?”
Dante olhou para a fotografia de Beatriz na estante.
“Quero saber onde Ricardo esteve nos dias anteriores à morte da minha esposa.”
Desligou e se voltou para Marina.
“Se ele mentiu para mim sobre Beatriz, mentiu sobre o quê mais?”
Antes que ela respondesse, o celular de Dante vibrou.
Na tela apareceu o nome de Ricardo Vasconcelos.
A mensagem dizia: “Soube que a garçonete anda fazendo perguntas sobre Beatriz. Precisamos conversar. Hoje.”
Dante encarou aquelas palavras.
Como Ricardo sabia de uma conversa que acabara de acontecer dentro da mansão?
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