"A Filha da Empregada Levou o Chefe da Máfia Até a Porta… E Ele Descobriu Quem Era Sua Noiva" Capítulo 3 — O Segredo da Mãe do Chefe da Máfia
“Não pode entrar sozinho no quarto da sua mãe, senhor Montenegro.”
Dante encarou a enfermeira no corredor do Hospital São Gabriel, no Morumbi. A mulher usava um crachá com o nome Patrícia Mendes e segurava uma prancheta com força exagerada.
“Quem determinou isso?”
“É uma recomendação da equipe responsável. Dona Beatriz pode ficar agitada com visitas prolongadas.”
“Sou o filho dela.”
“Eu compreendo, mas a senhora Viviane nos pediu cautela.”
Dante não respondeu de imediato. Havia chegado sem avisar, acompanhado apenas por Bruno. Pela primeira vez em semanas, percebia quantas portas tinham sido colocadas entre ele e Beatriz, a mulher que o criara praticamente sozinha depois da morte do marido.
“Chame o médico responsável”, ordenou.
Patrícia hesitou e se afastou. Bruno mostrou no telefone a primeira parte da investigação: três meses antes, uma empresa chamada VV Participações assumira os custos da equipe particular de Beatriz. A mudança coincidira com o início das ameaças a Helena.
“Quem autorizou o contrato?”, Dante perguntou.
“Existe uma assinatura eletrônica atribuída a um representante da família. Estamos verificando a autenticidade. Não podemos concluir nada antes de conferir os originais.”
Dante assentiu. Não queria repetir o erro de agir sem entender o que acontecia sob seu próprio teto.
O administrador Marcelo Nogueira chegou apressado. Tinha a gravata torta e o rosto úmido.
“Senhor Montenegro, houve algum problema?”
“Quero saber por que o médico da minha mãe foi substituído.”
“Foi uma decisão administrativa baseada em novas necessidades clínicas.”
“Qual médico assinou a indicação?”
Marcelo folheou uma pasta. Demorou demais para responder.
“Precisarei consultar o prontuário.”
“Então consulte. Minha mãe continua tendo direito a receber visitas e a participar das decisões sobre seu tratamento, na medida de sua capacidade. Quero falar com ela.”
A firmeza de Dante atraiu olhares, mas não houve gritos. Marcelo finalmente autorizou a entrada e avisou que o médico de plantão seria chamado para acompanhar qualquer necessidade clínica.
Beatriz Montenegro estava sentada perto da janela, com uma manta azul sobre os joelhos. Os cabelos grisalhos tinham sido penteados para trás. Ao ver o filho, levou a mão ao peito.
“Mãe.”
Dante se aproximou devagar. Havia meses que suas visitas pareciam breves e desconfortáveis. Sempre havia alguém por perto para interpretar os gestos dela, explicar seu cansaço ou encerrar a conversa.
Beatriz estendeu a mão direita. Dante a segurou.
“Estou aqui. Hoje ninguém vai falar por você.”
Ela tentou formar uma palavra. A boca se moveu, mas o som não saiu. Seus olhos se encheram de lágrimas. Dante pegou um bloco de papel sobre a mesa e colocou uma caneta entre os dedos dela.
“Sem pressa.”
A primeira tentativa produziu um risco torto. Na segunda, Beatriz escreveu duas letras grandes: VV.
Dante sentiu um aperto no estômago.
“Viviane?”
A mãe apertou sua mão. Antes que pudesse continuar, a porta se abriu.
“Dante! Por que não me avisou que vinha?”
Viviane entrou com flores brancas e um sorriso cuidadosamente ensaiado. Patrícia vinha atrás dela.
“Eu poderia ter preparado dona Beatriz. Você sabe como ela fica confusa.”
Viviane viu o papel e o arrancou da mesa.
“Meu Deus, ela está escrevendo coisas sem sentido outra vez.”
Dante estendeu a mão.
“Devolva.”
“Estou tentando evitar que você interprete errado. Sua mãe ainda não está bem.”
“Devolva o papel, Viviane.”
A noiva percebeu que todos a observavam. Soltou a folha. Dante a colocou diante de Beatriz.
“Mãe, a senhora quer continuar?”
Beatriz assentiu com dificuldade. Viviane tentou tocar seu ombro, mas a idosa recuou.
“Está vendo?”, Dante perguntou. “Ela não quer ser tocada.”
“Ela está assustada porque você entrou sem preparar a visita.”
“Ou porque você entrou.”
Viviane empalideceu.
“Está me acusando de alguma coisa?”
“Estou fazendo perguntas.”
Dante se voltou para Marcelo, que acabara de chegar à porta.
“Quero que a situação clínica da minha mãe seja avaliada por um profissional independente, com o consentimento dela. Também quero uma explicação formal sobre a troca de equipe.”
“Claro, senhor.”
“E qualquer autorização que Viviane alegue possuir deve ser conferida antes de ser utilizada novamente.”
Viviane deu uma risada nervosa.
“Depois de tudo que fiz pela sua mãe, você vai me tratar como uma estranha?”
Dante não desviou os olhos.
“Minha mãe não precisa da sua permissão para falar comigo.”
Patrícia abaixou a cabeça. Beatriz, na cadeira, começou a chorar em silêncio. Dante ajoelhou-se ao lado dela, pegou um lenço e enxugou uma lágrima de seu rosto.
“Eu devia ter vindo antes”, disse baixinho.
Beatriz tocou sua bochecha. O gesto parecia mais uma absolvição do que uma resposta.
Do lado de fora, Viviane encurralou Marcelo perto do elevador.
“Você me garantiu que ele não teria acesso aos registros sem aviso.”
“Eu não posso impedir um familiar de solicitar esclarecimentos, senhora.”
“Não me venha com regras agora.”
“Existem documentos que precisam ser preservados. Não vou arriscar meu cargo.”
Viviane se afastou furiosa. Não percebeu que Bruno saía de uma sala próxima, depois de conversar com a equipe administrativa. Ele não ouvira tudo, mas vira o bastante para entender que a segurança dela estava desaparecendo.
Naquela tarde, Dante procurou o doutor Henrique Sampaio, neurologista que acompanhara Beatriz antes da mudança de equipe. O médico recebeu os dois em seu consultório e examinou os documentos que a família possuía.
“Eu questionei a alteração do plano de reabilitação”, explicou. “Não podia afirmar que havia intenção de prejudicá-la, mas não vi justificativa suficiente para algumas decisões. Pedi revisão e fui afastado do caso.”
“Por ordem de quem?”
“Disseram que a família havia solicitado outro profissional.”
Dante e Bruno trocaram um olhar.
Henrique continuou:
“Se sua mãe concordar, posso participar de uma nova avaliação. Precisaremos comparar os registros originais, conversar com a equipe e verificar quais intervenções realmente ocorreram.”
“Ela vai decidir”, respondeu Dante. “Não quero que mais ninguém decida por ela sem necessidade.”
Ao voltar para a mansão, encontrou Helena preparando uma bandeja de chá. Sofia desenhava na mesa da cozinha.
“Como está dona Beatriz?”, Helena perguntou.
“Ela está tentando falar. E parece ter muita coisa para dizer.”
Helena baixou os olhos.
“Ela sempre foi boa comigo. Quando Sofia teve febre, mandou Teresa me liberar para levá-la ao médico.”
Dante olhou para a menina, concentrada num desenho de três figuras de mãos dadas. A casa parecia diferente desde que ele passara a enxergar as pessoas que trabalhavam nela.
O telefone de Bruno tocou. Ele se afastou por um instante e voltou com uma expressão grave.
“Encontramos uma cópia preservada do documento que autorizou a mudança da equipe particular.”
“E?”
“Tem a assinatura de Viviane. Não como familiar. Como representante da empresa que pagou o novo contrato.”
Dante pediu que o documento fosse encaminhado ao advogado para verificação. Antes de desligar, Bruno acrescentou:
“Patrão, há outra coisa. O contrato prevê que os relatórios sobre a capacidade de comunicação de dona Beatriz sejam enviados primeiro à empresa de Viviane.”
No caminho para casa, Dante recordou um conselho de Beatriz: nunca confundir lealdade com obediência. Pensando em Helena e nos funcionários assustados, percebeu quanto tempo passara sem ouvir ninguém de verdade.
Dante ficou imóvel. A mulher que insistia em dizer que sua mãe não conseguia falar recebia, antes dele, os relatórios sobre tudo o que ela tentava dizer.
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