"A Empregada Foi Presa Pelo Crime da Irmã do Chefe da Máfia" Capítulo 3 — O Dinheiro Que Ela Nunca Tocou
Lorena atravessou o hall da mansão antes que Rafael terminasse a frase.
Dante segurou seu braço junto à porta principal. Ela se virou com tanta força que quase o atingiu.
“Solte.”
“Você não vai sozinha.”
“Meu filho desapareceu enquanto seus convidados bebiam vinho.”
“E é por isso que não vou permitir que corra diretamente para uma armadilha.”
“Permitir?”
Lorena arrancou o braço da mão dele.
“O senhor perdeu o direito de usar essa palavra comigo quando sua família decidiu o preço de cinco anos da minha vida.”
Dante recebeu a frase sem piscar. Depois abriu a porta.
“Então não estou pedindo obediência. Estou oferecendo homens, carros e tudo o que for necessário para encontrar Theo.”
“Sem armas perto dele.”
“Rafael escolhe uma equipe discreta.”
“E eu vou junto.”
“Vai.”
Vinte minutos depois, o carro entrou na rua estreita da Vila Brasilândia. Lorena reconheceu as fachadas, as lojas fechadas e o ponto de ônibus onde Theo esperava todas as manhãs.
Uma ambulância estava parada diante da casa de sua mãe.
Dona Célia havia recuperado a consciência. Sentada na maca, pressionava uma bolsa de gelo contra a nuca.
“Levaram o Theo”, disse ao ver a filha. “Um homem tocou a campainha dizendo que você tinha sofrido um acidente.”
Lorena sentiu o mundo inclinar.
“Ele entrou?”
“Theo não deixou. Disse que ligaria para você. Então o homem me empurrou.”
“Como ele levou o menino?”
Dona Célia apontou para o quarto.
A janela dos fundos estava aberta. Na cama de Theo havia um bilhete escrito com canetinha preta:
MÃE, ESTOU NA PADARIA DO SEU NIVALDO. NÃO CONFIE NO HOMEM DE GRAVATA CINZA.
Lorena soltou o ar de uma vez.
Theo escapara pela janela.
Dante leu o bilhete por cima do ombro dela.
“Ele é inteligente.”
“Ele teve que aprender cedo.”
Encontraram Theo escondido atrás do balcão da padaria, abraçado ao próprio livro de matemática. Ao ver a mãe, ele correu, mas parou quando reconheceu Dante.
“É ele?”
Lorena se ajoelhou.
“Ele quem?”
“O homem que mandou você para a prisão?”
Dante ficou a poucos passos, sem defesa possível contra a pergunta.
“Não”, respondeu Lorena. “Mas ele faz parte da família.”
Theo apertou o livro contra o peito.
“Então eu não gosto dele.”
“Você não precisa gostar”, disse Dante.
O menino pareceu surpreso.
“Adultos ricos sempre querem que a gente goste deles.”
“Eu prefiro que seja sincero.”
Lorena levantou-se.
“Nós não voltaremos para a mansão.”
“Quem tentou pegar Theo conhece este endereço”, argumentou Dante.
“E conhecia o endereço antes de eu entrar na sua casa.”
“Lorena.”
“Meu filho já perdeu a mãe uma vez. Não vai ser colocado dentro da guerra dos Montenegro.”
Dante tirou um cartão do bolso.
“Um apartamento seguro. Sem homens armados dentro, apenas vigilância externa.”
“Não quero outro favor pago pela sua família.”
“Isto não é favor.”
“É sempre isso que homens como você dizem antes de apresentar a conta.”
Na manhã seguinte, Lorena apareceu na mansão apenas para recolher suas coisas e pedir demissão.
Dante a esperava no escritório. Sobre a mesa havia um cheque preenchido com um valor que ela precisou ler duas vezes.
“Um milhão de reais”, disse ele. “Para você e Theo começarem em outro lugar.”
Lorena pegou o cheque.
Por um segundo, Dante acreditou que ela aceitaria.
Ela rasgou o papel ao meio. Depois em quatro partes. Deixou os pedaços caírem sobre a mesa de madeira escura.
“Minha vida não está à venda.”
“É uma reparação.”
“Reparação exige verdade. Dinheiro sem verdade é pagamento pelo silêncio.”
“Eu não sabia do acordo.”
“Mas se beneficiou dele. Sua irmã continuou livre. O nome Montenegro continuou limpo. Sua empresa continuou assinando contratos.”
Dante contornou a mesa.
“O que você quer de mim?”
“Que pare de tentar comprar uma solução e descubra quem roubou meu filho enquanto eu estava presa.”
“Roubou?”
Lorena abriu a bolsa e retirou uma pasta de plástico. Dentro estavam recibos de aluguel atrasado, cobranças médicas e documentos escolares públicos.
“Álvaro prometeu que Theo receberia moradia, escola e tratamento psicológico. Nada chegou até nós.”
Dante pegou os documentos.
“Havia uma conta em nome dele.”
“Nunca abri conta para Theo.”
Rafael entrou no escritório com um tablet.
“Encontrei os pagamentos.”
Na tela apareciam transferências mensais feitas pelo Grupo Montenegro. O beneficiário era Fundo Educacional Theo Batista.
“Oitocentos mil reais em cinco anos”, disse Rafael.
Lorena se apoiou na cadeira.
“Minha mãe vendeu comida na rua para comprar o material escolar dele.”
“O dinheiro foi movimentado regularmente”, continuou Rafael. “Mensalidades, consultas, aluguel.”
“Em que escola?”
Rafael mostrou o nome. Era um colégio particular no Morumbi.
Theo jamais estivera naquele lugar.
Dante pediu os nomes dos responsáveis pela conta.
Rafael deslizou a página.
O primeiro era Álvaro Siqueira.
O segundo era Bianca Montenegro.
Rafael abriu o histórico detalhado. Havia pagamentos mensais para uma empresa de transporte escolar que não existia no endereço cadastrado, consultas pediátricas assinadas por um médico morto havia três anos e recibos de aluguel referentes a um apartamento de luxo onde ninguém da família Batista jamais morara.
“Criaram uma infância inteira para o meu filho no papel”, murmurou Lorena.
“Para justificar cada retirada”, disse Rafael.
Dante percorreu os lançamentos, cada vez mais frio. Não era um desvio apressado. Alguém mantivera a fraude durante cinco anos, renovando documentos, inventando despesas e usando o nome de Theo como escudo contábil.
“Quem auditava o fundo?”
“O escritório de Álvaro.”
“Então ele fiscalizava o dinheiro que ele mesmo movimentava.”
Lorena soltou uma risada curta e amarga.
“Na sua família, até a caridade precisava de testemunha falsa.”
Lorena fechou os olhos. Não queria chorar diante de Dante, e sobretudo não queria que ele confundisse suas lágrimas com fraqueza.
“Sua irmã roubou o dinheiro do meu filho.”
“Ainda não sabemos quem movimentou a conta.”
“O nome dela está ali.”
“E eu vou descobrir por quê.”
“Enquanto isso, ela dorme em lençóis de seda e Theo aprende a fugir pela janela.”
Dante não respondeu.
Naquele instante, Theo apareceu à porta do escritório. Tinha tomado banho na casa da avó, mas ainda vestia a mesma camiseta amassada. Segurava o relógio quebrado do homem que tentara levá-lo.
“Caiu do bolso dele”, explicou. “Eu peguei porque pensei que podia ter nome.”
Rafael recebeu o objeto e abriu a tampa traseira com uma pequena lâmina. Sob a bateria havia um adesivo de manutenção de uma empresa de segurança.
Dante reconheceu o símbolo.
“Essa empresa presta serviço ao escritório de Álvaro.”
Theo olhou para Lorena.
“Foi a tia Bianca que mandou aquele homem?”
Lorena se ajoelhou e segurou as mãos do filho.
“Ainda não sabemos.”
“Mas você sabe que alguém mentiu.”
Ela não conseguiu negar. Theo aprendera cedo demais que, na vida deles, o perigo quase sempre chegava usando roupa cara e palavras educadas.
Lorena recolheu a pasta e caminhou até a porta.
“Você disse que voltou para encontrar o carro”, disse ele.
Ela parou.
“E daí?”
“Se for embora agora, nunca entrará novamente nesta propriedade.”
“É uma ameaça?”
“É a regra de segurança.”
“Então quebre a regra.”
Dante sustentou o olhar dela por alguns segundos.
“Fique até encontrarmos a prova. Theo e sua mãe serão protegidos fora da mansão, nas condições que você determinar. Você continuará recebendo salário. Nenhum cheque extra.”
“E Bianca?”
“Não sairá da propriedade.”
“Ela não vai aceitar.”
“Não pedi a opinião dela.”
Lorena quase recusou. Então pensou no homem de gravata cinza, no dinheiro desviado e no carro escondido em algum ponto daquela propriedade.
“Eu fico até encontrar o gravador.”
“Depois?”
“Depois o senhor aprende que nem tudo termina quando Dante Montenegro decide.”
Ela saiu.
Rafael esperou a porta fechar antes de colocar outro documento sobre a mesa.
“Há algo pior.”
Dante leu o extrato final. Na noite anterior, minutos depois de os portões serem trancados, todo o saldo do fundo de Theo havia sido transferido.
“Para onde?”
“Uma clínica particular em Cotia.”
“Qual paciente?”
Rafael ampliou o comprovante.
O nome registrado era Carolina Mendes.
A mulher que todos afirmavam ter morrido cinco anos antes.
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