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"A Empregada Foi Presa Pelo Crime da Irmã do Chefe da Máfia" Capítulo 1 — O Número no Pulso

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O tecido da manga rasgou no instante em que Verônica Alencar puxou o braço da nova empregada.

O som foi pequeno, mas bastou para calar a sala de jantar da mansão Montenegro. Vinte e três convidados deixaram os talheres suspensos. Bianca Montenegro parou com a taça de vinho a poucos centímetros da boca.

Lorena Batista não tentou esconder o pulso.

Sob a renda preta do uniforme aparecia uma sequência de números tortos, tatuados com tinta azulada: 417-22. Ela mesma fizera aquela marca no primeiro mês de prisão, quando percebeu que o sistema podia apagar um nome antes de apagar um corpo.

Verônica abriu um sorriso satisfeito.

“Talvez alguém devesse explicar ao Dante quem está servindo a comida dele.”

Na cabeceira da mesa, Dante Montenegro não se moveu. Vestia preto, como quase sempre, e a luz do lustre tocava a corrente dourada sobre seu peito. Seu rosto permaneceu imóvel, mas os olhos escuros passaram de Verônica para Lorena.

“Solte o braço dela”, ordenou.

Verônica soltou Lorena, porém não recuou.

“Eu só estou tentando proteger esta família. Essa mulher passou cinco anos presa por atropelar uma grávida.”

Um murmúrio atravessou a mesa.

Lorena sentiu as unhas afundarem na própria palma. Cinco anos de grades. Cinco aniversários de Theo assistidos por uma tela. Cinco Natais em que ela recebeu do filho desenhos dobrados dentro de envelopes examinados por agentes penitenciários.

Não baixou os olhos.

Bianca, sentada à direita de Dante, finalmente levou a taça à boca. O cristal bateu em seus dentes.

“Isso é verdade?”, perguntou uma tia de Dante.

Verônica respondeu antes de Lorena.

“Está nos jornais. Lorena Batista dirigia bêbada na Avenida Europa. Atropelou Carolina Mendes, grávida de sete meses, e fugiu sem prestar socorro. O bebê morreu.”

“Chega”, disse Bianca, quase sem voz.

Verônica virou-se para ela, surpresa.

“Você sabia?”

Lorena recolheu a manga rasgada com calma. Tinha ensaiado aquele momento durante anos, mas em nenhuma de suas fantasias havia imaginado Bianca tão pálida.

“Ela sabia”, respondeu Lorena.

Dante apoiou os antebraços sobre a mesa.

“Como entrou nesta casa?”

“Pela porta de serviço.”

“Não foi isso que perguntei.”

“Teresa precisava de uma funcionária temporária. Sua irmã recomendou meu nome.”

Todos olharam para Bianca.

A mão dela tremeu. Uma gota de vinho caiu sobre a toalha branca e se espalhou como sangue.

“Lorena precisava de trabalho”, explicou Bianca. “Ela cumpriu a pena.”

“E por que você conhece uma mulher condenada por um crime ocorrido enquanto eu estava fora do país?”

Bianca abriu a boca, mas nenhum som saiu.

Lorena caminhou até a mesa. O gerente da casa tentou interceptá-la, porém ela continuou até ficar de frente para Bianca.

“Quer contar a verdade… ou quer que eu conte?”

A taça escapou da mão de Bianca e se despedaçou no mármore.

Dois seguranças avançaram. Lorena não recuou. Já conhecia portas de ferro, revistas humilhantes e homens convencidos de que um uniforme anulava a dignidade de quem o vestia.

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Dante ergueu dois dedos.

“Ninguém tira essa mulher daqui.”

Os seguranças pararam.

Verônica soltou uma risada nervosa.

“Dante, ela está ameaçando sua irmã.”

“Eu ouvi o que ela disse.”

“Então mande prendê-la.”

Dante virou o rosto devagar.

“Você não dá ordens na minha casa.”

O constrangimento atingiu Verônica como um tapa. Ela se sentou, ainda sorrindo, mas o sorriso perdera a segurança.

Dante apontou para a cadeira vazia na outra ponta da mesa.

“Sente-se, Lorena.”

“Empregadas não se sentam com a família”, protestou a tia.

“Esta noite, ela se senta.”

Lorena permaneceu de pé.

“Passei cinco anos recebendo ordens. Não voltei para obedecer sem fazer perguntas.”

O olhar de Dante se estreitou. Ninguém falava com ele daquela maneira, muito menos diante da família inteira.

“Por que voltou?”

“Para trabalhar.”

“Mentira.”

“Então já temos alguma coisa em comum. Sua família também mentiu para o senhor.”

Bianca levantou-se de repente.

“Lorena, não faça isso.”

“Você teve cinco anos para fazer a coisa certa.”

“Você recebeu o que foi combinado.”

O silêncio que veio depois foi pior do que um grito.

Dante se levantou.

“O que foi combinado?”

Bianca percebeu tarde demais o que dissera.

“Eu quis dizer a indenização. A família ajudou o filho dela.”

Lorena sentiu o estômago se fechar.

Durante a prisão, Álvaro Siqueira lhe garantira que Theo vivia em um apartamento pago pelos Montenegro e estudava em uma escola particular. Lorena descobrira ao sair que o menino morava com a avó em dois cômodos na Vila Brasilândia.

“Meu filho não recebeu nada de vocês.”

Bianca ficou sem cor.

“Isso não é possível.”

“Theo usou o mesmo tênis por dois anos. Minha mãe vendeu a televisão para pagar os remédios dele. Se alguém recebeu dinheiro em nome do meu filho, não fomos nós.”

Dante olhou para Rafael Moura, seu chefe de segurança.

“Descubra para onde foi cada centavo.”

“Ainda hoje”, respondeu Rafael.

Álvaro Siqueira, sentado próximo à cabeceira, limpou a boca com o guardanapo.

“Dante, não transforme uma reunião de família em tribunal por causa da palavra de uma condenada.”

Lorena reconheceu a voz antes mesmo de olhar para ele. A mesma voz que, cinco anos antes, prometera destruir Theo se ela recusasse a assinatura.

“Doutor Álvaro.”

“Senhora Batista.”

“O senhor continua usando o mesmo perfume.”

O advogado sorriu.

“E você continua confundindo gratidão com ressentimento.”

Dante percebeu a rigidez no rosto de Lorena.

“Ele foi seu advogado?”

“Ele escolheu meu advogado.”

Álvaro apoiou as mãos sobre a mesa.

“A família pagou a melhor defesa disponível. Ela confessou espontaneamente.”

“Depois que ameaçaram tirar meu filho.”

Bianca fechou os olhos.

Dante deu a volta na mesa e parou diante da irmã.

“Olhe para mim.”

Bianca não obedeceu.

“Você estava naquele carro?”

“Eu estava em casa.”

“Tem certeza?”

“Claro que tenho.”

Lorena observou a mentira nascer exatamente como cinco anos antes: primeiro a negação, depois as lágrimas, por fim a fragilidade usada como escudo.

“Pergunte onde está o carro”, disse Lorena.

Dante olhou para ela.

“Qual carro?”

“O BMW preto do acidente. A polícia recebeu um veículo com o número do chassi correto, mas aquele não era o carro que atingiu Carolina.”

Álvaro levantou-se.

“Isso é absurdo.”

“O carro verdadeiro voltou para esta mansão.”

“Você não tem prova.”

“Ainda não.”

A palavra ficou entre eles.

Dante compreendeu antes dos outros.

“Foi por isso que conseguiu emprego aqui.”

Lorena sustentou o olhar dele.

“Eu voltei para encontrar o que esconderam.”

Do corredor surgiu o som de passos correndo. Teresa apareceu à porta, ofegante, com um envelope pardo nas mãos.

“Senhor Dante, isto foi deixado no quarto de Lorena.”

Rafael pegou o envelope, examinou-o e o entregou ao patrão.

Dante abriu. Dentro havia uma fotografia recente de Theo saindo da escola.

No verso, uma frase havia sido escrita em tinta vermelha:

VOLTE PARA A PRISÃO OU SEU FILHO PAGA A DÍVIDA.

Lorena tentou pegar a foto, mas Dante fechou a mão sobre ela.

“Onde seu filho está agora?”

“Com a minha mãe.”

“Rafael, mande dois homens.”

“Não”, disse Lorena. “Meu filho não vai ser cercado por homens armados.”

Dante se aproximou até que apenas a mesa quebrada e o cheiro de vinho os separassem.

“Alguém entrou na minha casa, ameaçou uma criança e acredita que pode sair daqui impune.”

Então ele olhou para todos os presentes.

“Os portões serão trancados. Ninguém vai embora até eu descobrir quem sabia que Lorena estava aqui.”

Bianca levou a mão à boca.

E Álvaro, pela primeira vez naquela noite, parou de sorrir.

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