"NINGUÉM CONSEGUIA FAZER O CHEFE DA MÁFIA COMER…" Capítulo 5 — O Segredo Escondido na Receita
Marina encontrou a fotografia numa caixa de sapatos que sua mãe guardava no alto do guarda-roupa.
Não estava procurando segredos. Procurava a certidão de nascimento, necessária para renovar a matrícula no curso técnico de enfermagem. Helena havia saído para comprar remédios e deixara a chave da gaveta sobre a cômoda. Debaixo de contas atrasadas e receitas antigas, Marina viu a caixa amarrada com um barbante azul.
Na primeira fotografia, duas mulheres sorriam diante de um fogão de quatro bocas. Uma era Helena, muito jovem, com os cabelos presos num lenço. A outra tinha os mesmos olhos escuros de Dante Montenegro.
Marina virou a foto. A letra, inclinada e delicada, dizia: "Se alguma coisa acontecer comigo, proteja meu filho. Rosa."
A porta da sala se abriu.
"O que você está fazendo?", Helena perguntou.
Marina ergueu a fotografia. A sacola de farmácia escorregou dos dedos da mãe.
"Essa mulher é a mãe de Dante, não é?"
Helena não respondeu. Abaixou-se para recolher as caixas de comprimidos, mas as mãos tremiam tanto que deixou duas caírem novamente.
"Mãe. Você disse que nunca teve ligação com os Montenegro."
"Eu disse que não queria que você chegasse perto deles."
"Não é a mesma coisa."
Helena sentou-se na beirada do sofá. Parecia ter envelhecido durante a ausência de Marina.
"Dona Rosa me deu trabalho quando ninguém me aceitava. Eu lavava roupa, ajudava na cozinha. Ela me ensinou a fazer carne de panela. Era uma mulher boa."
"E por que escreveu isso atrás da foto?"
"Porque tinha medo."
"De quem?"
Helena apertou a fotografia contra o peito.
"Não me peça essa resposta hoje."
Marina quis insistir, mas percebeu a falta de ar da mãe. Buscou água e esperou até que a respiração dela se acalmasse. Havia uma diferença entre descobrir a verdade e arrancá-la de alguém aterrorizado.
Antes de voltar ao trabalho, Marina encontrou Beto na calçada do restaurante. O letreiro do Cantinho da Dona Bete continuava falhando, mas as mesas estavam ocupadas. Ele lhe ofereceu um café e perguntou se a mansão a tratava bem.
"O salário chegou certinho", ela respondeu.
"Não perguntei do salário."
Marina sorriu sem alegria. Contou sobre a discussão com Valentina e a cadeira ao lado de Dante. Beto ouviu com os braços cruzados.
"Tem gente rica que acha que respeito é favor", ele disse. "Não deixe ninguém comprar a sua coragem."
"Eu sei. Só não esperava que ele me defendesse."
"Uma atitude boa não apaga as ruins. Observe o que ele faz quando você discorda dele."
Marina guardou aquelas palavras. Na volta, passou pela farmácia e pagou os medicamentos de Helena com parte do adiantamento recebido. Ficou com pouco dinheiro na carteira, mas pela primeira vez não precisou escolher entre os remédios e a passagem de ônibus.
Na entrada da mansão, Teresa percebeu seu cansaço e ofereceu alguns minutos de descanso. Marina recusou por hábito, depois mudou de ideia. Sentou-se no banco do jardim, respirando o cheiro da terra molhada. Não queria que a vida inteira se transformasse em trabalho e medo.
Na mansão, naquela tarde, Dante recusou o almoço preparado pelo chef. Não porque suspeitasse da cozinheira, mas porque o cheiro de manteiga aquecida lhe trouxera uma lembrança da noite em que Paulo morreu. O estômago se contraiu antes mesmo que ele tocasse no garfo.
O doutor Henrique Sampaio examinou sua pressão e consultou uma pasta de resultados.
"Sua perda de peso é preocupante. E existem alterações que não explicamos apenas pela falta de comida."
Dante fechou a camisa.
"Está dizendo que fui envenenado?"
"Estou dizendo que precisamos revisar tudo o que você tomou nas últimas semanas. Remédios, suplementos, qualquer comprimido oferecido fora da prescrição. Sem conclusões antes dos exames."
Bruno, perto da janela, fez uma anotação.
"Vou separar as embalagens."
"E ninguém mexe nelas", Henrique acrescentou. "Quero uma cadeia de custódia documentada."
Dante detestou ouvir a expressão. Parecia linguagem de polícia dentro da própria casa. Ainda assim, concordou. Já não conseguia ignorar que o medo não explicava cada tontura.
Quando Marina chegou para o turno da noite, encontrou Dante sozinho na antiga copa, diante de um álbum de fotografias. Ele o fechou ao vê-la.
"Você está atrasada três minutos."
"O ônibus quebrou na Radial Leste. Posso descontar do salário."
"Não falei em descontar."
Ela colocou a bolsa no armário e lavou as mãos. A frieza dele tinha voltado, mas agora Marina reconhecia o cansaço por trás da voz.
"Quer sopa ou arroz com feijão?"
"Você sempre pergunta como se fosse simples."
"Comer devia ser simples."
Dante fitou o relógio, irritado consigo mesmo. Marina não se desculpou. Começou a separar os ingredientes, deixando as embalagens lacradas à vista, como haviam combinado.
Enquanto a panela aquecia, ele perguntou:
"Sua mãe trabalhou para minha família?"
A faca parou sobre a tábua.
"Trabalhou para dona Rosa."
"Então você sabia."
"Descobri hoje. Ela escondeu uma fotografia por anos."
Dante se aproximou da bancada.
"Que fotografia?"
Marina descreveu as duas mulheres, o fogão antigo e a frase escrita atrás. Ao ouvir as palavras da mãe, Dante precisou apoiar a palma da mão no granito.
"Ela escreveu isso?"
"Escreveu. Mas minha mãe não consegue falar sobre o assunto sem passar mal."
Dante ficou em silêncio. Lembrava-se de Rosa fazendo café num bule amassado, cantando baixo enquanto ele fingia dormir. Não se lembrava de uma mulher com medo. Talvez tivesse sido jovem demais para enxergar.
"Quero ver essa fotografia."
"Vou perguntar se minha mãe permite."
Ele ergueu os olhos.
"Não foi um pedido."
Marina desligou o fogo.
"Então não vai conseguir. A fotografia é dela."
Por um instante, o homem que comandava centenas de pessoas pareceu prestes a explodir. Mas recuou.
"Está bem. Pergunte."
Ela retomou a receita. A resposta dele não apagava a ameaça, porém era a primeira vez que Marina o via conter uma ordem por respeito a outra pessoa.
No jantar, Dante conseguiu comer metade do prato. Henrique, informado por telefone, recomendou refeições pequenas e acompanhamento médico, não uma vitória milagrosa. Marina ficou aliviada, sem comemorar antes da hora.
Mais tarde, Bruno trouxe uma lista dos medicamentos encontrados na suíte. Entre eles havia um frasco sem etiqueta da farmácia, guardado numa gaveta que Ricardo costumava usar para deixar documentos.
"Quem trouxe isso?", Dante perguntou.
"Ainda estou verificando."
"Verifique sem avisar meu primo."
Bruno assentiu. Dante olhou novamente para o prato vazio e pensou na mensagem de Rosa. Se ela pedira proteção para o filho, talvez tivesse previsto um perigo dentro da própria casa.
Antes de sair, Marina lavou a última panela e anotou no caderno de receitas quanto Dante havia comido. Não era um relatório para vigiar o patrão; era uma maneira de perceber avanços e recaídas sem se deixar enganar por uma única refeição. Teresa ofereceu-se para assumir o registro nos dias de folga. Marina aceitou, grata por não carregar sozinha uma responsabilidade que jamais deveria ser apenas sua.
Naquela noite, Marina voltou ao apartamento e encontrou Helena diante da caixa aberta. A mãe segurava um envelope amarelado.
"Eu menti para você", Helena disse, sem levantar os olhos. "Não foi só uma fotografia que Rosa me entregou."
Marina sentou-se devagar.
"O que mais?"
Helena virou o envelope. No lacre havia um símbolo antigo da família Montenegro.
"Uma coisa que pode destruir o homem que mandou matar sua mãe."
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