"NINGUÉM CONSEGUIA FAZER O CHEFE DA MÁFIA COMER…" Capítulo 3 — Ninguém Sai Deste Restaurante
O clique da fechadura fez Marina largar a bandeja.
"Eu não vou ficar presa aqui", ela disse.
Bruno permaneceu ao lado da porta. Beto se apoiou no balcão, branco como o avental. Dante continuava sentado, com a tigela pela metade diante de si.
"Ninguém vai machucar você", ele respondeu.
"Então abra a porta."
Dante ergueu uma sobrancelha. Estava acostumado a homens que pediam licença até para respirar. A garçonete, ao contrário, parecia disposta a discutir mesmo cercada de seguranças.
"Preciso fazer algumas perguntas."
"Pode fazer sem trancar ninguém."
Bruno olhou para Dante, aguardando uma ordem. Depois de um longo segundo, o chefe assentiu. A porta foi destrancada. Dois seguranças continuaram do lado de fora, sob a chuva.
"Melhor?", Dante perguntou.
"Um pouco."
Beto tentou se aproximar, mas Marina fez um gesto discreto. Não queria que o patrão se envolvesse mais do que já estava.
"Quem é sua mãe?", Dante perguntou.
"Helena Oliveira."
A expressão dele mudou.
"Quantos anos ela tem?"
"Cinquenta e três. Por quê?"
"Ela trabalhou para alguma família na Mooca?"
"Minha mãe trabalhou em muitos lugares. Cozinhava, limpava, cuidava de criança."
"Ela conhece o sobrenome Montenegro?"
Marina cruzou os braços.
"O senhor precisa perguntar isso a ela."
"Onde ela mora?"
"Essa informação eu não vou dar."
Bruno abriu a boca, mas Dante o interrompeu com a mão. Havia algo desconcertante naquela recusa. A moça não estava tentando conseguir dinheiro, proteção ou favor. Queria apenas ir embora.
"Você não sabe o que significa aquele prato", ele disse.
"Sei o que significa para mim. Minha mãe fazia quando faltava dinheiro e precisava render comida para dois dias."
Dante olhou a carne, cortada em pedaços pequenos. A mesma economia que Rosa praticava. A mesma tentativa de transformar escassez em conforto.
"Minha mãe morreu quando eu era jovem."
Marina perdeu um pouco da rigidez.
"Sinto muito."
"Não preciso de pena."
"Então não deveria ter me contado desse jeito."
Ele quase sorriu. Quase.
Bruno recebeu uma mensagem e se aproximou. O médico recomendava avaliação presencial e reintrodução cuidadosa da alimentação. Dante leu a tela e devolveu o telefone.
"Providencie o carro."
Marina suspirou, aliviada. Dante tirou uma carteira do paletó e colocou várias notas sobre a mesa.
"Pela comida."
Beto arregalou os olhos. O valor cobria semanas de faturamento.
"Isso é demais", Marina disse.
"Não estou pedindo sua opinião."
"Mas eu estou dando. Uma refeição tem preço. A minha consciência não."
Dante retirou a maior parte das notas e deixou uma quantia generosa, mas proporcional à refeição e ao transtorno. Pela primeira vez em muito tempo, alguém o obrigara a perceber a diferença entre pagar e comprar.
"Até logo, senhorita Oliveira."
"Prefiro que não."
Ele saiu sem responder.
Quando as SUVs desapareceram, Beto se sentou numa cadeira e cobriu o rosto.
"Eu achei que ia morrer."
"Eu também fiquei com medo", Marina admitiu.
"Você discutiu com ele!"
"Fiquei com medo discutindo."
Os dois começaram a limpar o salão. Marina encontrou a tigela de Dante quase vazia e ficou parada por alguns segundos. Havia visto gente passar fome na vizinhança. Nunca imaginara que um homem cercado de luxo pudesse sentir tanto pavor diante de um prato.
Na manhã seguinte, a vida parecia ter voltado ao normal. O ônibus atrasou, a mensalidade do curso continuava pendente e Helena reclamou do preço do gás. Marina não mencionou Dante no café da manhã. Sabia que a mãe já tinha preocupações suficientes.
Enquanto isso, no escritório da mansão, Bruno colocava uma pasta diante de Dante.
"Marina Oliveira. Vinte e cinco anos. Mora no Brás com a mãe. Estuda enfermagem à noite. Sem antecedentes. Trabalha no Cantinho da Dona Bete há três anos."
"E Helena?"
"Trabalhou como doméstica e cozinheira. Há registros antigos incompletos."
Dante folheou as páginas.
"Continue procurando. Sem assustá-las."
"O senhor acha que a moça está envolvida?"
"Acho que alguém sabe mais sobre minha mãe do que eu."
Bruno hesitou antes de sair. Havia conhecido Rosa apenas por histórias e uma fotografia antiga no escritório. Sabia, porém, que Dante não tolerava conversas sobre a mãe. Uma vez, um funcionário fora dispensado por mover o retrato dela sem autorização. Agora, de repente, uma desconhecida havia atravessado essa muralha com uma tigela de comida. Bruno não sabia se deveria agradecer à moça ou afastá-la do perigo. Decidiu que faria as duas coisas possíveis: investigar com discrição e impedir que os homens de Ricardo chegassem perto dela.
Dante abriu uma gaveta e retirou uma fotografia pequena. Rosa sorria com os cabelos presos, usando um avental florido. Atrás dela havia uma panela no fogão. Ele passou o polegar pela imagem e tentou lembrar o nome de uma jovem que aparecia em algumas conversas da mãe. Helena. A lembrança estava ali, incompleta, como uma porta emperrada.
Ainda assim, Dante não contou a Bruno que, pela primeira vez em anos, desejava voltar àquele bairro por uma razão que não tinha relação com negócios.
O telefone tocou. Era Ricardo Montenegro.
"Primo, ouvi dizer que você andou jantando num boteco da Mooca. Está melhor?"
Dante manteve a voz neutra.
"De onde ouviu isso?"
"São Paulo é pequena quando o assunto é você. Precisamos conversar sobre Santos."
"Marque com meu escritório."
"Não fuja de mim, Dante. O conselho está preocupado."
"Preocupação é uma palavra bonita para ambição."
Ricardo riu, mas desligou depressa.
Naquela tarde, Dante foi pessoalmente ao restaurante. Marina o encontrou junto ao balcão, desta vez sem homens espalhados pelo salão.
"Voltou para reclamar da carne?"
"Voltei para oferecer um trabalho."
"Já tenho um."
"Preciso de alguém que prepare refeições simples na minha casa. Um contrato regular, horário definido, salário justo."
"O senhor tem cozinheiros."
"Tenho cozinheiros em quem não consigo confiar."
Marina olhou para ele. A franqueza não tornava a proposta menos absurda.
"Não quero morar numa mansão cheia de homens armados."
"Não precisa morar lá."
"E não quero que me vigiem."
"Isso pode ser combinado."
"Nem quero ser tratada como propriedade."
Dante respirou fundo.
"Também pode ser combinado."
Marina quase riu da expressão dele. Mas lembrou a mensalidade atrasada, o cansaço da mãe, as contas sobre a geladeira. Ainda assim, recusou.
"Eu não estou à venda, senhor Montenegro."
"Não ofereci comprar você. Ofereci emprego. Pense antes de responder definitivamente."
Ele deixou um cartão sobre o balcão e saiu.
À noite, Marina chegou ao apartamento com os pés doloridos. Helena estava dobrando roupas diante da televisão. A filha sentou-se ao seu lado.
"Mãe, lembra daquela carne de panela com canela?"
"Claro. Por quê?"
"Fiz para um cliente. Ele disse que a mãe dele preparava igualzinha."
Helena continuou dobrando a mesma camiseta, agora muito devagar.
"Qual cliente?"
"Um homem chamado Dante Montenegro."
O copo que Helena segurava bateu na borda da mesa e caiu. Vidro e água se espalharam pelo piso.
Marina se levantou num salto.
"Mãe! Você se cortou?"
Helena não olhava para os cacos. Seus olhos estavam fixos no rosto da filha.
"Você falou com Dante Montenegro?"
"Falei. Ele até me ofereceu um emprego."
Helena agarrou as mãos dela.
"Escute bem, Marina. Você nunca mais vai chegar perto desse homem. Nunca."
"Mas por quê?"
A mãe abriu a boca, incapaz de responder. Por um instante, pareceu ouvir uma voz que não escutava havia mais de vinte anos.
"Porque algumas pessoas daquela família ainda fariam qualquer coisa para enterrar o passado."
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