"NINGUÉM CONSEGUIA FAZER O CHEFE DA MÁFIA COMER…" Capítulo 2 — A Garçonete Que Desafiou a Máfia
Marina colocou a tigela sobre a mesa e cinco homens levaram as mãos aos paletós.
"Afastem-se", Bruno ordenou, mas ela já havia soltado o prato.
O vapor subia de uma carne de panela simples, cercada de batatas e cenouras. Não havia enfeites nem porcelana importada. A tigela tinha uma lasca discreta na borda. Dante encarou o molho escuro como se alguém tivesse colocado diante dele uma fotografia impossível.
"Quem fez isso?"
"Eu", Marina respondeu.
"Você trabalha na cozinha?"
"Hoje, pelo visto, sim. Normalmente sirvo as mesas."
Beto, atrás dela, fez um gesto desesperado para que ficasse calada. Marina não recuou. Dante ergueu o rosto, surpreso com a resposta direta.
"Qual é o seu nome?"
"Marina Oliveira."
"Você sabe quem eu sou?"
"O senhor Beto me contou."
"E mesmo assim resolveu brincar com a minha comida?"
"Não brinquei. Fiz o que o senhor pediu: ingredientes novos, embalagens abertas aqui e uma panela limpa."
Bruno se aproximou.
"Eu acompanhei o preparo. Não houve contato com ninguém de fora."
Dante não o escutava. O cheiro de alho dourado, louro e uma nota quase imperceptível de canela abria uma passagem que ele havia trancado dentro da memória.
Quando era menino, a mãe chegava exausta do trabalho e ainda encontrava forças para cozinhar. Rosa Ferreira não possuía joias nem vestidos caros. Possuía uma panela amassada e a capacidade de transformar carne barata em jantar de domingo.
"Canela é para a alma, meu filho", ela dizia, deixando-o mexer o caldo.
Dante sentiu a garganta apertar.
"O senhor quer que eu tire?", Marina perguntou.
Ele estendeu a mão para a colher. Os dedos tremiam. Parou antes de tocar no metal.
Paulo voltou à sua cabeça: a tosse, a cadeira caindo, os olhos arregalados. Dante empurrou a colher para longe.
"Coma."
Marina demorou um instante a compreender.
"Como?"
"Se tem tanta certeza de que está seguro, prove."
Beto deu um gemido abafado. Bruno fez menção de intervir, mas Marina puxou uma colher limpa de um embrulho de talheres e provou o molho. Mastigou um pedaço pequeno de carne. Engoliu.
"Está um pouco quente", avisou. "E o senhor pode precisar de uma faca. Não deu tempo de cozinhar como eu queria."
Dante olhou para ela. Não havia desafio no rosto da moça, apenas cansaço e uma sinceridade quase irritante. Ela não prometera um milagre. Admitira que a carne podia estar dura.
"Você acha que isso basta?", ele perguntou.
"Não. Mas ficar olhando também não vai ajudar."
Um dos seguranças soltou o ar pelo nariz. Bruno lançou-lhe um olhar severo. Dante pegou a colher.
O primeiro movimento foi quase imperceptível. Um pouco de caldo, sem carne. Ele aproximou o metal dos lábios, hesitou, sentiu o cheiro outra vez e finalmente provou.
Não aconteceu nada.
Nenhuma queimação. Nenhum gosto metálico. Apenas sal, alho, cebola e uma doçura discreta que não pertencia àquela noite.
Dante fechou os olhos.
Viu a mãe sentada diante dele, soprando uma colher para esfriá-la. Viu a janela do apartamento embaçada pela chuva. Ouviu a própria voz infantil pedindo mais batatas.
Quando abriu os olhos, a tigela continuava ali. Marina também.
Ele tomou outra colherada. Depois uma terceira. Tentou um pedaço de carne, mastigando devagar. O estômago, acostumado ao vazio, protestou; ele pousou a colher por alguns segundos e respirou.
"Devagar", Marina disse. "Depois de tantos dias sem comer, o senhor não precisa terminar tudo agora."
Dante a fitou.
"Quem disse que estou há dias sem comer?"
Ela apontou discretamente para a mão dele.
"O senhor está fraco. E olha para a comida como se ela fosse atacar primeiro."
Bruno desviou o rosto. Dante deveria ter se ofendido. Em vez disso, sentiu algo próximo de alívio. A moça não fingia que sua condição era invisível.
"Chame o doutor Henrique", ele murmurou para Bruno. "Diga que consegui comer um pouco."
O segurança pareceu não acreditar. Saiu para telefonar imediatamente.
Marina deu um passo para recolher o prato de pão, mas Dante segurou seu pulso. Não apertou. O gesto foi rápido, instintivo.
"Espere."
Ela olhou para a mão dele até que a soltasse.
"Não gosto que me segurem."
"Desculpe", ele disse, e o pedido surpreendeu os dois.
"Quem ensinou essa receita?"
"Minha mãe."
"E quem ensinou à sua mãe?"
Marina encolheu os ombros.
"Uma senhora com quem ela trabalhou. Faz muito tempo."
"Qual senhora?"
"Não sei o nome."
Dante empurrou a tigela alguns centímetros. A fome continuava, mas uma suspeita antiga acabava de despertar.
"A minha mãe fazia essa carne exatamente assim."
Marina baixou os olhos para o prato.
"Muita gente faz carne de panela."
"Não com canela."
"Minha mãe diz que é o segredo."
"A minha também dizia."
O silêncio caiu sobre a mesa. Beto deixou cair o pano de prato. Marina sentiu o coração acelerar, embora ainda não entendesse o motivo.
Dante examinou seu rosto como se procurasse uma semelhança escondida.
"Você conheceu Rosa Ferreira?"
"Não, senhor."
"Pense antes de responder."
"Eu pensei. Nunca ouvi esse nome."
A voz dela ficou firme. "Eu trouxe comida porque o senhor parecia precisar. Não porque queria entrar na sua vida."
Dante voltou a olhar a tigela. A mulher diante dele poderia estar dizendo a verdade. Ou poderia ter sido enviada por alguém que conhecia seu único ponto fraco.
Ele se odiou por considerar a segunda hipótese. Ainda assim, não conseguiu descartá-la.
Marina notou que o homem não tinha pressa de voltar a mandar em todos. Durante alguns segundos, ele pareceu apenas um menino tentando reconhecer uma lembrança. Aquilo a perturbou mais do que as armas. Quando seu pai abandonara a família, Helena também passara semanas quase sem comer. Marina lembrava da própria impotência diante de alguém que sofria e recusava ajuda. Talvez por isso tivesse entrado na cozinha, mesmo sabendo que poderia perder o emprego. Mas não confundia compaixão com confiança. Dante era um desconhecido poderoso, capaz de decidir o destino de Beto com uma palavra. Ela precisava manter distância.
Do outro lado da mesa, Dante percebeu o cuidado com que ela afastava o corpo sempre que ele se movia. A vergonha veio inesperada. Tinha passado anos confundindo obediência com respeito. Aquela mulher lhe oferecera uma refeição sem se curvar, e ele quase respondera com uma ameaça. Quis pedir desculpas outra vez, mas as palavras ficaram presas.
Ela percebeu que, apesar do medo, queria saber se ele conseguiria jantar novamente no dia seguinte. Talvez fosse apenas curiosidade profissional. Talvez fosse a lembrança da mãe cuidando de pessoas que ninguém mais queria ajudar.
Bruno retornou com o telefone na mão.
"O médico quer saber quanto o senhor comeu."
"O suficiente para lembrar de uma coisa que eu tinha esquecido."
Dante se levantou lentamente. Desta vez, conseguiu firmar as pernas sem agarrar a mesa. Não era cura; era apenas uma pequena vitória, e seu corpo continuava perigosamente debilitado.
Marina recolheu a colher usada e preparou-se para voltar à cozinha.
"Senhorita Oliveira", ele chamou.
"Sim?"
"Você disse que nunca conheceu a minha mãe."
"Porque é verdade."
"Então me explique por que sabe preparar o único prato que ela fazia quando queria me convencer de que tudo ficaria bem."
Marina não tinha explicação. O olhar de Dante se endureceu, e ela percebeu que uma simples refeição a colocara dentro de uma história muito maior.
Ele se voltou para Bruno.
"Feche a porta da frente. Precisamos conversar."
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