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"NINGUÉM CONSEGUIA FAZER O CHEFE DA MÁFIA COMER…" Capítulo 1 — O Homem Que Tinha Medo de Comer

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O prato de filé-mignon voou contra a parede antes que o cozinheiro pudesse terminar a frase.

A porcelana se partiu sobre o mármore. O molho escorreu pelo retrato de uma paisagem italiana, e ninguém na sala de jantar da mansão Montenegro ousou se mexer.

"Eu mandei tirar isso daqui!"

Dante Montenegro tentou se levantar. As pernas falharam, e ele precisou apoiar as duas mãos na mesa para não cair. Aos trinta e oito anos, o homem que aterrorizava São Paulo mal conseguia ficar de pé.

Bruno Almeida, seu chefe de segurança, avançou um passo.

"Dante, o senhor precisa comer. O doutor Henrique foi muito claro."

"Então chame o doutor para jantar no meu lugar."

O cozinheiro, ainda de avental branco, tremia perto da porta. Havia preparado a carne diante de duas câmeras. Abrira as embalagens lacradas. Provara o sal, o molho e cada acompanhamento. Nada disso importava.

Dante só enxergava Paulo Nogueira caindo sobre o próprio prato.

Duas semanas antes, durante um jantar reservado, Paulo levara uma colherada de risoto à boca, tossira e desabara no chão. Os médicos falaram em intoxicação criminosa. O cozinheiro daquela noite também experimentara a comida e passara mal horas depois. Paulo não sobrevivera.

Desde então, Dante não conseguia confiar sequer num copo de água.

Sete dias sem uma refeição de verdade. Alguns goles de líquido, caldo ralo, tentativas interrompidas por náuseas. O corpo reclamava. A cabeça respondia com imagens de veneno.

"O conselho está fazendo perguntas", Bruno admitiu, baixando a voz. "Seu primo Ricardo quer convocar uma reunião extraordinária."

Dante ergueu os olhos.

"Ricardo quer a minha cadeira desde que aprendeu a falar."

"Ele está dizendo que a empresa não pode ficar sem decisões."

"As empresas continuam funcionando."

"Nem todas as decisões são sobre empresas."

O silêncio seguinte disse mais do que Bruno pretendia. Havia negócios no porto de Santos, homens armados, contas que não podiam aparecer em balanços. Dante construíra um império que exigia demonstrações constantes de força. Agora, bastava que alguém o visse segurando a borda da mesa para espalhar o boato de que o chefe estava acabado.

Ele olhou para a comida espalhada no chão e sentiu vergonha. Não da violência. Da fome.

"Prepare os carros."

"Para o hospital?"

"Para fora daqui."

"Está chovendo muito."

"Eu sei como é a chuva, Bruno."

Vinte minutos depois, três SUVs pretas cruzavam a cidade. Do lado de fora, a água transformava os faróis em manchas luminosas. Dante observava os prédios altos desaparecerem e as fachadas antigas surgirem. Não sabia o que procurava. Só sabia que cada corredor da própria casa cheirava a suspeita.

Quando chegaram à Mooca, ele reconheceu uma rua estreita e pediu ao motorista que parasse.

Do outro lado havia um restaurante pequeno, com toldo desbotado e letras vermelhas na vitrine: Cantinho da Dona Bete. Duas mesas ocupadas, uma televisão velha, cheiro de alho vindo da cozinha.

"Aqui?", Bruno perguntou.

"Aqui."

"Não verificamos o local."

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"Justamente."

Bruno enviou quatro seguranças primeiro. Os clientes foram convidados a sair; o dono protestou, mas recuou ao perceber quem entrava. Dante atravessou a chuva sem guarda-chuva. A água fria no rosto pareceu despertá-lo.

Roberto Ferreira, conhecido como seu Beto, apareceu atrás do balcão, apertando um pano de prato.

"Boa noite, senhor. A cozinha já está quase fechando, mas..."

"Quero comida", Dante interrompeu.

Beto olhou para Bruno, depois para os homens perto da porta.

"Temos bife acebolado, parmegiana, carne de panela..."

"Nada preparado antes. Abra os ingredientes na minha frente. Se alguém tentar me envenenar, ninguém sai daqui."

Beto perdeu a cor. Bruno fechou a porta, mas deixou a saída de emergência livre sob vigilância. Dante sentou-se numa cabine junto à janela, sentindo o estômago se contrair ao ouvir a palavra comida.

Na cozinha, Marina Oliveira lavava uma panela que parecia ter sido esquecida no fogo por uma semana. O turno deveria ter terminado meia hora antes. Ainda precisava pegar dois ônibus até o Brás e revisar anotações do curso de enfermagem.

Aos vinte e cinco anos, ela aprendera a reconhecer problemas pelo barulho. O estrondo da porta, os passos pesados, o silêncio repentino do salão: alguma coisa estava errada.

"Seu Beto?"

O dono surgiu carregando um pacote de carne, incapaz de rasgar o plástico.

"É o Dante Montenegro", sussurrou. "O homem do porto. Ele quer tudo lacrado. Se a comida estiver ruim, estamos perdidos."

Marina espiou pelo visor redondo da porta. Esperava encontrar um monstro. Viu um homem muito pálido, vestido num terno que custaria anos do seu salário. Ele mantinha os ombros rígidos, mas as mãos tremiam. Um segurança lhe ofereceu água; ele recusou sem sequer olhar a garrafa.

"Ele está doente", ela disse.

"Ele está perigoso."

"Uma coisa não impede a outra."

Beto tentou abrir o pacote novamente e deixou a faca cair. Marina a recolheu.

"Deixa comigo."

"Você é garçonete."

"E aprendi a cozinhar antes de aprender a servir mesa."

"Se ele não gostar..."

"Se o senhor continuar tremendo desse jeito, não vai sair nem um ovo."

Marina examinou as prateleiras. Pegou um corte de acém embalado, batatas inteiras, cenouras, alho, cebola, caldo fechado e temperos. Conferiu os lacres. Lavou as mãos. Enquanto aquecia uma panela de ferro, lembrou-se da mãe numa cozinha pequena do Brás, ensinando-a a dourar a carne antes de acrescentar água.

"Não economize paciência", Helena dizia. "Comida boa começa antes da primeira colher."

Marina selou os pedaços de carne. O chiado abafou a chuva. Picou a cebola, amassou o alho e acrescentou os legumes. Sabia que trinta e cinco minutos não seriam suficientes para amaciar completamente um corte grande; por isso separou pedaços menores e usou a panela de pressão, sob o olhar desconfiado de Beto.

Quando o caldo começou a ganhar cor, ela abriu o armário dos temperos. Pegou louro, pimenta-do-reino e um vidro quase vazio de canela.

Beto franziu a testa.

"Canela na carne?"

"Só uma pitada."

"Isso é receita de onde?"

Marina sorriu, sem imaginar o perigo daquela lembrança.

"Da minha mãe. Ela diz que aprendeu com uma mulher que salvou a vida dela."

Marina também se lembrou de uma noite em que Helena voltara para casa chorando, depois de perder um emprego. Não havia dinheiro para frango, muito menos para carne de primeira. Mesmo assim, a mãe comprara um pedaço de acém e preparara aquela receita. As duas comeram sentadas no chão, porque a mesa estava com uma perna quebrada. Marina perguntara por que a mãe colocava canela em comida salgada. Helena respondera que certas receitas não existiam para impressionar visitas, mas para lembrar às pessoas que ainda tinham um lar. Agora, enquanto mexia o caldo, Marina se perguntou se aquela mulher desconhecida que ensinara a receita também tivera uma vida difícil. Não imaginava que a resposta estava a poucos metros, usando um terno preto.

No salão, Dante fechou os olhos. Pela primeira vez naquela noite, o cheiro que atravessava a porta da cozinha não lhe trouxe a imagem de Paulo morto.

Trouxe uma rua antiga, uma mesa de madeira e uma voz de mulher chamando-o de filho.

Ele abriu os olhos de repente.

"Bruno."

"Senhor?"

"Quem está cozinhando?"

Antes que o segurança respondesse, o aroma de canela se espalhou pelo restaurante.

E Dante Montenegro sentiu o passado entrar pela porta antes da comida.

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