"A Promessa do Mafioso" Capítulo 4 — A Mulher Que Entrou na Mansão Montenegro
“Você e sua mãe vão sair desse apartamento hoje.”
A voz de Dante Montenegro soou firme pelo telefone.
Marina Oliveira estava sentada à mesa da cozinha, com o envelope ameaçador diante dela.
“Não vou abandonar minha casa porque alguém deixou um bilhete.”
“Marina, essa pessoa sabe onde você mora.”
“E daí?”
“E daí que pode voltar.”
Ela apertou o celular.
“Eu não vou passar o resto da vida fugindo.”
Dante ficou em silêncio por um instante.
“Não estou pedindo que você fuja.”
“Então o que está pedindo?”
“Que fique viva.”
Marina fechou os olhos.
Aquelas duas palavras a fizeram lembrar do hospital.
Do sangue.
Da expressão aterrorizada de Lucas.
“Eu não quero mais problemas com sua família, senhor Montenegro.”
“Eu também não queria que você tivesse sido arrastada para isso.”
A sinceridade da resposta a desarmou.
Dante continuou:
“Mas alguém tentou atingir meu filho. Você impediu. E agora essa pessoa está ameaçando você.”
“Já avisamos a polícia.”
“Sim. E vamos colaborar com a investigação. Mas, enquanto não soubermos quem está por trás disso, preciso garantir sua segurança.”
Marina olhou para Patrícia.
A mãe estava sentada no sofá, segurando uma xícara de chá com as duas mãos.
Desde que o envelope chegara, não conseguira parar de tremer.
“E minha mãe?”
“Ela também estará protegida.”
“Você quer levar nós duas para sua casa?”
“Temos quartos disponíveis.”
Marina soltou uma risada nervosa.
“Imagino que tenha.”
Dante ignorou a ironia.
“Bruno vai buscar vocês.”
“Eu ainda não concordei.”
“Então pense no que aconteceu hoje.”
Marina olhou novamente para o envelope.
A fotografia da porta de seu apartamento parecia encará-la.
“Eu vou pensar.”
“Não demore.”
A ligação terminou.
Patrícia observou a filha por alguns segundos.
“Era ele?”
Marina assentiu.
“Quer que a gente fique na mansão.”
Patrícia arregalou os olhos.
“Na casa do Dante Montenegro?”
“Exatamente.”
“Minha filha, aquele homem aparece nos jornais toda semana.”
“Eu sei.”
“E nem sempre nas páginas de negócios.”
Marina suspirou.
“Também sei.”
Patrícia olhou para a porta.
“Mas quem mandou aquela mensagem pode estar nos observando.”
Marina não respondeu.
Sua mãe havia passado a vida inteira tentando protegê-la.
Trabalhara como costureira, faxineira e cozinheira depois da morte do marido.
Nunca pedira ajuda a ninguém.
Agora, estava com medo dentro da própria casa.
Marina segurou sua mão.
“É temporário, mãe.”
Patrícia respirou fundo.
“Se você acha que é mais seguro…”
“Eu não sei o que é mais seguro.”
Marina olhou para o celular.
“Mas sei que não quero esperar alguém fazer alguma coisa com você.”
Duas horas depois, um carro preto entrou pelos portões da Mansão Montenegro, no Morumbi.
Marina observou a propriedade pela janela.
Um jardim imenso cercava a casa principal.
Havia fontes, árvores cuidadosamente podadas e uma entrada de mármore que parecia pertencer a um hotel de luxo.
Patrícia apertou a bolsa contra o peito.
“Minha Nossa Senhora…”
Marina quase riu.
“Não fala nada, mãe.”
“Eu nunca vi uma casa desse tamanho.”
“Nem eu.”
O motorista parou diante da escadaria.
Bruno abriu a porta.
“Sejam bem-vindas.”
Marina desceu com cuidado, protegendo a lateral do corpo.
Ainda sentia dor quando fazia movimentos bruscos.
Uma mulher de cabelos grisalhos presos num coque apareceu na entrada.
Usava um vestido azul-escuro discreto.
“Sou Teresa Nogueira, a governanta.”
Ela sorriu.
“O senhor Dante pediu que eu preparasse os quartos.”
Patrícia segurou a mão da filha.
“Obrigada, minha senhora.”
Teresa respondeu com gentileza:
“Pode me chamar de Teresa.”
Marina gostou dela imediatamente.
A governanta parecia uma das poucas pessoas naquele lugar que não tentava impressionar ninguém.
“Lucas está em casa?”, Marina perguntou.
Teresa sorriu.
“Desde cedo pergunta a cada cinco minutos se você já chegou.”
Como se tivesse ouvido seu nome, uma voz infantil ecoou do alto da escada.
“MARINA!”
Lucas apareceu correndo.
Vestia camiseta branca, bermuda azul e meias de dinossauro.
Desceu os degraus tão depressa que Teresa levou a mão ao peito.
“Lucas! Devagar!”
O menino parou diante de Marina.
Por um instante, pareceu não saber o que fazer.
Então perguntou:
“Já posso te abraçar?”
Marina se agachou com cuidado.
“Pode. Mas bem devagar.”
Lucas envolveu sua cintura delicadamente.
“Eu sabia que você vinha!”
Ela acariciou seus cabelos.
“Vim passar uns dias.”
“Quantos?”
“Ainda não sei.”
“Cem?”
Marina riu.
“Não tantos.”
“Cinquenta?”
“Lucas…”
“Dez?”
Ela olhou para Teresa, divertida.
“Acho que vamos ter que negociar.”
O menino abriu um sorriso enorme.
No segundo andar, Helena Montenegro observava a cena.
Usava um vestido de seda verde-escuro e um colar de pérolas.
Ao seu lado estava Valentina Albuquerque.
“Então essa é a famosa garçonete?”, Valentina perguntou.
Helena apertou os lábios.
“Infelizmente.”
“Dante realmente trouxe a mulher para dentro de casa?”
“Disse que é por segurança.”
Valentina olhou para Lucas abraçado a Marina.
“Parece que seu neto já se apegou bastante.”
“É justamente isso que me preocupa.”
Helena começou a descer.
Valentina a acompanhou.
Quando chegaram ao hall, Lucas correu até a avó.
“Vovó! A Marina veio!”
“Estou vendo, querido.”
Helena olhou para a jovem.
“Senhorita Oliveira.”
Marina endireitou a postura.
“Boa tarde, dona Helena.”
“Espero que esteja se recuperando.”
“Estou, obrigada.”
Helena lançou um olhar rápido para a mala simples ao lado da escada.
“Meu filho explicou que sua permanência será temporária.”
“Sim, senhora.”
“Ótimo.”
Valentina deu um passo à frente.
“Eu sou Valentina Albuquerque.”
Marina cumprimentou-a.
“Prazer.”
Valentina sorriu.
Mas seus olhos não acompanharam o sorriso.
“Você deve estar impressionada.”
“Com o quê?”
“Com tudo isso.”
Valentina abriu os braços, indicando o salão.
“Não é todo dia que uma garçonete entra numa casa como esta.”
Marina percebeu a provocação.
“Realmente. Normalmente, quando entro em casas grandes, é para trabalhar.”
Teresa abaixou discretamente o rosto, escondendo um sorriso.
Valentina ergueu uma sobrancelha.
“Pelo menos você conhece seu lugar.”
Marina sustentou seu olhar.
“Conheço, sim. É onde eu não preciso humilhar ninguém para me sentir importante.”
O silêncio caiu sobre o hall.
Helena ficou rígida.
Valentina perdeu o sorriso.
Lucas, sem entender a tensão, segurou a mão de Marina.
“Vem! Quero mostrar meu quarto!”
Marina se deixou conduzir.
Atrás dela, Helena murmurou:
“Essa moça vai nos trazer problemas.”
O quarto de Lucas parecia um pequeno parque de diversões.
Havia estantes cheias de livros, carrinhos, dinossauros e uma enorme janela voltada para o jardim.
Marina observou tudo com admiração.
“Você tem uma coleção inteira!”
Lucas abriu uma caixa.
“Esse aqui é o Trovão.”
Mostrou um tiranossauro vermelho.
“Esse é o Capitão Dino.”
Levantou um boneco azul.
“E esse…”
Ele retirou o dinossauro verde que segurava na noite do ataque.
“Esse é o Valente.”
Marina sorriu.
“Por quê?”
Lucas ficou sério.
“Porque ele estava comigo quando você me salvou.”
Ela sentiu o peito apertar.
O menino colocou o brinquedo em suas mãos.
“Você pode ficar com ele.”
“Mas é seu favorito.”
“Eu sei.”
“Então por que quer me dar?”
Lucas olhou diretamente para ela.
“Porque você foi mais valente que ele.”
Marina não conseguiu responder imediatamente.
Apenas abraçou o menino com cuidado.
Do corredor, Dante observava os dois.
Havia chegado do escritório poucos minutos antes.
Teresa se aproximou silenciosamente.
“Ela faz bem ao menino.”
Dante assentiu.
“Eu sei.”
“Ele não falava tanto desde…”
Teresa interrompeu a frase.
Dante olhou para ela.
“Desde que a mãe dele morreu?”
A governanta baixou os olhos.
“Sim, senhor.”
Dante voltou a observar o filho.
Lucas estava rindo de alguma coisa que Marina dizia.
Uma risada livre.
Sem medo.
Havia muito tempo que Dante não ouvia aquele som dentro da própria casa.
À noite, a família se reuniu na sala de jantar.
Uma mesa comprida ocupava o centro do ambiente.
Talheres de prata brilhavam sob o lustre.
Helena estava sentada numa das extremidades.
Valentina permanecera para jantar.
Ricardo Montenegro, primo de Dante, também havia chegado.
Marina apareceu acompanhada de Patrícia.
As duas usavam roupas simples, mas bem cuidadas.
Teresa havia informado que todos jantariam às oito.
Lucas correu até Marina.
“Você vai sentar comigo!”
Ele puxou uma cadeira ao lado da sua.
Helena pousou lentamente o guardanapo.
“Lucas, querido.”
O menino parou.
“O quê, vovó?”
“Marina e a mãe dela podem jantar na copa. Teresa vai cuidar de tudo.”
Marina ficou imóvel.
Patrícia baixou os olhos.
“Não queremos incomodar”, disse a mãe.
Lucas franziu a testa.
“Mas eu quero que ela sente aqui.”
“Meu amor, existem regras nesta casa.”
“Que regras?”
Helena respirou fundo.
“Os convidados da família jantam nesta mesa.”
Lucas olhou para Marina.
“Mas ela é minha convidada.”
Valentina soltou uma risada discreta.
“Lucas, você ainda é pequeno para entender certas coisas.”
O menino apertou a mão de Marina.
“Eu entendo que ela salvou minha vida.”
O silêncio foi imediato.
Helena ficou vermelha.
Marina se agachou ao lado dele.
“Lucas, tudo bem. Eu posso jantar com a minha mãe na copa.”
“Mas eu quero você aqui.”
“Eu sei, querido.”
O menino começou a chorar.
“Você prometeu que ia ficar!”
Marina sentiu o coração apertar.
“Eu estou aqui.”
“Então por que não pode sentar comigo?”
Ninguém respondeu.
Foi nesse momento que Dante entrou na sala.
“Qual é o problema?”
Helena se levantou.
“Dante, seu filho está fazendo uma cena.”
Lucas correu até o pai.
“A vovó não deixa a Marina jantar comigo!”
Dante olhou para Marina.
Ela estava de pé ao lado de Patrícia, claramente constrangida.
“É verdade?”
Helena respondeu antes dela.
“Eu apenas sugeri que as duas ficassem mais à vontade na copa.”
Dante caminhou lentamente até a mesa.
Puxou a cadeira ao seu lado.
Depois olhou para Marina.
“Sente-se.”
Marina hesitou.
“Senhor Montenegro, não precisa…”
“Marina.”
A voz dele ficou mais suave.
“Você é minha convidada.”
Helena abriu a boca.
“Dante!”
Ele virou o rosto.
“Mãe, essa mulher arriscou a própria vida pelo meu filho.”
“Isso não significa que…”
“Significa que será tratada com respeito dentro da minha casa.”
Ninguém se moveu.
Dante manteve a cadeira afastada da mesa.
“Por favor, Marina.”
Ela olhou para Patrícia.
Depois para Lucas.
O menino sorria, ansioso.
Marina finalmente se sentou.
Dante puxou outra cadeira para Patrícia.
Lucas bateu palmas.
“Agora sim!”
Ricardo observou a cena em silêncio.
Valentina apertou a taça com tanta força que seus dedos ficaram brancos.
Helena desviou o rosto.
E Marina percebeu que, naquela casa, sentar-se à mesa podia ser mais perigoso do que parecia.
O jantar terminou pouco depois das dez.
Patrícia se recolheu ao quarto, cansada.
Lucas foi dormir depois de pedir três vezes que Marina lhe contasse uma história.
Marina permaneceu alguns minutos no corredor, observando os quadros antigos da família Montenegro.
As paredes estavam cobertas de retratos.
Homens sérios.
Mulheres elegantes.
Gerações de riqueza e poder.
Ela estava prestes a voltar ao quarto quando ouviu uma voz masculina vindo do escritório.
“Você não está entendendo.”
Marina parou.
Era Ricardo.
A porta estava entreaberta.
“Eu disse que resolveria o problema”, ele continuou.
Uma pausa.
“Não, Dante ainda não sabe.”
Marina sentiu um arrepio.
Deu um passo para trás.
Então ouviu outra frase.
“A garçonete está dentro da casa. Agora temos outro problema.”
Seu coração disparou.
Ricardo continuou falando, cada vez mais baixo.
Marina não conseguiu ouvir o restante.
Tentou se afastar silenciosamente.
Mas seu cotovelo esbarrou num pequeno vaso sobre o aparador.
O objeto balançou.
Ela o segurou antes que caísse.
Mesmo assim, fez barulho.
A conversa no escritório parou imediatamente.
Marina ficou imóvel.
Do outro lado da porta, Ricardo perguntou:
“Tem alguém aí?”
Ela recuou.
Um passo.
Depois outro.
A maçaneta começou a girar.
Marina virou-se para sair.
E deu de frente com Dante Montenegro.
Ele estava parado no corredor, olhando diretamente para ela.
“Marina?”
Ela levou a mão ao peito.
“Senhor Montenegro…”
Dante percebeu seu rosto pálido.
“O que aconteceu?”
Antes que ela respondesse, a porta do escritório se abriu.
Ricardo apareceu.
Seu olhar passou de Marina para Dante.
E, por uma fração de segundo, a expressão cordial desapareceu de seu rosto.
“Primo”, disse Ricardo. “Que surpresa.”
Dante não desviou os olhos de Marina.
“Você está tremendo.”
Ela tentou falar.
Mas Ricardo se aproximou, sorrindo.
“Está tudo bem, Marina?”
A maneira como ele pronunciou seu nome fez um frio percorrer suas costas.
Dante finalmente olhou para o primo.
“Por que não estaria?”
Ricardo abriu os braços.
“Não faço ideia.”
Marina sentiu que precisava escolher suas próximas palavras com cuidado.
Porque, naquele instante, compreendeu duas coisas.
Ricardo sabia que ela havia escutado alguma coisa.
E Dante ainda não fazia ideia do perigo que poderia estar vivendo dentro da própria casa.
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