"Os 11 Minutos Perdidos do Chefe da Máfia" Capítulo 4 — O Homem Que Gabriel Temia
“Gabriel… você tem medo do tio Ricardo?”
O menino ficou completamente imóvel.
Dante Montenegro estava sentado diante dele, sem seguranças, sem computadores e sem o rádio que costumava carregar.
Pela primeira vez em muito tempo, a porta do quarto estava fechada e a câmera interna, desligada.
Gabriel apertou o urso.
Não respondeu.
Dante sentiu o coração afundar.
“Filho, olha pra mim.”
O menino levantou os olhos.
“Você vai ficar bravo?”
“Não.”
“Promete?”
“Prometo.”
Gabriel engoliu em seco.
“Mesmo se eu falar uma coisa ruim?”
Dante precisou controlar a própria voz.
“Mesmo assim.”
O menino começou a chorar.
E Dante compreendeu que a resposta estava diante dele.
A conversa não havia sido uma decisão fácil.
Durante toda a manhã, Dante caminhara pela mansão tentando encontrar uma explicação que não envolvesse Ricardo.
Talvez Gabriel associasse o padrinho ao funeral.
Talvez o homem tivesse falado alto perto dele.
Talvez o trauma estivesse misturando lembranças.
Mas Marina insistira em algo que Dante não conseguia esquecer.
“Não tente convencer Gabriel de que ele está errado antes de escutar o que ele tem a dizer.”
Ele odiava sentir-se impotente.
Estava acostumado a resolver problemas com dinheiro, ordens e homens armados.
Nada disso servia diante de uma criança assustada.
Por isso pedira a Bruno que desligasse temporariamente a câmera interna do quarto, mantendo a vigilância das entradas.
Não queria transformar a conversa numa investigação.
Queria ouvir seu filho.
Agora, diante das lágrimas de Gabriel, sentia que talvez tivesse demorado demais.
“Pode falar, meu amor.”
O menino esfregou o rosto na manga.
“Na noite antes do carro…”
Dante prendeu a respiração.
“Que noite?”
“Quando a mamãe morreu.”
Ele fechou os olhos por um instante.
“Pode continuar.”
Gabriel olhou para a porta.
“O tio Ricardo estava brigando com ela.”
Dante sentiu uma pontada no peito.
“Onde?”
“No escritório pequeno.”
Era o antigo escritório de Sofia, próximo à biblioteca.
“O que aconteceu?”
“Eu acordei porque ouvi a mamãe falando alto.”
Gabriel fez uma pausa.
“Fui procurar ela.”
Dante permaneceu imóvel.
“Quando cheguei perto, a porta estava aberta.”
“Você viu os dois?”
O menino assentiu.
“A mamãe estava chorando.”
Dante sentiu o rosto endurecer.
“Sofia estava chorando?”
“Estava.”
“E Ricardo?”
“Estava bravo.”
Gabriel começou a torcer uma das orelhas do urso.
“Ele segurou o braço dela.”
Dante apertou os dedos contra os joelhos.
“E o que sua mãe disse?”
O menino demorou a responder.
“Ela falou que você precisava saber.”
Dante inclinou-se.
“Precisava saber o quê?”
“Não sei.”
Gabriel respirou fundo.
“Ela disse: ‘O Dante precisa saber de tudo’.”
O quarto pareceu encolher.
Dante reconheceu imediatamente a ligação com a gravação.
Sofia estava tentando revelar a traição.
“E o Ricardo?”, perguntou.
Gabriel fechou os olhos.
“Ele falou que você não ia acreditar.”
“Como ele disse?”
O menino repetiu, com a voz trêmula:
“Ele nunca vai acreditar em você.”
Dante sentiu uma raiva quase insuportável.
Mas permaneceu sentado.
Não queria assustar Gabriel.
“Depois disso, o que aconteceu?”
“Eu fiz barulho.”
“Eles perceberam você?”
Gabriel assentiu.
“O tio Ricardo olhou pra mim.”
O menino começou a tremer.
“Ele veio até a porta.”
Dante estendeu a mão.
“Calma, filho.”
“Ele falou que era segredo de adulto.”
“E depois?”
“Disse que eu não podia contar pro papai.”
Dante sentiu os olhos arderem.
“Gabriel…”
“Ele falou que você ia ficar muito triste.”
O menino começou a soluçar.
“Eu não queria deixar você triste.”
Dante não conseguiu permanecer sentado.
Ajoelhou-se diante da cadeira de rodas e abraçou o filho cuidadosamente.
“Escuta uma coisa.”
Gabriel chorava contra seu ombro.
“Você nunca fez nada de errado.”
“Mas eu não contei.”
“Você era pequeno. Estava com medo.”
“E a mamãe morreu.”
Dante fechou os olhos.
Aquela frase o atingiu com mais força do que qualquer ameaça que recebera na vida.
“Não foi por sua causa.”
Gabriel ergueu o rosto.
“Você promete?”
Dante segurou suas mãos.
“Eu prometo. A culpa nunca foi sua.”
O menino abraçou o pai.
Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou.
Marina esperava no corredor.
Quando Dante abriu a porta, ela percebeu imediatamente que a conversa havia mudado alguma coisa.
Ele parecia exausto.
“Gabriel está bem?”, perguntou.
“Está descansando.”
“Ele conseguiu falar?”
Dante assentiu.
“Mais do que eu imaginava.”
Marina não pressionou.
Ele olhou para ela.
“Você tinha razão.”
“Sobre o quê?”
“Eu estava tentando protegê-lo sem escutar.”
Marina respondeu com cuidado:
“O senhor ainda pode mudar isso.”
Dante observou a porta fechada.
“Vou mudar.”
Pela primeira vez, Marina viu nele algo além do homem temido por toda a cidade.
Viu um pai que não sabia como lidar com a própria culpa.
E que finalmente começava a admitir isso.
Às quatro da tarde, Dante chamou Bruno ao escritório.
Fechou as cortinas.
Desligou o telefone fixo.
Depois colocou sobre a mesa uma folha com três nomes.
Ricardo Vasconcelos.
Paulo Nascimento.
Marcelo Azevedo.
“Quero uma investigação discreta sobre esses homens.”
Bruno leu a lista.
“Ricardo também?”
“Principalmente Ricardo.”
O segurança levantou os olhos.
“Senhor, ele controla praticamente toda a estrutura de segurança.”
“Eu sei.”
“Vai ser difícil fazer isso sem que ele perceba.”
“Então não use a nossa estrutura.”
Bruno permaneceu em silêncio.
Dante continuou:
“Quero saber onde Ricardo estava na noite em que Sofia morreu. Com quem falou. Quais empresas receberam dinheiro dele. E quem acessou o sistema de câmeras.”
“Entendido.”
“Mais uma coisa.”
Dante abriu uma gaveta.
Retirou uma cópia dos registros do monitor quatro.
“Não confie nos arquivos que estiverem dentro da nossa rede.”
Bruno examinou os documentos.
“Você acha que alguém está alterando as provas?”
“Alguém já apagou onze minutos.”
Dante se aproximou.
“E, se minha suspeita estiver certa, essa pessoa pode apagar muito mais.”
Bruno guardou os papéis.
“Vou cuidar disso pessoalmente.”
Dante segurou seu braço antes que saísse.
“Bruno.”
“Senhor?”
“Se Ricardo descobrir o que estamos fazendo, Gabriel pode correr perigo.”
O segurança assentiu.
“Eu entendi.”
“Então não cometa nenhum erro.”
Naquela noite, Ricardo apareceu no corredor do segundo andar.
Encontrou Dante saindo do quarto do filho.
“Tudo bem com o Gabriel?”
Dante fechou a porta com cuidado.
“Está.”
Ricardo sorriu.
“Ele ainda não quer falar comigo?”
“Está passando por uma fase difícil.”
“Eu sei. A morte da Sofia mexeu muito com ele.”
Dante observou o amigo.
A frase parecia comum.
Mas agora ele se lembrava de Gabriel contando sobre a discussão.
Sobre Sofia chorando.
Sobre Ricardo segurando seu braço.
E sobre a ameaça disfarçada de conselho.
“Você sente falta dela?”, Dante perguntou.
Ricardo pareceu surpreso.
“Da Sofia?”
“Sim.”
“Claro.”
Ele suspirou.
“Ela era uma mulher extraordinária.”
Dante manteve o olhar fixo.
“Era.”
Ricardo colocou a mão em seu ombro.
“Você sabe que fiz tudo o que podia naquela época.”
Dante sentiu vontade de afastá-lo.
Mas não se moveu.
“Eu sei.”
“Se precisar de qualquer coisa, estou aqui.”
Dante sorriu discretamente.
“Você sempre esteve.”
Ricardo pareceu relaxar.
“Somos irmãos, Dante.”
A palavra provocou um gosto amargo na boca dele.
“Irmãos”, repetiu.
Ricardo apertou seu ombro e seguiu pelo corredor.
Dante permaneceu parado.
Durante dezoito anos, confiara naquele homem.
Dividira negócios, segredos e vitórias.
Confiara a ele a segurança da esposa.
A vida do filho.
As senhas da própria casa.
E agora precisava fingir que nada havia mudado.
Bruno saiu da mansão às dez e quinze.
Levava uma pasta pequena com os primeiros documentos da investigação.
Em vez de usar o carro oficial, entrou num veículo particular estacionado duas ruas adiante.
Pretendia encontrar um antigo colega especializado em auditoria de sistemas.
Antes de ligar o motor, seu celular vibrou.
Número desconhecido.
A mensagem continha apenas uma fotografia.
Gabriel, naquela tarde, sentado perto da janela do quarto.
Bruno ficou gelado.
A imagem fora tirada de um ângulo que não correspondia às câmeras oficiais.
Alguém observara o menino de muito perto.
Logo abaixo apareceu uma segunda mensagem.
“Se investigar Ricardo, o menino será o próximo.”
Bruno olhou imediatamente para os retrovisores.
A rua estava vazia.
Ele tentou ligar para Dante.
A chamada não completou.
Tentou novamente.
Nada.
Então uma terceira mensagem surgiu.
“Não volte para a mansão.”
Bruno sentiu o suor escorrer pelas costas.
Alguém sabia exatamente o que Dante havia ordenado.
Alguém acompanhava seus movimentos.
E alguém estava disposto a ameaçar uma criança para impedir a investigação.
Na mansão, Dante estava sentado no antigo escritório de Sofia.
Sobre a mesa, havia uma fotografia do casamento.
Ele observou o rosto da esposa.
“Eu vou descobrir”, murmurou.
Seu celular vibrou.
Era uma mensagem de Bruno.
Mas não continha palavras.
Apenas a fotografia de Gabriel, seguida da ameaça.
Dante se levantou lentamente.
Seu primeiro impulso foi chamar todos os seguranças.
Depois se lembrou de que Ricardo comandava aqueles homens.
Se desse uma ordem precipitada, poderia avisar exatamente a pessoa que precisava investigar.
Ele olhou para a porta.
Do lado de fora, ouviu passos.
Uma sombra atravessou o corredor.
Dante apagou a tela do celular.
A maçaneta começou a girar.
“Dante?”, chamou Ricardo.
A voz era calma.
Familiar.
A mesma voz que ele escutava havia dezoito anos.
“Posso entrar?”
Dante guardou o telefone no bolso.
Olhou mais uma vez para a fotografia de Sofia.
Então respondeu:
“Claro, meu irmão.”
E sorriu.
Porque agora sabia de uma coisa.
O homem que ameaçara seu filho talvez estivesse a poucos passos dele.
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