"Os 11 Minutos Perdidos do Chefe da Máfia" Capítulo 2 — O Segredo Dentro do Urso
“Não encosta nele!”
O grito de Gabriel fez Teresa Almeida derrubar a bandeja que carregava.
Uma xícara se partiu no chão.
O menino puxou o velho urso de pelúcia para junto do peito e começou a respirar depressa.
“Gabriel, calma!”, Teresa pediu.
“Não! Não pode pegar!”
Marina correu até a cadeira de rodas.
“Ei, olha pra mim. Ninguém vai tirar seu ursinho.”
Gabriel chorava.
Teresa, governanta da família havia mais de vinte anos, parecia profundamente abalada.
“Eu só queria lavar o brinquedo, Marina. Está sujo.”
“Eu sei. Mas deixa comigo.”
A governanta recolheu os pedaços da xícara e saiu.
Marina se agachou.
“Você ficou com medo de perder o urso?”
Gabriel assentiu.
“Foi a mamãe que me deu.”
“Eu sei.”
“Ela disse que era meu.”
Marina tocou delicadamente sua mão.
“E continua sendo.”
O menino apertou o brinquedo.
“Ela falou que ninguém podia tirar de mim.”
Marina ficou em silêncio.
Havia algo na maneira como Gabriel repetia aquela frase.
Não parecia apenas o apego de uma criança ao último presente da mãe.
Parecia uma instrução.
Na sala de segurança, Dante continuava investigando o desaparecimento das imagens.
Dormira apenas duas horas.
Seu rosto estava marcado pelo cansaço, mas ele se recusava a deixar a mansão.
Bruno apresentou os resultados da primeira auditoria.
“Nenhum sinal de entrada forçada. Os portões permaneceram fechados durante a madrugada.”
“E os funcionários?”
“Todos dizem que estavam em seus postos.”
“Dizem?”
“Estamos conferindo.”
Dante apontou para a planta da casa.
“Quantas entradas existem para o corredor do Gabriel?”
“Duas. A escadaria principal e a passagem de serviço.”
“Câmeras?”
“Nas duas.”
“E as gravações?”
“Normais.”
Dante franziu a testa.
“Então como alguém entrou?”
Bruno ampliou a planta.
“Existe uma terceira possibilidade.”
Ele indicou uma porta próxima à antiga biblioteca.
“A passagem que liga a ala oeste ao corredor interno.”
Dante conhecia aquele acesso.
Sofia costumava utilizá-lo quando queria chegar ao quarto do filho sem atravessar as áreas sociais.
Depois da explosão, a passagem permanecera praticamente esquecida.
“Quem tem a chave?”
“A fechadura foi integrada ao sistema eletrônico há oito meses.”
“Por ordem de quem?”
Bruno consultou os registros.
“Ricardo.”
Dante não demonstrou reação.
“Verifique quem utilizou essa porta.”
“Sim, senhor.”
Quando ficou sozinho, ele abriu uma fotografia antiga.
Sofia sorria ao lado de Gabriel, que ainda conseguia correr pelo jardim.
O menino tinha seis anos.
Segurava o mesmo urso de pelúcia.
Dante passou o polegar pela tela.
“Eu devia ter estado naquele carro”, murmurou.
A lembrança continuava tão viva quanto na noite da explosão.
O telefonema.
A voz desesperada de Bruno.
As sirenes.
O hospital.
E Sofia, que jamais voltou para casa.
Ele fechou a fotografia.
Não podia permitir que alguém tocasse em Gabriel novamente.
Marina levou o menino para a varanda coberta.
O jardim recebia a luz suave da tarde.
Gabriel segurava o urso enquanto observava dois passarinhos pousados na fonte.
“Você sabia que minha mãe gostava de pássaros?”, perguntou.
Marina sorriu.
“Não sabia.”
“Ela dizia que eles não precisavam pedir licença para ir embora.”
“Parece que ela era muito inteligente.”
“Era.”
Gabriel baixou os olhos.
“Ela também sabia consertar coisas.”
“Que tipo de coisas?”
“Brinquedos. Botões. Minhas roupas.”
Marina olhou para o urso.
A pelúcia marrom estava gasta, com uma das orelhas ligeiramente torta.
Nas costas havia uma costura mais escura.
Ela lembrava que, poucos dias antes, a linha parecia mais clara.
“Gabriel, posso olhar seu ursinho?”
O menino hesitou.
“Você vai levar?”
“Não. Só quero ver uma coisa.”
Ele permitiu.
Marina examinou a costura sem abrir o brinquedo.
O tecido apresentava pequenas marcas recentes de agulha.
A linha estava apertada de maneira irregular.
Alguém havia mexido ali.
“Quem costurou seu urso?”
“Mamãe.”
“Faz muito tempo?”
Gabriel assentiu.
“Antes do acidente.”
Marina observou novamente os pontos.
Aquela linha não parecia ter catorze meses.
“E depois disso? Alguém consertou?”
“Não.”
O menino estendeu as mãos.
Marina devolveu o brinquedo imediatamente.
“Obrigada por me mostrar.”
Gabriel o abraçou.
“Ele dorme comigo.”
“Eu sei.”
“Ontem o homem pegou nele.”
Marina sentiu o coração acelerar.
“Pegou no seu urso?”
Gabriel assentiu.
“Ele ficou procurando uma coisa.”
“Dentro dele?”
O menino não respondeu.
Mas apertou o brinquedo com tanta força que os dedos ficaram brancos.
Dante ouviu a história meia hora depois.
Marina o encontrou no escritório, diante de uma pilha de documentos.
“Preciso mostrar uma coisa.”
Ele levantou a cabeça.
“É sobre Gabriel?”
“Sim.”
Ela explicou a costura, o comportamento do menino e a informação sobre o visitante noturno.
Dante ficou de pé.
“Por que alguém procuraria alguma coisa dentro de um urso?”
“Não sei.”
“Você abriu?”
“Não. O brinquedo pertence ao Gabriel.”
Dante respirou fundo.
“Vamos conversar com ele.”
Os dois encontraram o menino na sala de leitura.
Teresa estava ao lado, organizando livros.
Dante pediu que ela os deixasse sozinhos.
Depois se sentou perto do filho.
“Gabriel, a Marina me contou uma coisa.”
O menino ficou tenso.
“Você está bravo?”
“Não.”
“Com ela?”
“Também não.”
Dante apontou para o urso.
“Parece que alguém mexeu no seu amigo.”
Gabriel baixou a cabeça.
“Foi aquele homem.”
“O que ele fez?”
“Pegou o urso. Ficou apertando.”
“E depois?”
“Ouvi um barulho.”
“Que barulho?”
“Como quando a mamãe abria uma gaveta.”
Dante trocou um olhar com Marina.
“Filho, podemos verificar se ele estragou alguma coisa?”
“Não!”
Gabriel começou a chorar.
“A mamãe falou que era meu!”
Dante se aproximou.
“Eu não vou tirar ele de você.”
“Promete?”
“Prometo.”
Marina interveio com delicadeza.
“Podemos olhar juntos. Se você não quiser, paramos.”
Gabriel permaneceu em silêncio por quase um minuto.
Então estendeu o urso.
“Não rasga.”
“Não vamos rasgar”, Marina garantiu.
Ela colocou o brinquedo sobre uma toalha limpa.
Com uma pequena tesoura de costura trazida por Teresa, retirou cuidadosamente alguns pontos recentes.
O tecido se abriu.
Marina introduziu dois dedos na abertura.
Sentiu algo rígido.
“Senhor Montenegro…”
Dante aproximou-se.
Ela retirou um pequeno cilindro metálico, do tamanho de uma pilha.
O objeto estava envolvido em plástico transparente.
Gabriel observava tudo.
“Isso era da mamãe?”
Dante não conseguiu responder imediatamente.
Marina examinou o cilindro.
Havia uma tampa rosqueada.
Dante abriu.
Uma pequena placa de memória caiu sobre a toalha.
O silêncio tomou conta da sala.
“Um cartão microSD”, Dante murmurou.
Marina olhou para Gabriel.
“Você sabia que estava aqui?”
O menino balançou a cabeça.
“Não.”
Dante segurou o cartão entre os dedos.
Sofia trabalhara durante anos com os documentos financeiros do Grupo Montenegro.
Ela conhecia informações que nem mesmo alguns diretores podiam consultar.
Por que esconderia um cartão de memória no brinquedo do filho?
E por que alguém voltaria catorze meses depois para procurá-lo?
Ricardo apareceu no corredor quando Dante saía da sala.
“Encontraram alguma coisa?”
Dante guardou o cartão no bolso.
“Estamos verificando.”
Ricardo olhou para a porta entreaberta.
“Gabriel está bem?”
“Está.”
“Posso vê-lo?”
“Agora não.”
Ricardo pareceu surpreso.
“Sou padrinho dele, Dante.”
“Eu sei.”
“Faz dias que ele não quer conversar comigo.”
Dante observou o amigo.
“Talvez precise de tempo.”
Ricardo ajeitou o relógio.
“Claro.”
Quando ele se afastou, Dante percebeu que Marina também acompanhava seus movimentos.
“Algum problema?”, perguntou.
Ela hesitou.
“Não sei ainda.”
“Então descubra.”
Naquela noite, Dante reuniu Bruno e Paulo, o técnico de segurança, numa sala isolada.
O cartão foi conectado a um computador sem acesso à rede da mansão.
Havia vários arquivos criptografados.
“Consegue abrir?”, Dante perguntou.
Paulo examinou a tela.
“Existe uma proteção por chave.”
“Quanto tempo?”
“Pode levar horas. Talvez dias.”
Dante cruzou os braços.
“Você tem até amanhã.”
Paulo engoliu em seco.
Bruno interveio.
“Podemos tentar identificar a origem dos arquivos primeiro.”
Durante duas horas, trabalharam em silêncio.
Por volta das onze, encontraram um pequeno arquivo de configuração.
O nome era simples.
GABRIEL_06.
Dante sentiu o peito apertar.
Gabriel tinha seis anos quando Sofia morreu.
O arquivo continha uma pista para a chave de acesso: a data em que Sofia e Dante haviam levado o filho pela primeira vez ao litoral de Santos.
Dante lembrava daquele dia.
Sofia tirara dezenas de fotografias na praia do Gonzaga.
Gabriel passara a tarde inteira construindo castelos de areia.
Ele digitou a data.
A tela mudou.
Uma pasta apareceu.
Dentro dela, havia vídeos, planilhas e documentos.
Dante clicou no primeiro arquivo.
A imagem demorou alguns segundos para carregar.
Então Sofia apareceu.
Estava sentada no antigo escritório da mansão.
Usava uma blusa branca.
Os cabelos castanhos estavam presos num coque simples.
Parecia cansada.
Assustada.
Mas sua voz era firme.
“Dante…”
Ele agarrou a borda da mesa.
Aquela voz.
A voz que procurara em gravações antigas durante catorze meses.
A voz que Gabriel ainda chamava durante o sono.
Sofia olhou diretamente para a câmera.
“Se você está vendo isso, significa que eu não consegui voltar para casa.”
Dante levou a mão à boca.
A imagem continuou.
“Meu amor, preciso que você me escute até o fim.”
Ela respirou fundo.
“Porque existe alguém dentro da nossa casa que está preparando a sua morte.”
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