"Os 11 Minutos Perdidos do Chefe da Máfia" Capítulo 1 — Os Onze Minutos Apagados
“Um homem entrou no meu quarto ontem à noite.”
A frase saiu tão baixinho que Marina Oliveira precisou se inclinar para ouvir.
Mas Dante Montenegro escutou cada palavra.
Do outro lado da mansão, sentado diante de uma parede de monitores, o homem mais temido do submundo de São Paulo ficou imóvel.
Na tela número quatro, seu filho de oito anos apertava um velho urso de pelúcia contra o peito.
Gabriel não olhava para Marina.
O menino mantinha os olhos fixos na porta do quarto, como se esperasse que alguém aparecesse a qualquer momento.
Marina se ajoelhou diante da cadeira de rodas.
“Gabriel, olha pra mim.”
Ele não obedeceu.
“Esse homem fez alguma coisa com você?”
O menino balançou a cabeça, mas seus dedos apertaram ainda mais o brinquedo.
“Ele disse alguma coisa?”
Gabriel demorou a responder.
“Mandou eu ficar quietinho.”
Dante se levantou tão depressa que sua cadeira bateu contra a parede.
Havia catorze meses que ele tentava proteger o filho de tudo.
Catorze meses desde a explosão que destruíra sua família.
Naquela noite, Sofia Montenegro morrera dentro de um carro que deveria estar levando o próprio Dante a uma reunião.
Gabriel sobrevivera.
Mas os ferimentos na coluna haviam comprometido os movimentos de suas pernas. Desde então, o menino usava cadeira de rodas e quase não falava.
Dante transformara a mansão do Jardim Europa numa fortaleza.
Câmeras nos corredores. Sensores nas portas. Guardas no jardim. Alarmes nas janelas.
Nenhum funcionário entrava sem autorização.
Nenhum visitante circulava desacompanhado.
Ele acreditava que, se pudesse enxergar tudo, jamais seria surpreendido novamente.
Até aquela tarde.
No monitor, Marina segurou delicadamente a mão de Gabriel.
“Você sabe quem era?”
“Não.”
“Conseguiu ver o rosto?”
O menino negou.
“Estava escuro.”
Marina respirou fundo.
“Tudo bem. Você não precisa contar tudo agora.”
Gabriel ergueu os olhos.
“Ele vai voltar?”
A pergunta atravessou Dante como uma lâmina.
Ele apertou o botão do interfone.
“Bruno. Na sala de segurança. Agora.”
Trinta segundos depois, Bruno Ferreira apareceu.
O segurança particular encontrou o patrão diante do computador, com o rosto fechado.
“Senhor?”
“Quero as gravações do quarto do Gabriel. Ontem. Entre uma e três da manhã.”
Bruno assumiu o teclado.
“Algum problema?”
“Faça o que eu mandei.”
A gravação começou.
À uma hora e cinquenta, Gabriel dormia.
Às duas, continuava dormindo.
Às duas e dez, nada havia mudado.
Dante observava a tela sem piscar.
Então aconteceu.
O relógio digital saltou de 02h10 para 02h21.
Onze minutos.
Simplesmente desapareceram.
“Volta”, Dante ordenou.
Bruno voltou.
O salto aconteceu novamente.
“Mais uma vez.”
O segurança repetiu a operação.
Dante apoiou as duas mãos sobre a mesa.
“Que porra é essa?”
Bruno abriu os registros do sistema.
“Pode ter sido uma falha no armazenamento.”
“Onze minutos exatos?”
“Preciso verificar.”
“Verifique.”
Bruno acessou os arquivos originais, conferiu a sincronização dos servidores e examinou os registros automáticos.
Seu rosto mudou.
“Doutor Dante…”
“Fala.”
“Não foi falha.”
Dante sentiu o estômago endurecer.
“Alguém apagou esse trecho?”
Bruno assentiu.
“E fez isso pelo painel administrativo. O sistema continuou funcionando normalmente.”
Dante olhou para a imagem congelada do filho.
Durante onze minutos, alguém poderia ter entrado naquele quarto.
Poderia ter se aproximado da cama.
Poderia ter feito qualquer coisa.
E ele, que observava tudo, não tinha visto absolutamente nada.
“Tranque a mansão.”
Bruno hesitou.
“Senhor?”
“Agora.”
Dante arrancou o rádio da cintura do segurança.
“Atenção, todas as equipes. Bloqueiem os portões. Ninguém entra e ninguém sai sem minha autorização pessoal.”
Uma voz respondeu imediatamente.
“Recebido.”
Dante continuou:
“Quero todos os funcionários identificados. Quem estava de serviço ontem à noite permanece aqui.”
Ele devolveu o rádio.
“E ninguém toca nesse servidor.”
Bruno saiu apressado.
Dante voltou ao monitor quatro.
Marina ajudava Gabriel a alcançar um livro sobre a mesa.
Ela não sabia que acabara de provocar uma tempestade.
Marina Oliveira trabalhava na mansão havia apenas seis semanas.
Aos vinte e nove anos, estava acostumada a cuidar de crianças que precisavam de acompanhamento especial.
Mas nunca conhecera uma família como os Montenegro.
Dante não era apenas um empresário poderoso.
Seu nome circulava entre políticos, executivos e homens que jamais apareciam nas fotografias dos jornais.
O Grupo Montenegro possuía empresas de transporte, segurança e logística.
Por trás dos negócios legítimos, existia uma organização criminosa cuja influência atravessava São Paulo.
Marina sabia disso.
Mesmo assim, aceitara o trabalho por causa de Gabriel.
Na primeira semana, o menino mal pronunciara seu nome.
Na segunda, começara a reclamar quando ela escolhia livros chatos.
Na quarta, dera sua primeira gargalhada desde que Marina chegara.
Ela não o tratava como uma criança incapaz.
Quando Gabriel derrubava alguma coisa, Marina perguntava se queria ajuda antes de intervir.
Quando ficava irritado, ela permitia que expressasse a raiva.
E quando ele não queria falar, simplesmente permanecia por perto.
Naquela tarde, porém, o menino parecia diferente.
“Marina?”
“Oi, meu amor.”
“Você vai embora?”
“Quando terminar meu horário.”
“E depois?”
“Volto amanhã.”
Gabriel olhou novamente para a porta.
“Promete?”
Marina sentiu um aperto no peito.
“Prometo.”
Nesse instante, a porta se abriu.
Dante entrou acompanhado de Bruno.
Gabriel se assustou tanto que deixou o livro cair.
O pai percebeu.
“Filho?”
O menino abraçou o urso.
Dante se aproximou devagar.
“Está tudo bem. Sou eu.”
Marina se levantou.
“Senhor Montenegro…”
“Você ouviu o que ele disse?”
Ela entendeu imediatamente.
“Ouvi.”
“Por que não me avisou?”
“Ele acabou de contar.”
“E por que não perguntou quem era?”
“Eu perguntei.”
“Então pergunte de novo.”
Marina ficou séria.
“Não.”
Bruno desviou os olhos.
Poucas pessoas tinham coragem de contrariar Dante Montenegro dentro da própria casa.
“Como é que é?”, Dante perguntou.
“Gabriel já está assustado. Pressioná-lo agora pode fazer com que ele pare de falar.”
“Alguém entrou no quarto do meu filho!”
“Eu sei.”
“Então você não entende a gravidade disso?”
Marina sustentou seu olhar.
“Entendo. Mas o senhor precisa decidir se quer uma resposta imediata ou se quer que Gabriel continue confiando na gente.”
O silêncio se prolongou.
Dante olhou para o menino.
Gabriel estava encolhido na cadeira.
Pela primeira vez, Dante percebeu que sua própria voz também o assustava.
Ele respirou fundo.
“Bruno, espere lá fora.”
O segurança obedeceu.
Dante puxou uma cadeira e se sentou diante do filho.
“Gabriel, olha pro papai.”
O menino ergueu o rosto.
“Ninguém vai entrar aqui para te machucar. Eu prometo.”
Gabriel não respondeu.
Dante estendeu a mão.
“Você acredita em mim?”
Depois de alguns segundos, o menino segurou seus dedos.
Mas continuou abraçado ao urso.
Às seis da tarde, Ricardo Vasconcelos chegou à mansão.
Alto, elegante, cabelos escuros cuidadosamente penteados, ele atravessou o corredor acompanhado por dois seguranças.
Conhecia Dante havia dezoito anos.
Tinham crescido juntos, enfrentado inimigos juntos e construído uma organização que poucos ousavam desafiar.
Ricardo era mais do que chefe de segurança.
Era o padrinho de Gabriel.
Dante o considerava um irmão.
“Soube que você fechou a casa”, Ricardo disse ao entrar no escritório.
Dante estava diante da janela.
“Alguém entrou no quarto do Gabriel.”
Ricardo franziu a testa.
“Quem?”
“É o que estou tentando descobrir.”
“Algum funcionário?”
“Talvez.”
Ricardo aproximou-se.
“Deixa comigo. Vou revisar todas as escalas.”
“Bruno já está fazendo isso.”
Por um instante, Ricardo pareceu incomodado.
Mas logo recuperou a expressão tranquila.
“Claro. Só quero ajudar.”
Dante virou-se.
“Você estava aqui ontem à noite?”
“Até umas onze. Depois fui embora.”
“Alguém entrou depois?”
“Não que eu saiba.”
Dante observou o amigo.
Ricardo sempre tivera respostas rápidas.
Naquela noite, isso não lhe pareceu tranquilizador.
“Quero todos os acessos verificados”, Dante disse.
“Sem problema.”
Ricardo olhou discretamente para o computador.
“O que apareceu nas imagens?”
“Nada.”
“Nada?”
“Onze minutos foram apagados.”
O rosto de Ricardo permaneceu imóvel.
“Isso é impossível.”
“Foi o que eu pensei.”
“Quem teria acesso para fazer uma coisa dessas?”
Dante não respondeu.
Às nove e quarenta, Bruno voltou ao escritório.
Ricardo já havia saído para organizar a equipe de segurança.
O funcionário responsável pelo sistema, Paulo, aguardava do lado de fora.
Bruno fechou a porta.
“Conferimos os registros.”
Dante largou o copo de água.
“E?”
“Alguém entrou no painel administrativo às duas e nove da manhã.”
“De onde?”
“De um terminal interno da mansão.”
“Qual terminal?”
“O computador auxiliar da central de segurança.”
Dante ficou em silêncio.
Aquela sala permanecia trancada durante a madrugada.
Somente quatro pessoas tinham autorização permanente para entrar.
Ele próprio.
Ricardo.
Bruno.
E Paulo, o técnico responsável pelo sistema.
“Quero saber quem fez o acesso.”
Bruno hesitou.
“Senhor, existe outra coisa.”
Dante ergueu os olhos.
“Fala de uma vez.”
“O sistema registrou uma autenticação completa. Não houve tentativa de invasão nem quebra de senha.”
“Então?”
Bruno colocou uma folha impressa sobre a mesa.
Dante leu a primeira linha.
Seu nome aparecia no campo de usuário.
Abaixo, o registro de autenticação indicava que a senha correta havia sido utilizada.
Ele sentiu o sangue gelar.
“Isso está errado.”
“Conferimos três vezes.”
“Eu estava dormindo.”
“Eu sei, senhor.”
Dante ergueu lentamente o rosto.
Bruno terminou a explicação:
“Quem apagou aqueles onze minutos entrou no sistema usando a sua própria senha, doutor Dante.”
E, naquele instante, Dante Montenegro compreendeu que o inimigo não precisava invadir sua casa.
O inimigo já possuía as chaves.
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