"No Dia do Meu Casamento, Descobri o Segredo Mais Sombrio da Minha Sogra" Capítulo 3 — A Foto Que Não Devia Existir
"Quanto ela pagou por mim?"
A pergunta saiu tão baixa que Vera quase não ouviu.
A mulher estava sentada à mesa da cozinha, com as mãos apertadas uma contra a outra. O cheiro de café recém-passado enchia o apartamento, mas Mariana sentia o estômago embrulhado.
"Não foi assim, minha filha."
"Então como foi?"
Vera enxugou as lágrimas com a ponta do avental.
"Eu tinha perdido meu emprego. Seu pai adotivo estava doente, e a gente devia três meses de aluguel."
Mariana puxou uma cadeira.
"Continua."
"Uma mulher apareceu aqui numa noite de agosto. Estava bem-vestida, dirigia um carro caro. Trazia um bebê enrolado numa manta amarela."
"Eu."
"Você."
Vera respirou com dificuldade.
"Ela disse que a criança precisava de uma família. Falou que a mãe biológica não podia cuidar dela."
"E você acreditou?"
"Eu quis acreditar."
Mariana sentiu os olhos arderem.
"Você aceitou dinheiro para ficar com uma criança sem saber de onde ela vinha?"
"Eu sei como parece."
"Não, mãe. Você não sabe."
Vera abaixou a cabeça.
"Ela prometeu que resolveria os documentos. Disse que tudo seria feito dentro da lei."
"E foi?"
"Eu descobri depois que não."
Mariana se levantou abruptamente.
"Meu Deus!"
"Eu tentei te contar tantas vezes."
"Vinte e oito anos, mãe!"
"Eu tinha medo de perder você."
Mariana caminhou até a janela.
Lá embaixo, uma senhora regava plantas na varanda. Um motoboy parou diante da padaria da esquina. A vida continuava normalmente, como se seu mundo não tivesse acabado de desmoronar.
"Quem era Helena Oliveira?"
Vera permaneceu em silêncio.
Mariana se virou.
"A mulher que você dizia ser minha mãe. Quem era ela?"
"Eu nunca a conheci pessoalmente."
"Então por que me mostrou aquela fotografia?"
"Beatriz deixou o retrato junto com a manta. Disse que Helena havia morrido e que você precisava crescer sabendo que tinha sido amada."
Mariana tocou o pingente.
"E você nunca desconfiou?"
"Desconfiei quando Beatriz começou a mandar dinheiro todos os meses."
"Durante quanto tempo?"
"Até você completar dezoito anos."
Mariana fechou os olhos.
Todas as pequenas coisas de sua infância voltaram à memória: as mensalidades escolares pagas por um benfeitor anônimo, as roupas novas que apareciam perto do Natal, a insistência de Vera para que nunca procurasse a família biológica.
"Você ainda tem alguma coisa daquela época?"
Vera hesitou.
Depois caminhou até o quarto e voltou com uma caixa de sapatos.
Dentro havia fotografias, uma manta amarela, um envelope pardo e uma pequena medalha religiosa.
Mariana reconheceu imediatamente a manta.
"Eu dormia com isso quando era pequena."
"Você não conseguia dormir sem ela."
Mariana passou os dedos pelo tecido envelhecido.
Num dos cantos havia duas letras bordadas.
M. A.
"Mariana Albuquerque", murmurou.
Vera não respondeu.
Dentro do envelope, Mariana encontrou uma cópia antiga de uma certidão de nascimento.
Seu nome aparecia como Mariana Oliveira, filha de Helena Oliveira.
Mas havia uma diferença entre aquele documento e a certidão que ela usara durante toda a vida.
A cópia antiga tinha uma anotação manuscrita no rodapé.
Registro a confirmar.
"Que documento é esse?"
"Foi o primeiro que Beatriz me entregou. Depois chegou uma certidão definitiva."
Mariana examinou o papel.
"Você sabe qual cartório fez o registro?"
"Não lembro. Talvez esteja na pasta dos seus documentos."
Mariana pegou o celular.
"Vou pedir uma certidão atualizada e descobrir de onde saiu esse registro."
Vera segurou sua mão.
"Você vai me denunciar?"
A pergunta machucou mais do que Mariana esperava.
"Eu não sei o que vou fazer."
"Eu te amo, minha filha."
Mariana chorou.
"Eu também te amo. Mas isso não apaga o que aconteceu."
Saiu do apartamento sem abraçar Vera.
No estacionamento, encontrou uma mensagem de Rafael.
Onde você está? Minha mãe disse que você saiu levando documentos da família.
Mariana digitou uma resposta.
Estou tentando descobrir quem sou.
O telefone tocou imediatamente.
"Mariana, por favor, volta para casa."
"Você conversou com sua mãe?"
"Conversei."
"E ela explicou?"
"Disse que você está sendo manipulada por uma mulher que quer dinheiro."
"Você acredita nisso?"
Rafael demorou.
"Eu acho que precisamos ouvir os dois lados."
Mariana sentiu um frio no peito.
"Os dois lados? Rafael, minha mãe acabou de confessar que Beatriz me entregou a ela quando eu era bebê."
Silêncio.
"Isso é uma acusação muito séria."
"Não é uma acusação. É o que aconteceu."
"Você tem alguma prova?"
Mariana olhou para a caixa no banco do passageiro.
"Tenho mais do que tinha ontem."
"Então traz tudo. Vamos conversar com o advogado da família."
"Eduardo Sampaio?"
"Ele conhece nossos documentos há décadas."
"Exatamente por isso não confio nele."
"Mariana, você está desconfiando de todo mundo."
"Porque todo mundo está escondendo alguma coisa!"
Ela desligou.
Minutos depois, recebeu uma ligação de Lucas Martins.
Lucas era jornalista e amigo de infância. Haviam crescido na mesma rua, frequentado a mesma escola pública e dividido muitas tardes na biblioteca do bairro.
"Vera me ligou", ele disse.
"Imagino o que ela contou."
"Que você descobriu alguma coisa sobre sua origem."
"Descobri que minha vida inteira pode ser uma mentira."
"Quer conversar?"
"Preciso de ajuda."
Lucas não hesitou.
"Estou na redação. Vem para cá."
Duas horas depois, Mariana estava sentada diante do computador dele, numa pequena sala de jornalismo independente na região central de São Paulo.
Lucas examinou a cópia antiga da certidão.
"Isso aqui é estranho."
"O quê?"
"Tem uma referência incompleta ao livro de registro. Não significa automaticamente que seja falso, mas precisamos conferir a origem."
"Você consegue?"
"Podemos localizar o cartório, pedir uma certidão de inteiro teor e procurar registros antigos. Também precisamos de um advogado independente."
Mariana assentiu.
Lucas abriu outra pasta.
"Encontrei uma notícia de vinte e oito anos atrás."
Na tela apareceu a fotografia de uma inauguração empresarial.
Um homem idoso sorria diante de uma placa com o nome Albuquerque Participações.
Ao lado dele estava uma jovem de cabelos castanhos.
Mariana se aproximou da tela.
"É ela."
"Quem?"
"Helena."
Lucas ampliou a imagem.
A legenda identificava a mulher como Helena Albuquerque, sobrinha do fundador do grupo e integrante da família empresária.
Mariana levou a mão à boca.
"Ela era uma Albuquerque?"
"Segundo essa reportagem, sim."
"Mas Vera disse que meu nome era Oliveira."
Lucas abriu outra notícia.
"Olha isso."
A manchete informava que Helena Albuquerque havia desaparecido após uma viagem a Santos, poucas semanas depois do nascimento de uma criança.
Mariana sentiu as mãos gelarem.
"Ela teve um bebê?"
"A reportagem não diz."
Lucas continuou pesquisando.
Encontrou uma fotografia de Beatriz ao lado de Antônio, durante um evento beneficente realizado meses depois.
Camila aparecia no colo da mãe.
Mariana observou o bebê.
Então reparou num detalhe.
A manta usada por Camila era branca, com uma pequena borda azul.
A mesma manta aparecia na fotografia das duas recém-nascidas mostrada por Lúcia.
"Lucas, amplia."
Ele obedeceu.
"Mais."
A imagem perdeu nitidez, mas ainda era possível distinguir um pequeno bordado.
Duas letras.
M. A.
Mariana sentiu o coração disparar.
"Essa manta não era dela."
"Como você sabe?"
"Porque tenho a outra. A que Beatriz entregou para Vera."
Lucas olhou para a caixa.
Mariana retirou o tecido amarelo e colocou sobre a mesa.
"Alguém trocou as mantas também."
Lucas permaneceu em silêncio.
"Mariana, precisamos tomar cuidado. Isso é uma pista, não uma prova de troca de bebês."
"Mas é uma pista."
"Sim."
Naquela noite, Mariana voltou à mansão.
Rafael estava esperando na sala.
"Minha mãe quer conversar com você."
"Eu não quero conversar com sua mãe."
"Ela está disposta a esclarecer tudo."
"Na presença de Eduardo?"
Rafael desviou os olhos.
Mariana soltou uma risada triste.
"Claro."
"Ele é advogado."
"Da sua mãe."
"Da família."
"Não é a mesma coisa."
Rafael se aproximou.
"Eu estou do seu lado."
"Então me diga uma coisa."
Ela tirou a fotografia de Helena da bolsa.
"Você conhece essa mulher?"
Rafael examinou a imagem.
"Não."
"Ela se chamava Helena Albuquerque. Era parente do fundador da empresa."
Rafael franziu a testa.
"Meu avô tinha um irmão. Acho que ele morreu antes de eu nascer."
"Helena era filha dele."
"Como você sabe?"
"Encontrei uma reportagem."
Rafael ficou pensativo.
"Vou perguntar ao meu pai."
"Não. Quero que você pergunte à sua mãe."
Ele suspirou.
"Mariana..."
"Por que você tem tanto medo de contrariá-la?"
A pergunta o atingiu.
"Não tenho medo."
"Então prova."
Antes que Rafael respondesse, Beatriz apareceu.
"Que reunião interessante."
Mariana guardou a fotografia.
Beatriz percebeu.
"O que você está escondendo?"
"Nada que seja seu."
"Enquanto morar nesta casa, vai me respeitar."
Mariana encarou a sogra.
"Respeito não se compra com uma mansão."
Beatriz se aproximou.
"Você anda conversando com pessoas perigosas."
"Como Lúcia?"
"Como esse jornalista que vive rondando sua vida."
Mariana sentiu um arrepio.
"Como sabe que estive com Lucas?"
Beatriz sorriu.
"Uma mulher na minha posição precisa saber quem entra e sai da vida da família."
"Mandou me seguir?"
"Eu protejo o que é meu."
Mariana ergueu a voz.
"Eu não sou sua!"
Beatriz olhou para Rafael.
"Está vendo? Ela está completamente fora de controle."
Rafael tentou intervir.
"Vamos todos nos acalmar."
Mariana não desviou os olhos da sogra.
"Quero saber quem era Helena Albuquerque."
Beatriz ficou imóvel.
Por um instante, pareceu que toda a mansão havia parado.
Então ela respondeu:
"Uma mulher que destruiu a própria vida por ganância."
"Ela era minha mãe?"
Beatriz se aproximou devagar.
"Você quer tanto saber a verdade, Mariana?"
"Quero."
"Então pergunte à sua querida Vera o que aconteceu com o bebê que deveria ter ficado naquela maternidade."
Mariana sentiu o sangue gelar.
"Que bebê?"
Beatriz sorriu sem alegria.
"A menina que saiu de lá usando o nome de Camila."
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