"No Dia do Meu Casamento, Descobri o Segredo Mais Sombrio da Minha Sogra" Capítulo 2 — A Sogra Que Mentiu
"Quem é você?"
Mariana apertou a pulseirinha contra a palma da mão.
A mulher na porta aparentava pouco mais de cinquenta anos. Usava um vestido simples, sandálias gastas e carregava uma bolsa de couro marrom. Seus cabelos grisalhos estavam presos num coque apertado.
"Meu nome é Lúcia Mendes. Trabalhei na maternidade onde você nasceu."
Mariana olhou novamente para a caixa de vidro.
"Como entrou nesta casa?"
"Dona Célia me deixou entrar pela porta de serviço."
"Foi você quem escreveu aquela carta?"
Lúcia assentiu.
"Esperei vinte e oito anos para encontrar coragem."
Mariana sentiu as pernas enfraquecerem.
"Por que meu nome está numa pulseira de maternidade com o sobrenome Albuquerque?"
Lúcia olhou para o corredor.
"Porque esse era o nome que deveria constar no seu primeiro registro."
"Isso não faz sentido."
"Faz. Mas alguém pagou muito dinheiro para que ninguém descobrisse."
Mariana se aproximou da mulher.
"Você está dizendo que minha mãe mentiu sobre quem eu sou?"
"Estou dizendo que sua mãe não era quem disseram que era."
A frase provocou um silêncio sufocante.
Lúcia abriu a bolsa e retirou uma fotografia antiga.
Nela, duas recém-nascidas estavam deitadas em berços transparentes, uma ao lado da outra.
"Essas meninas nasceram na mesma madrugada, numa maternidade particular de Santos."
Mariana observou os rostinhos.
"Qual delas sou eu?"
Lúcia hesitou.
"Não posso afirmar olhando para uma fotografia. Mas posso contar o que aconteceu naquela noite."
Antes que continuasse, ouviram passos no corredor.
Lúcia apagou a pequena luminária.
As duas permaneceram imóveis.
Uma voz masculina surgiu do outro lado da porta.
"Dona Beatriz pediu que verificassem este andar."
Era um dos seguranças da mansão.
Mariana segurou a respiração.
Os passos se afastaram.
Lúcia se aproximou da janela.
"Não posso ficar."
"Você não vai embora sem me explicar."
"Procure o livro de ocorrências da antiga Maternidade Santa Cecília, em Santos. A unidade fechou há muitos anos, mas parte dos documentos foi transferida."
"Transferida para onde?"
"Não sei onde estão todos. Eu guardei apenas o que consegui."
Mariana segurou seu braço.
"Quem é minha mãe?"
Lúcia baixou os olhos.
"Uma mulher chamada Helena."
"Helena Oliveira?"
"Naquela época, ela usava outro sobrenome."
"Qual?"
Lúcia abriu a boca.
A porta foi escancarada.
Beatriz entrou acompanhada de dois seguranças.
"Eu sabia!"
Seu olhar passou de Lúcia para Mariana.
"Você não perdeu tempo, não é, sua ingrata?"
Mariana se colocou diante da enfermeira aposentada.
"Não fale assim comigo."
Beatriz ignorou a resposta.
"Essa mulher está proibida de entrar na minha propriedade."
Lúcia ergueu a cabeça.
"Você pode me expulsar, Beatriz. Mas não pode mudar o que fez."
A expressão da milionária ficou perigosa.
"Cuidado com as palavras."
"Eu deveria ter tido cuidado com meu silêncio."
Beatriz apontou para a porta.
"Tirem essa mulher daqui."
Um segurança avançou.
Mariana levantou a mão.
"Ninguém vai encostar nela!"
"Você esqueceu onde está?", perguntou Beatriz.
"Na casa do meu marido. Não numa prisão."
A discussão atraiu Rafael, que apareceu usando uma camisa branca e calça social.
"O que está acontecendo?"
Beatriz imediatamente mudou o tom.
"Seu casamento mal terminou e sua esposa já está trazendo desconhecidos para vasculhar meus quartos."
Rafael olhou para Mariana.
"É verdade?"
"Essa mulher trabalhou na maternidade onde eu nasci."
"Como assim?"
"Ela sabe alguma coisa sobre minha mãe."
Beatriz soltou uma risada sem humor.
"Rafael, pelo amor de Deus. Você vai acreditar numa desconhecida que invade nossa casa de madrugada?"
"Eu quero ouvir o que ela tem a dizer", respondeu Mariana.
"Então vá ouvi-la na rua."
"Mãe!", Rafael repreendeu.
Beatriz voltou-se para ele.
"Você está permitindo que sua esposa me acuse de alguma coisa?"
Rafael passou a mão pelo rosto.
"Mariana, precisamos conversar no nosso quarto."
"Não antes de você ver isso."
Ela mostrou a pulseirinha.
Rafael leu o nome.
"Mariana Albuquerque?"
"Estava guardada aqui."
Beatriz estendeu a mão.
"Isso é uma lembrança antiga da família."
"Com meu nome?"
"Mariana era o nome de uma criança que morreu."
A frase atingiu Mariana como um golpe.
Lúcia deu um passo à frente.
"Mentira."
Beatriz virou-se lentamente.
"Você quer repetir?"
"A menina não morreu."
O silêncio foi absoluto.
Lúcia encarou a milionária.
"Eu estava lá quando trocaram as pulseiras."
Mariana sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
"Trocaram?"
Rafael olhou para a mãe.
"Que pulseiras?"
Beatriz não respondeu.
Lúcia tentou continuar.
"Naquela madrugada, havia duas meninas. Uma delas..."
"Chega!", Beatriz gritou.
Pela primeira vez, Rafael pareceu verdadeiramente assustado com a reação da mãe.
"Por que você está gritando?"
Beatriz respirou fundo.
"Porque essa mulher está tentando destruir nossa família por dinheiro."
Lúcia tirou outro papel da bolsa.
"Eu não quero dinheiro."
Mariana tentou pegar o documento, mas Beatriz foi mais rápida.
Arrancou-o da mão de Lúcia.
"Isso não sai daqui."
Mariana avançou.
"Me devolve!"
O papel se rasgou durante a disputa.
Um pedaço caiu perto dos pés de Rafael.
Ele se abaixou.
Era parte de uma ficha hospitalar antiga.
Havia uma data, o nome da maternidade e uma anotação escrita à mão.
Conferir identificação das recém-nascidas antes da alta.
Rafael olhou para a mãe.
"Por que você está guardando documentos dessa maternidade?"
"Porque sua irmã nasceu lá."
Mariana congelou.
"Camila?"
Beatriz percebeu que havia falado demais.
Lúcia confirmou.
"Camila nasceu naquela noite."
Rafael ergueu os olhos.
"Minha irmã nasceu no mesmo dia que Mariana?"
"Na mesma madrugada", respondeu Lúcia.
Beatriz arrancou o pedaço de papel das mãos do filho.
"Todo mundo para fora. Agora!"
Rafael não se moveu.
"Mãe, você vai explicar isso."
"Não devo explicações a uma mulher que entrou aqui sem autorização."
"Não estou falando dela. Estou falando da Mariana."
Beatriz fitou o filho.
"Você vai escolher uma desconhecida em vez da própria mãe?"
Mariana respondeu antes dele.
"Eu sou a esposa dele. E tenho o direito de saber quem sou."
Beatriz se aproximou tanto que Mariana sentiu seu perfume forte.
"Você deveria agradecer por ter entrado nesta família."
"Eu não pedi favor nenhum."
"Não? Uma moça criada num apartamento pequeno da Vila Mariana, casando com o herdeiro de um império imobiliário? Que coincidência conveniente."
Rafael segurou o braço da mãe.
"Já chega."
Beatriz soltou-se.
"Você vai se arrepender dessa escolha."
Então saiu.
Os seguranças acompanharam Lúcia até a saída, mas Mariana conseguiu pegar seu número de telefone.
Quando ficaram sozinhos, Rafael fechou a porta.
"Por que não me contou que recebeu uma carta?"
"Porque sua mãe me ameaçou."
"Ela tem um jeito difícil."
Mariana soltou uma risada amarga.
"Um jeito difícil? Ela tentou arrancar um documento das minhas mãos!"
"Estou tentando entender."
"Então me ajuda."
Rafael olhou para o berço antigo.
"Minha irmã nasceu prematura. Minha mãe quase nunca fala daquela época."
"Por quê?"
"Ela diz que foi uma gravidez complicada."
Mariana se aproximou.
"Você sabia que eu e Camila nascemos no mesmo dia?"
"Não."
"E nunca achou estranho sua mãe me odiar desde que nos conhecemos?"
Rafael demorou a responder.
"Ela sempre teve dificuldade para aceitar minhas escolhas."
"Isso é muito mais do que desaprovação."
Ele a abraçou.
"Eu prometo que vamos descobrir."
Mariana queria acreditar.
Na manhã seguinte, encontrou Beatriz tomando café na varanda.
A milionária lia o jornal como se nada tivesse acontecido.
Mariana colocou a pulseirinha sobre a mesa.
"Quero a verdade."
Beatriz não ergueu os olhos.
"Bom dia para você também."
"Por que essa pulseira estava no quarto azul?"
"Já respondi."
"Não. Você inventou uma história."
Beatriz fechou o jornal.
"Escute bem, menina. Meu filho pode estar apaixonado, mas paixão passa. Família permanece."
"Minha família também importa."
"Você não sabe nem quem é sua família."
Mariana ficou imóvel.
Beatriz sorriu.
"Viu? É exatamente disso que estou falando."
"Se você sabe alguma coisa, diga."
"Se eu fosse você, aproveitaria a vida confortável que ganhou e esqueceria o passado."
Mariana pegou a pulseira.
"Não vou esquecer."
Beatriz se levantou.
"Então prepare-se para perder tudo."
Naquela tarde, Mariana procurou Vera em Vila Mariana.
A mãe adotiva abriu a porta e imediatamente percebeu que algo estava errado.
"Filha, você devia estar viajando de lua de mel."
"Eu preciso que a senhora pare de mentir."
Vera empalideceu.
Mariana colocou a pulseirinha sobre a mesa.
"Eu nasci na mesma maternidade que Camila Albuquerque?"
Vera começou a chorar.
"Meu Deus..."
"Responde!"
"Eu não sabia que você descobriria assim."
Mariana recuou.
"Então é verdade?"
Vera sentou-se, incapaz de sustentar o próprio peso.
"Eu recebi você quando tinha apenas seis dias de vida."
"Recebeu de quem?"
"De uma mulher que apareceu na minha porta com você nos braços."
"Minha mãe?"
Vera balançou a cabeça.
"Não."
"Quem era?"
Vera cobriu o rosto.
"Beatriz Albuquerque."
Mariana ficou sem respirar.
E Vera completou, entre lágrimas:
"Ela me pagou para criar você com outro nome."
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