"Ela Roubou o Herdeiro do Chefe da Máfia… E Foi Capturada Cinco Anos Depois" Capítulo 1 — O Pequeno Demônio Debaixo da Mesa
O menino debaixo da mesa de Dante Montenegro já havia roubado três brigadeiros, um cartão de acesso e a abotoadura de ouro negro do homem mais perigoso da América do Sul quando decidiu levar também o celular.
Foi esse último movimento que o entregou.
Dante sentiu o aparelho desaparecer do bolso interno do paletó. Não interrompeu a conversa com os representantes europeus, não olhou para os seguranças e não mudou a expressão. Apenas pousou a taça, inclinou-se e arrancou a toalha branca da mesa.
Um par de olhos verde-acinzentados o encarou entre caixas de doces.
O menino tinha o rosto sujo de chocolate, cabelos negros e encaracolados e um paletó azul pequeno demais para esconder os bolsos estufados. Em uma mão, segurava o celular de Dante. Na outra, o quarto brigadeiro da noite.
— Devolva — ordenou Dante.
O garoto enfiou o doce inteiro na boca.
— Você tem muitos. Eu só tenho cinco.
As conversas morreram ao redor deles.
Rafael Moura, chefe da segurança, avançou. O menino puxou a bandeja de sobremesas. Taças, pratos e doces deslizaram sobre a toalha. Dois homens tentaram cercá-lo, mas ele passou entre ambos, saltou sobre uma cadeira e correu na direção do corredor reservado.
Dante o alcançou antes da porta.
Segurou-lhe o pulso com firmeza suficiente para detê-lo, mas sem machucá-lo. O menino girou o corpo, pisou no sapato italiano de Dante e tentou acertar-lhe o joelho.
— Solte-me!
Dante quase respondeu. Então viu o rosto dele por inteiro.
O mesmo maxilar estreito. A mesma linha reta das sobrancelhas. A pequena cicatriz no queixo não estava ali, mas todo o resto parecia retirado de uma fotografia da infância de Dante.
O garoto apertou os lábios e esfregou o polegar direito contra o nó do indicador.
Dante fazia aquilo quando precisava impedir as próprias mãos de revelarem raiva.
Ninguém lhe ensinara o gesto. Nem mesmo Rafael sabia por que ele o repetia.
— Qual é o seu nome? — perguntou Dante.
— Não falo com sequestradores.
— Você roubou meu telefone.
— Eu estava verificando sua segurança.
Rafael disfarçou uma tosse. Dante lançou-lhe um olhar e o salão voltou ao silêncio.
— E qual foi o resultado da verificação?
O menino olhou para os quatro homens armados que o haviam perdido de vista.
— Se eles fossem bons, eu não teria entrado.
A frase atingiu Dante como um disparo.
Ele a pronunciara centenas de vezes. Sempre daquela forma, com a mesma pausa curta antes da palavra “bons”. Era uma das regras que repetia aos homens desde os vinte anos.
Dante abriu os dedos do menino e recuperou o celular. A abotoadura caiu do bolso infantil e rolou pelo mármore. O garoto tentou apanhá-la, expondo a lateral da mão esquerda.
Uma marca pálida em forma de meia-lua aparecia junto ao dedo mínimo.
Dante possuía a mesma marca. Seu pai também a tivera.
— Quem é sua mãe?
A bravura do menino vacilou.
— Isso não é da sua conta.
— Passou a ser quando você entrou em uma área privada, roubou meus objetos e mostrou uma marca da minha família.
O menino arregalou os olhos. Em seguida, tentou morder a mão que ainda prendia seu pulso.
— Beni!
A voz feminina atravessou o salão.
Dante parou de respirar.
Os convidados se viraram para a entrada do salão de gala do Centro de Convenções de Manaus. Uma mulher de vestido verde-escuro estava sob as luzes douradas, com uma mão apoiada no braço de um homem alto de smoking. Seus cabelos castanhos caíam sobre um dos ombros. O rosto estava mais maduro, mais magro, mas não havia dúvida.
Lívia Azevedo estava viva.
Dante conhecia a curva daquela boca. Conhecia a pequena cicatriz junto à sobrancelha direita, adquirida quando uma janela explodira sobre eles em Santos. Conhecia até a maneira como ela transferia o peso para a perna esquerda antes de sacar uma arma.
Cinco anos antes, ele identificara o colar ensanguentado de Lívia entre os destroços de um carro no fundo de uma ribanceira. Passara quarenta e três dias procurando fragmentos do corpo. Construíra uma sepultura vazia quando as águas não devolveram nada.
Agora ela estava diante dele, respirando.
Viva.
E segurava o braço de outro homem.
Lívia soltou Henrique Bastos e avançou. A surpresa desapareceu de seu rosto antes do segundo passo. Quando chegou ao centro do salão, já era outra vez a agente que Dante vira atravessar uma chuva de tiros sem se curvar.
Ela ergueu discretamente a saia do vestido e retirou uma pistola presa à coxa.
Dezenas de seguranças apontaram armas para ela.
— Baixem as armas — disse Dante.
Ninguém obedeceu de imediato. Rafael repetiu a ordem, e os canos desceram.
Lívia manteve a pistola apontada para o chão.
— Solte meu filho.
Meu filho.
As palavras atravessaram Dante com mais violência do que a aparição dela.
Ele olhou novamente para o garoto. Cinco anos. Olhos Montenegro. A marca na mão. O gesto. A arrogância impossível de ensinar.
O menino aproveitou a distração, libertou o pulso e correu para Lívia. Ela guardou a arma e o examinou, tocando-lhe o rosto, os braços e os ombros.
— Ele machucou você?
— Só meu orgulho.
— Eu mandei ficar com Henrique.
— O garçom disse que os brigadeiros daqui eram famosos.
Henrique aproximou-se e colocou a mão nas costas de Lívia. Dante fixou os olhos naquele contato. Algo antigo e brutal despertou dentro dele, mas sua voz saiu baixa.
— Tire a mão dela.
Henrique não se moveu.
— Você não dá ordens a mim.
Rafael deu um passo à frente. Lívia se colocou imediatamente entre os dois homens.
— Beni, vá com Henrique.
— Não — disse Dante.
Lívia virou o rosto para ele.
— Você perdeu o direito de dizer não há cinco anos.
— Eu perdi você há cinco anos.
Por um instante, a máscara dela se partiu. Dor, culpa e algo parecido com saudade atravessaram seus olhos. Então Beni olhou de Dante para a mãe.
— Mamãe… por que ele tem a minha cara?
Nenhum dos convidados ousou respirar.
Lívia apertou a mão do filho.
— Nós vamos embora.
Ela deu dois passos. As portas do salão se fecharam ao mesmo tempo. As travas eletrônicas produziram um estalo pesado, uma depois da outra.
Henrique levou a mão ao paletó. Os homens de Rafael formaram uma barreira sem apontar armas para a criança.
Lívia encarou Dante.
— Abra as portas.
— Durante cinco anos, revirei cidades, portos, fronteiras e sepulturas procurando quem matou você.
— Eu não pedi que procurasse.
— Não. Você preferiu deixar que eu enterrasse uma caixa vazia.
Beni recuou diante da frieza da voz dele. Dante percebeu e conteve o próximo passo. Tudo nele queria arrancar respostas, afastar Henrique e impedir que Lívia desaparecesse outra vez. Mas o menino o observava como se esperasse confirmar uma história terrível.
— Ninguém tocará em vocês — disse Dante. — Mas ninguém sairá até eu saber a verdade.
Lívia soltou uma risada sem humor.
— A verdade nunca foi uma coisa que sua família suportasse.
Dante estendeu a mão.
— Meu telefone.
Beni olhou para a mãe. Depois tirou o aparelho de dentro da própria meia, onde havia escondido um segundo celular idêntico.
Rafael examinou o telefone recuperado anteriormente. Era uma réplica de brinquedo retirada de uma lembrança promocional.
O menino entregou o aparelho verdadeiro, mas Dante viu uma tela aberta antes que ela se apagasse. Beni acessara a pasta criptografada reservada à família Montenegro.
Na tela aparecia uma fotografia de Lívia diante de uma lápide.
O próprio Beni também viu.
— Você enterrou minha mãe?
Dante baixou-se até ficar na altura dele.
— Eu acreditava que ela estava morta.
— Minha mãe disse que Dante Montenegro era um monstro.
Lívia fechou os olhos.
Dante não desviou do menino.
— Talvez ela tivesse razão.
— Então solte a gente.
— Primeiro, sua mãe vai me dizer por que um menino de cinco anos tem meu rosto.
Beni olhou para Lívia, esperando uma resposta. Ela permaneceu imóvel.
Dante se levantou e fez sinal para Rafael abrir apenas a porta da sala privada ao lado do salão.
— Levem os convidados para a saída oposta. Cancelem todos os voos particulares. Fechem o aeroporto executivo e as marinas.
Lívia empalideceu.
— Você não pode fechar Manaus inteira.
Dante sustentou seu olhar.
— Por você, eu já fechei países.
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