"A Noiva de Contrato do Chefe da Máfia Foi Chamada de “Mamãe” Pelo Filho Que Não Falava" Capítulo 3 — Um Casamento Sem Beijo
Elisa chegou ao cartório com a ameaça impressa dentro da bolsa.
Não contara a Dante.
Se mostrasse a mensagem, ele cercaria Júlia de seguranças e transformaria o hospital em uma fortaleza. Talvez fosse necessário. Mas Elisa precisava primeiro descobrir se a ameaça vinha de um inimigo dele ou de alguém interessado em impedir especificamente o casamento.
Do lado de fora do Cartório de Registro Civil do Jardim Paulista, dezenas de repórteres ocupavam a calçada.
"Isso deveria ser discreto", disse Elisa.
Rafael abriu a porta do carro.
"Na família Montenegro, discrição significa menos de cinquenta câmeras."
Ela saiu usando um vestido marfim simples escolhido por conta própria. Recusara os estilistas enviados por Valentina e prendera os cabelos com o broche que pertencera à mãe dela.
Dante esperava na entrada, de terno preto. Nicolas segurava sua mão e usava um pequeno paletó azul-marinho.
O menino soltou o pai assim que viu Elisa.
Correu e abraçou suas pernas.
Os flashes começaram.
Elisa cobriu os olhos dele com a mão e o virou contra seu corpo.
"Sem flash perto da criança", ordenou.
Alguns fotógrafos obedeceram. Outros continuaram.
Dante avançou para a frente deles.
"A próxima câmera que disparar na direção do meu filho será retirada daqui."
O silêncio veio rápido.
Elisa percebeu que ele não precisara ameaçar ninguém diretamente. Sua reputação completava cada frase.
"Está pronta?", perguntou.
"Não."
"Ótimo. Eu também não."
Por um instante, pareciam duas pessoas normais prestes a cometer um erro enorme.
Dentro do cartório, Augusto Montenegro aguardava ao lado de Valentina. Tinha cabelos grisalhos, postura impecável e o sorriso paciente de quem nunca precisava levantar a voz.
"Meu sobrinho sempre gostou de decisões impulsivas", disse ele. "Mas esta superou todas."
Elisa ofereceu a mão.
"Elisa Nogueira."
Augusto não apertou.
"Eu sei quem você é."
Nicolas se escondeu atrás dela.
O gesto foi pequeno, porém Dante notou. Rafael também.
"Ele parece cansado", comentou Augusto. "Talvez devesse ficar comigo durante a cerimônia."
Nicolas agarrou o tecido do vestido de Elisa.
"Ele fica onde escolher", respondeu Dante.
Valentina aproximou-se com uma caixa de veludo.
"Trouxe as alianças da família. Já que tudo aconteceu tão depressa, imaginei que ninguém tivesse cuidado disso."
Elisa abriu a caixa. Duas alianças pesadas, com o brasão Montenegro gravado, brilhavam sob a luz.
"São lindas", disse. "Mas não são nossas."
Valentina inclinou a cabeça.
"Você ainda não entendeu. Nesta família, nada pertence ao casal. Tudo pertence ao nome."
Dante fechou a caixa e a devolveu.
"Rafael."
O segurança entregou outro estojo. Dentro havia duas alianças lisas, sem brasão.
"Foram escolhidas esta manhã", explicou Dante. "Sem autorização do conselho familiar."
Elisa ergueu os olhos para ele. Era um detalhe mínimo, mas significava que ele havia ouvido sua recusa em usar a joia de Bianca.
A cerimônia começou.
O oficial leu os deveres legais do casamento. Elisa respondeu "sim" com a garganta seca. Dante fez o mesmo, sem tirar os olhos dela.
Quando colocou a aliança em sua mão, os dedos dele demoraram um segundo a mais do que o necessário.
Não havia ternura naquele toque.
Também não havia indiferença.
Ao fim, o fotógrafo oficial pediu que se aproximassem.
"Um beijo para a foto."
Elisa e Dante responderam ao mesmo tempo:
"Não."
Nicolas puxou a manga do pai. Apontou para os dois e tocou os próprios lábios.
Algumas pessoas riram.
Dante se inclinou para Elisa.
"Podemos fingir."
"Essa frase resume seu plano inteiro."
"É apenas uma fotografia."
"Para nós. Para ele, não."
Nicolas esperava.
Elisa se abaixou e beijou a testa do menino.
"Hoje somos uma família porque prometemos cuidar uns dos outros. Beijo não prova promessa."
Dante ficou olhando para ela.
Depois se ajoelhou ao lado do filho e também beijou sua testa.
O fotógrafo registrou os três naquele instante.
A imagem circularia por todo o Brasil antes do fim do dia.
Antes de seguirem para o almoço, Marcelo entregou a Elisa uma cópia da certidão. Ela encarou o novo sobrenome impresso ao lado do seu e sentiu uma vertigem estranha. Não era emoção de noiva. Era a consciência de que, a partir daquele instante, qualquer erro seu apareceria nas manchetes ligado ao nome Montenegro.
Uma repórter conseguiu atravessar o bloqueio e gritou da porta:
"Elisa, você se casou por dinheiro?"
Dante virou-se, mas Elisa tocou seu braço antes que ele chamasse os seguranças.
"Sim", respondeu ela, olhando diretamente para a câmera. "Dinheiro paga hospital, comida e teto. O que ele não compra é respeito. Esse ainda terá de ser conquistado pelos dois lados."
O corredor ficou mudo.
Dante não aprovou nem corrigiu a resposta. Apenas ofereceu o braço para que ela atravessasse a multidão. Elisa aceitou, consciente de que aquele pequeno gesto pareceria romântico nas fotografias, embora fosse, naquele momento, uma aliança entre duas pessoas cercadas.
No almoço reservado após a cerimônia, Augusto ergueu uma taça.
"À nova senhora Montenegro. Que ela descubra rapidamente quanto custa permanecer entre nós."
"Eu já descobri", respondeu Elisa. "Está escrito em vinte e oito páginas."
Rafael tossiu para disfarçar uma risada. Dante bebeu um gole de água, mas seus olhos denunciaram divertimento.
Valentina não tentou esconder o desprezo.
"Você realmente acredita que um contrato a torna mãe?"
"Não. E não estou tentando substituir ninguém."
"Nicolas chamou você assim."
"Porque precisava de segurança. Não porque precisava de uma mulher usando o título."
Augusto pousou a taça.
"Uma resposta muito preparada para uma confeiteira."
"Confeiteiras sabem que pressão demais arruína qualquer coisa delicada."
Nicolas derrubou propositalmente uma colher. Quando Elisa se abaixou para pegar, ele colocou um guardanapo dobrado no colo dela.
Dentro havia o desenho de três pessoas. Uma muito alta, uma de vestido e uma pequena no meio.
Acima delas, uma palavra incompleta:
FAMILA.
Elisa corrigiu com suavidade, acrescentando o segundo I.
"Família."
Nicolas sorriu.
Dante observou os dois como se aquela cena fosse mais perigosa que qualquer ameaça do lado de fora.
Após o almoço, Valentina interceptou Elisa no banheiro.
"Dante não ama ninguém desde Bianca."
"Isso não faz parte do meu contrato."
"Mas o dinheiro faz. Quanto ele ofereceu?"
Elisa lavou as mãos.
"Pergunte a ele."
"Eu não preciso. Sei exatamente como homens daquela família compram silêncio."
Elisa virou-se.
"Foi você quem enviou a mensagem sobre minha irmã?"
Pela primeira vez, Valentina perdeu o sorriso.
"Que mensagem?"
A surpresa pareceu genuína. Isso não a tornava inocente, mas tornava o perigo menos simples.
Quando Elisa saiu, encontrou Dante esperando no corredor.
"O que Valentina queria?"
"Saber meu preço."
"E o que respondeu?"
"Que ela perguntasse ao comprador."
Ele chegou mais perto.
"Você não é minha propriedade."
"Explique isso ao contrato de residência obrigatória."
"Aquilo serve à audiência."
"Tudo serve à audiência para você."
O telefone de Dante tocou. Rafael falou do outro lado, e a expressão dele mudou.
"Júlia deu entrada no hospital", disse.
Elisa sentiu o chão desaparecer.
"O quê?"
"Ela teve uma arritmia. Minha equipe já está lá."
Elisa correu para a saída. Dante acompanhou sem tentar detê-la. Nicolas veio atrás, chamando apenas com a respiração curta.
No hospital, Júlia estava consciente. A crise fora controlada, mas o cardiologista decidiu antecipar a internação.
"Eu estraguei seu casamento", brincou a adolescente.
Elisa apertou sua mão.
"Foi a parte mais normal do dia."
Dante permaneceu do lado de fora do quarto com Nicolas. Quando Elisa saiu, encontrou o menino dormindo no colo do pai.
"O pagamento foi feito", disse Dante. "Nada interromperá a cirurgia."
"Obrigada."
Era a primeira vez que agradecia sem ironia.
Ele assentiu.
O celular de Elisa vibrou. Outra mensagem do número desconhecido apareceu.
Havia uma fotografia tirada minutos antes: Júlia no leito, vista através do vidro da porta.
"Agora você entende que podemos alcançá-la. Afaste-se dos Montenegro antes da audiência."
Elisa ergueu os olhos. No fim do corredor, uma mulher com perfume de jasmim acabava de entrar no elevador.
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