"“Domar” o Filho Mais Rebelde do Chefe da Máfia" Capítulo 5 — Não Vai Embora
Dante leu o bilhete de Valentina três vezes.
A caligrafia era inconfundível. A data também. Dois meses antes, ela já dizia a Vicente que se casaria com Dante, embora ele jamais tivesse feito um pedido ou permitido que o assunto fosse anunciado.
“Onde conseguiu isso?”, perguntou pela porta fechada.
Vicente não respondeu.
Beatriz continuou sentada no chão do corredor.
“Ele só vai falar quando acreditar que a resposta não será usada contra ele.”
Dante virou o rosto.
“É meu filho.”
“E acabou de dizer que o senhor nunca acredita nele.”
A frase feriu mais que uma acusação. Dante devolveu o papel a Rafael.
“Descubra quando Valentina esteve aqui e quem permitiu que ela ficasse sozinha com Vicente.”
“Hoje à noite há o evento da Fundação Montenegro”, lembrou Rafael. “Ela estará lá.”
Dante olhou para a porta.
“Meu filho também.”
Beatriz se levantou.
“Talvez não devesse ir.”
“Não vou esconder Vicente porque alguém o ameaçou.”
“Não estou falando de esconder. Estou perguntando se ele quer ir.”
Dante percebeu que não sabia.
Horas depois, Vicente apareceu no alto da escada usando um pequeno terno azul-marinho. Teresa ajeitava sua gravata, enquanto ele mantinha a expressão fechada.
Beatriz esperava no saguão com um vestido preto simples que Teresa encontrara no armário das funcionárias. Não parecia uma convidada. Também não parecia alguém tentando se transformar em uma.
“Ela vai?”, perguntou Vicente.
“Vai trabalhar”, respondeu Dante.
“Não preciso dela.”
“Então não haverá problema.”
Vicente desceu. Ao passar por Beatriz, murmurou:
“Hoje termina a aposta.”
“Ainda faltam dois dias.”
“Você vai embora antes.”
“Pretende derramar chocolate nos convidados?”
Ele quase sorriu, mas conteve a reação.
O evento ocupava o salão de um hotel nos Jardins. Empresários, políticos e famílias ligadas à Fundação Montenegro circulavam sob lustres de cristal. Fotógrafos esperavam junto ao painel de entrada.
Assim que Dante apareceu, os flashes começaram.
Vicente segurou a mão do pai. No primeiro minuto, suportou. No segundo, ficou rígido. No terceiro, soltou Dante e cobriu os ouvidos.
“Chega”, ordenou Dante aos fotógrafos.
Ninguém ouviu. Repórteres chamavam seu nome. Uma mulher pediu que Vicente olhasse para a câmera. Outro flash explodiu diante do menino.
Ele recuou.
Beatriz viu sua respiração acelerar. A mão direita fechava e abria junto à perna. Não era birra. Era pânico.
Ela atravessou o espaço e ficou entre Vicente e as câmeras.
“Afastem-se.”
Um fotógrafo reclamou que ela bloqueava a imagem. Beatriz abriu os braços, cobrindo o menino.
Dante segurou um homem pelo pulso antes que ele levantasse a câmera novamente.
“Ela mandou afastar.”
O tom baixo foi mais eficiente que um grito. Rafael e os seguranças formaram uma barreira.
Vicente, porém, já corria.
Entrou no salão, derrubou uma bandeja e se escondeu sob uma mesa coberta por toalha branca. Os convidados olharam. Valentina Ferraz foi a primeira a se aproximar.
Usava um vestido branco elegante e o sorriso cuidadoso de quem sabia onde estavam todas as câmeras.
“Vicente, querido, venha com a tia Valentina.”
Ela levantou a toalha.
O menino chutou sua mão.
“Não toca em mim!”
O salão silenciou.
Valentina retirou a mão, humilhada.
“Dante, ele precisa aprender limites.”
Beatriz chegou e se ajoelhou a alguns passos da mesa.
“Não levante a toalha”, disse a Valentina.
“Ele não pode ficar aí.”
“Pode por alguns minutos.”
“Você é funcionária. Não me dê ordens.”
“Então considere uma informação: quanto mais gente olhar, pior ficará.”
Dante aproximou-se. Vicente gritou assim que viu os sapatos do pai.
“Todo mundo para trás!”, ordenou Beatriz.
Dante não gostou. Ainda assim, recuou.
Beatriz sentou no chão sem tocar na toalha.
“Vicente, não vou puxar você daí.”
O menino respirava depressa.
“Manda eles embora.”
“Seu pai já está fazendo isso.”
Dante ergueu a mão. Rafael conduziu os curiosos para o outro lado do salão. A música parou. Restaram apenas os ruídos baixos do serviço.
Beatriz colocou a própria mão sobre o peito.
“Escuta minha voz. Puxa o ar devagar.”
“Não consigo.”
“Consegue um pouco. Não precisa conseguir tudo.”
Ela respirou de forma audível. Uma vez. Duas. Na terceira, a respiração de Vicente tentou acompanhá-la.
Valentina cruzou os braços.
“Isso é ridículo. Ele está fazendo uma cena para ter atenção.”
Beatriz ergueu os olhos.
“Então pare de dar a ele uma plateia.”
O rosto de Valentina mudou.
“Dante, vai permitir que uma empregada fale comigo assim?”
Dante observava o filho sob a mesa.
“Agora, vou permitir qualquer coisa que o faça respirar.”
Beatriz não demonstrou vitória. Continuou guiando Vicente.
Depois de alguns minutos, uma pequena mão apareceu sob a toalha. Os dedos encontraram a barra do vestido dela e se fecharam no tecido.
Beatriz permaneceu imóvel.
Vicente saiu devagar. O rosto estava molhado, mas ele não chorava mais. Continuou segurando o vestido como se fosse uma corda sobre um abismo.
Dante deu um passo.
O menino se encolheu.
Beatriz fez sinal para que ele esperasse.
“Quer sair daqui?”, perguntou ela.
Vicente confirmou com a cabeça.
“Você pode pedir.”
Ele apertou o tecido.
“Me leva.”
Beatriz se levantou. Não o carregou. Ofereceu a mão, permitindo que ele escolhesse. Vicente segurou.
No corredor reservado, longe das câmeras, Dante tentou se aproximar outra vez.
“Filho…”
“Não.”
“Ele precisa de silêncio”, disse Beatriz.
“Eu sei do que meu filho precisa.”
“Então por que o trouxe sem perguntar se queria vir?”
Dante ficou rígido.
“Este evento existe em nome da mãe dele.”
“Isso não obriga uma criança a suportar algo que a machuca.”
Valentina surgiu no corredor.
“Você está passando dos limites.”
Beatriz virou-se.
“Não. Estou impedindo que vocês passem por cima dos limites dele.”
Vicente escondeu-se parcialmente atrás dela.
Dante viu. Durante dois anos, o filho procurara proteção apenas nele. Agora escolhera uma mulher que conhecia havia quatro dias.
Aquilo despertou ciúme, alívio e algo mais difícil de admitir.
“Rafael, prepare o carro”, ordenou.
Valentina segurou seu braço.
“Você vai abandonar o evento por causa de uma birra?”
Dante olhou para a mão dela até que fosse retirada.
“Vou sair porque meu filho pediu.”
No estacionamento, Vicente soltou Beatriz por um instante. Quando ela deu um passo em direção ao segundo carro, ele agarrou o avental discreto que usava sobre o vestido.
“Não vai embora.”
A voz saiu tão baixa que Dante quase não ouviu.
Beatriz se agachou.
“Não vou. Mas você precisa respirar comigo de novo.”
Vicente obedeceu. Quando conseguiu entrar no carro, sentou ao lado dela, deixando Dante do outro lado.
Durante o trajeto, adormeceu com a cabeça encostada no braço de Beatriz.
Dante observou pelo reflexo da janela. Ela não acariciava o menino para criar intimidade diante dele. Apenas permanecia imóvel para não acordá-lo.
Na mansão, Beatriz ajudou Vicente a trocar o terno pelo pijama. Ele recusou que Teresa entrasse e só permitiu que Dante permanecesse à porta.
Antes de deitar, devolveu a fotografia amassada de Beatriz.
O rosto continuava sem o X preto.
“A aposta acaba amanhã”, ele disse.
“Eu sei.”
“Se ganhar, vai embora mesmo assim?”
“Não decidi.”
A honestidade o assustou mais que uma promessa falsa.
Vicente puxou o cobertor.
“Valentina disse que você vai.”
Beatriz sentou na beirada da cama.
“Quando?”
“Antes de você chegar.”
“Ela nem me conhecia.”
“Ela disse que todas vão embora.”
Dante entrou no quarto.
“O que mais Valentina disse?”
Vicente olhou para o pai, depois para Beatriz. Seus dedos buscaram a mão dela, mas pararam no meio do caminho.
Beatriz não o tocou. Esperou que escolhesse.
Ele segurou dois dedos dela.
“Disse que quando casar com você vai me mandar para um internato.”
Dante perdeu a cor.
Vicente continuou, quase num sussurro:
“Ela disse que você vai ter outros filhos e não vai precisar mais de mim.”
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