"“Domar” o Filho Mais Rebelde do Chefe da Máfia" Capítulo 4 — O Quarto Trancado
Dante chegou ao corredor antes de todos.
A porta do quarto de Lívia estava fechada, mas a luz de segurança acima dela piscava. Rafael tentou a maçaneta.
“Trancada por dentro.”
“Vicente!”, chamou Dante. “Abra a porta.”
Nenhuma resposta.
Teresa levou a mão ao peito. O quarto permanecera fechado desde a morte de Lívia, dois anos antes. Dante proibia funcionários de entrar. Nem a limpeza era feita sem sua presença.
“Como ele conseguiu a chave?”, perguntou Rafael.
Dante verificou o bolso interno do paletó. O pequeno estojo estava vazio.
Beatriz chegou por último. Não correu até a porta nem chamou o menino. Observou o corredor, o tapete deslocado e uma cadeira encostada perto do aparador.
“Ele pegou quando entrou no escritório com a camisa”, concluiu.
Dante bateu na madeira.
“Vicente, abra agora.”
Do outro lado, algo caiu.
Teresa empalideceu.
“Tem objetos de vidro lá dentro.”
Rafael fez sinal para dois seguranças. Dante autorizaria que arrombassem quando Beatriz se aproximou.
“Se quebrarem a porta, ele vence.”
Dante virou-se lentamente.
“Meu filho está sozinho num quarto trancado.”
“E esperando que todos entrem em pânico.”
“Não é hora para seus métodos.”
“Foi exatamente para isso que ele planejou.”
Beatriz mostrou a lista. A quarta prova estava preparada antes mesmo de ela encontrar o papel.
“Ele quer que o senhor pense que eu perdi o controle. Se arrombar a porta, ele aprende que basta se colocar em risco para mandar em todos.”
“E o que sugere?”
“Que eu espere.”
Dante soltou uma risada sem humor.
“Você não conhece o que existe naquele quarto.”
“Mas conheço o menino que entrou.”
Ela se sentou no chão, encostada na parede oposta. Abriu a pequena sacola que carregava e retirou um pote de pudim.
“Vicente”, disse em tom normal. “Eu trouxe a sobremesa.”
Silêncio.
Beatriz abriu a tampa. O perfume de leite condensado e caramelo espalhou-se pelo corredor.
“Era sua. Agora é minha.”
Uma voz abafada veio do outro lado.
“Você não pode comer.”
“Posso. Está comigo.”
Dante olhou para ela como se tivesse enlouquecido.
Beatriz provou uma colherada.
“Está ótimo.”
“É meu!”, gritou Vicente.
“Era.”
Houve passos rápidos. A maçaneta se mexeu, mas a porta não abriu.
“Vai embora!”, ordenou ele.
“Depois que terminar o pudim.”
“Eu vou quebrar tudo.”
“Então vai ficar sem pudim e terá muito para arrumar.”
Dante se abaixou junto dela.
“Se ele tocar nas coisas da mãe…”
“O senhor tem medo do que ele pode quebrar ou do que pode sentir?”
A pergunta endureceu o rosto dele.
“Não fale da minha mulher.”
“Estou falando do seu filho.”
Dante levantou-se. Por alguns segundos, Beatriz achou que seria retirada dali. Ele, porém, fez sinal para que os seguranças recuassem.
Cinco minutos passaram.
Beatriz comeu devagar. Teresa e Rafael permaneceram em silêncio. Dante caminhava de um lado para o outro.
Finalmente, a fechadura girou.
Vicente abriu apenas uma fresta. Seus olhos estavam vermelhos, embora não houvesse lágrimas no rosto.
“Ainda tem?”
Beatriz mostrou o fundo do pote.
“Uma colher.”
“Me dá.”
“Abra a porta.”
Ele abriu.
Dante tentou avançar, mas Beatriz levantou a mão. Não tocou nele; apenas pediu um instante com o olhar.
Ela entregou a última colher ao menino.
“Agora vai sair?”
Vicente comeu e devolveu o pote.
“Não.”
“Então eu entro.”
“Ninguém entra.”
“Você entrou.”
“É o quarto da minha mãe.”
“Por isso mesmo não deveria estar sozinho.”
A resposta o desarmou. Vicente recuou. Beatriz entrou, seguida por Dante.
O quarto parecia congelado no tempo. Vestidos permaneciam no armário aberto. Frascos de perfume cobriam a penteadeira. Sobre a cama havia uma fotografia de Lívia abraçada ao filho ainda bebê.
No chão, um porta-retratos estava quebrado.
Vicente apontou imediatamente para Beatriz.
“Foi ela.”
Dante olhou para os cacos, depois para o filho.
“Ela acabou de entrar.”
Vicente apertou a boca. A mentira não funcionara.
Beatriz se agachou, mantendo distância dos vidros.
“Você se cortou?”
“Não.”
“Mostre as mãos.”
Ele obedeceu. Havia apenas uma linha vermelha no dedo, superficial. Beatriz pediu a Teresa um curativo. Não o repreendeu diante de todos.
“Eu não queria quebrar”, murmurou Vicente.
“Mas quebrou.”
“Você vai contar?”
Dante estava a dois passos deles. Vicente sabia que ele ouvira, mas a pergunta era dirigida a Beatriz.
“Você vai contar”, disse ela. “Depois vamos recolher com ajuda. Vidro não é coisa para criança limpar sozinha.”
“Ontem você mandou.”
“Ontem era chocolate. Consequência não é castigo sem pensar.”
Dante absorveu a frase. Ele próprio alternava entre permitir tudo e impor punições enormes. Beatriz fazia algo que ele não aprendera: ajustava o limite ao perigo.
Enquanto Teresa cuidava do dedo, Beatriz observou marcas no chão. O tapete sob a cama fora puxado recentemente.
“O que você escondeu ali?”
Vicente virou o rosto.
Ela se ajoelhou e puxou uma caixa de madeira. Dentro havia doze fotografias de mulheres. As antigas babás.
Cada rosto estava coberto por um X preto.
No fundo da caixa havia uma décima terceira fotografia, tirada no dia anterior. Beatriz aparecia na sala, com o uniforme manchado de chocolate.
O marcador preto estava ao lado.
Mas seu rosto ainda não havia sido riscado.
“Por que guarda isso?”, perguntou Dante.
Vicente arrancou a fotografia das mãos de Beatriz.
“Não guardo.”
“A caixa estava debaixo da cama da sua mãe.”
“Elas foram embora.”
“Você as expulsou”, disse Dante.
“Elas queriam ir.”
A voz do menino falhou. Ele apertou a foto de Beatriz até amassá-la.
“Todo mundo quer.”
Beatriz compreendeu então que os X não eram troféus. Eram um registro de abandonos confirmados.
Ela não tentou abraçá-lo.
“Ainda não pode riscar a minha.”
Vicente a encarou.
“Por quê?”
“A aposta não terminou.”
“Vai terminar.”
“Faltam três dias.”
Ele guardou a fotografia no bolso.
Dante mandou todos saírem, mas Vicente segurou a manga de Beatriz por um instante. Soltou antes que alguém comentasse.
No corredor, Dante fechou a porta do quarto da esposa.
“Você sabia que ele guardava as fotografias?” Beatriz perguntou.
“Não.”
“Sabia que vinha aqui?”
“Não.”
“Então talvez devesse parar de contratar pessoas para observá-lo e começar a observá-lo você mesmo.”
Dante se voltou para ela, ferido e furioso.
“Você está nesta casa há quatro dias.”
“E já sei onde ele vai quando sente falta da mãe.”
Antes que ele respondesse, Rafael apareceu com o telefone na mão.
“Localizei a décima segunda babá. Daniela recebeu cinquenta mil reais depois de sair daqui.”
“De quem?”, perguntou Dante.
Rafael olhou para Beatriz antes de responder.
“Da empresa de Valentina Ferraz.”
Dentro do quarto, algo raspou contra a porta.
Vicente estava ouvindo.
E, ao escutar o nome de Valentina, deixou a fotografia de Beatriz cair no chão.
Beatriz voltou para recolhê-la. Antes que alcançasse o papel, Vicente abriu a porta apenas o suficiente para mostrar o rosto.
“Você conhece Valentina?” ela perguntou.
Ele não respondeu.
“Foi ela quem deu as fotos para você?”
Vicente fechou a porta, mas não conseguiu girar a chave antes que Dante segurasse a maçaneta do lado de fora.
“Filho, preciso que fale comigo.”
“Você nunca acredita.”
A frase atravessou o corredor. Dante retirou a mão da maçaneta.
Beatriz se sentou novamente no chão, sem tentar entrar.
“Eu ainda não sei no que acreditar”, disse ela. “Mas posso ouvir.”
Houve um longo silêncio.
Por baixo da porta, Vicente empurrou um pedaço de papel. Era o verso de outra fotografia. Nele, uma mulher escrevera à mão:
“Quando eu me casar com seu pai, ninguém mais vai tolerar essas brincadeiras.”
A assinatura trazia apenas a letra V.
Dante pegou o bilhete. Reconheceu imediatamente a caligrafia de Valentina Ferraz.
Ainda assim, o detalhe que fez seu sangue esfriar estava na data: a mensagem fora escrita dois meses antes de ele sequer considerar publicamente um casamento com ela.
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