"“Domar” o Filho Mais Rebelde do Chefe da Máfia" Capítulo 1 — Você Sujou. Você Limpa.
A tigela de chocolate virou antes que Beatriz Nascimento conseguisse pousar a bandeja.
O líquido grosso desceu pela frente do uniforme azul-claro, manchou o avental e pingou no tapete branco da sala de refeições. Vicente Montenegro continuou com a mão no fundo da tigela, observando o estrago com uma tranquilidade que não combinava com seus seis anos.
“Pode ir embora.”
As duas funcionárias paradas junto à porta prenderam a respiração. Teresa Almeida, governanta da mansão havia vinte e três anos, apertou os lábios.
Beatriz olhou primeiro para o uniforme. Depois para o tapete. Por último, para o menino sentado à mesa comprida demais para uma criança sozinha.
Vicente tinha cabelos negros, olhos escuros e uma expressão que parecia ter sido copiada do pai. A diferença era que Dante Montenegro não precisava derrubar chocolate para expulsar alguém. Bastava olhar.
“Você não ouviu?”, perguntou Vicente. “Eu mandei você ir embora.”
Beatriz retirou uma toalha de pano da bandeja. Não limpou o avental. Não tocou no tapete. Colocou a toalha diante do menino.
“Você sujou. Você limpa.”
Teresa deu um passo à frente.
“Beatriz…”
“Ela é empregada”, disse Vicente, sem desviar os olhos. “Ela limpa.”
“Sou empregada.” Beatriz puxou a cadeira ao lado e sentou. “Mas não sou a sua empregada particular. E mesmo que fosse, não limparia algo que você derrubou de propósito.”
O menino empurrou a toalha para o chão.
“Meu pai vai demitir você.”
“Talvez.”
“Todo mundo tem medo dele.”
“Isso não muda quem derrubou o chocolate.”
Vicente estreitou os olhos. As outras mulheres costumavam pedir calma, oferecer doces ou prometer que não contariam nada. Uma delas chorara. Outra gritara. A última deixara a mansão sem buscar a bolsa.
Aquela mulher apenas esperava.
“Eu não vou limpar.”
“Então o chocolate fica aí.”
“Você vai ficar com o uniforme sujo.”
“Tenho outro.”
“E o tapete custa vinte mil reais.”
“Não fui eu quem comprou.”
Um ruído baixo veio da escadaria. Teresa baixou os olhos imediatamente. As funcionárias endireitaram a postura.
Dante Montenegro estava no terceiro degrau.
Vestia um terno preto sem gravata. Alto, ombros largos, cabelos negros levemente ondulados e a barba curta desenhando o rosto anguloso. Não parecia um homem que acabara de entrar na sala. Parecia alguém que estivera ali tempo suficiente para ouvir tudo.
Beatriz se levantou.
Vicente não demonstrou surpresa.
“Pai, demite ela.”
Dante desceu os degraus devagar. Seu olhar passou pelo chocolate no uniforme, pelo tapete e pela toalha caída.
“Por quê?”
“Ela não quer trabalhar.”
“Isso não é verdade”, respondeu Beatriz.
Teresa fechou os olhos por um instante. Funcionários não interrompiam Vicente. Muito menos contradiziam o filho diante de Dante.
Dante parou do outro lado da mesa.
“Explique.”
“Seu filho virou a tigela de propósito e quer que eu limpe.”
“É o seu trabalho.”
Beatriz sustentou o olhar dele.
“Meu trabalho é na lavanderia. Teresa pediu que eu trouxesse o café porque a funcionária da copa se queimou. Mesmo se limpar esta sala fizesse parte da minha função, não ensinaria uma criança a destruir as coisas para obrigar outra pessoa a recolher.”
O silêncio ficou pesado.
Vicente sorriu de lado, convencido de que ela acabara de perder o emprego.
Dante apoiou as mãos na cadeira diante dele.
“Pegue a toalha, Vicente.”
O sorriso desapareceu.
“Não.”
“Seu pai mandou”, disse Beatriz.
Dante virou o rosto para ela.
“Não preciso que repita minhas ordens.”
“Então não repito.”
Ela se calou sem baixar a cabeça. Dante estava acostumado a medo disfarçado de respeito. Aquilo era diferente. Beatriz não o provocava. Apenas não se encolhia.
Vicente cruzou os braços.
“Quero outra babá.”
“Ela não é sua babá”, respondeu Teresa.
“Ainda não”, disse Dante.
Beatriz franziu a testa.
Dante se aproximou do filho.
“Doze babás em cinco meses. Você jogou tinta em uma, trancou outra na despensa e disse à última que eu mandaria cortar o cabelo dela.”
“Ela acreditou.”
“E foi embora.”
Por um segundo, algo atravessou o rosto do menino. Não era vitória. Parecia confirmação.
Beatriz percebeu.
Vicente não comemorava quando alguém ia embora. Apenas verificava que estava certo.
Dante recolheu a toalha do chão e colocou novamente diante do filho.
“Limpe.”
Vicente olhou para Beatriz. Ela não sorriu. Não demonstrou satisfação. Também não ofereceu ajuda.
Ele pegou a toalha com força e esfregou a mesa. Empurrou o chocolate para a borda, piorando o estrago.
“Comece pelo meio”, orientou Beatriz. “Devagar.”
“Você disse que não ia mandar em mim.”
“Não disse isso. Disse que você limparia.”
Dante quase sorriu. Quase.
Quando a mesa ficou limpa, Vicente jogou a toalha na bandeja.
“Pronto.”
Beatriz apontou para o tapete.
“Ainda não.”
O menino encarou o pai, esperando ser dispensado. Dante não interveio.
Vicente se ajoelhou e pressionou a toalha sobre a mancha. Beatriz buscou água morna e mostrou como retirar o excesso sem espalhar.
Ela não fez por ele. Ficou ao lado.
Quando terminaram, o uniforme de Beatriz continuava arruinado, mas o tapete estava quase limpo.
“Agora posso ir?”, perguntou Vicente.
“Pode tomar café”, respondeu ela. “Se ainda quiser.”
Ele olhou para a tigela vazia.
Beatriz colocou pão, frutas e queijo em outro prato. Não lhe deu chocolate novo.
Vicente esperou que ela cedesse. Ela não cedeu.
Comeu uma fatia de mamão em silêncio.
Dante observou tudo. Havia pago salários absurdos, contratado especialistas e aceitado exigências ridículas. Todas tentavam conquistar Vicente depressa. Beatriz não tentara ser amada. Também não o tratara como um monstro.
Ela simplesmente estabelecera um limite e permanecera ali.
Depois do café, Beatriz levou a bandeja para a cozinha. Dante a seguiu.
“Quanto você ganha na lavanderia?”
“O valor do contrato temporário.”
“Teresa vai triplicar.”
“Por quê?”
“A partir de hoje, você acompanha Vicente durante o dia.”
Beatriz pousou a bandeja.
“Não.”
Teresa, que entrava atrás deles, parou.
Dante pareceu não compreender a palavra.
“Não foi um convite.”
“Então é uma ordem ruim. Não sou babá.”
“Nenhuma das que tinham diploma durou uma semana.”
“Talvez porque seu filho não precise de outra pessoa tentando agradá-lo.”
Os olhos de Dante endureceram.
“Cuidado.”
“O senhor perguntou por que eu não quero. Estou respondendo.”
Antes que Dante falasse, um pequeno ruído veio do corredor. Vicente estava escondido atrás da porta, ouvindo.
Beatriz o viu, mas não o denunciou.
“Uma semana”, disse Dante. “Depois decide se continua.”
“Eu decido agora.”
“Quatro vezes o seu salário.”
Beatriz pensou na conta de aluguel vencida e nos remédios da mãe. O número faria diferença. Uma diferença perigosa.
“Uma semana”, aceitou. “Mas não vou mentir para ele, não vou aceitar agressão e não vou obedecer a uma criança porque ela tem o sobrenome Montenegro.”
Dante se aproximou o suficiente para que a ameaça em sua presença fosse impossível de ignorar.
“E não vai esquecer quem é o pai dele.”
“É justamente o que espero que o senhor também não esqueça.”
Dante ficou imóvel.
No corredor, Vicente arregalou os olhos.
Beatriz pegou a bandeja e saiu. Ao passar pela porta, encontrou o menino esperando.
“Você aceitou?”, perguntou ele.
“Por uma semana.”
Vicente inclinou a cabeça.
“Você não dura três dias.”
Beatriz continuou andando.
“Então vai ser uma semana longa para nós dois.”
Atrás dela, Vicente não sorriu.
Mas, pela primeira vez desde a morte da mãe, pareceu interessado no dia seguinte.
Naquela noite, Dante encontrou sobre a mesa a toalha que Vicente usara para limpar o chocolate. Estava dobrada de maneira desajeitada, como se mãos pequenas tivessem tentado imitar Beatriz. Ele passou o polegar pela mancha que ainda restava e percebeu que, pela primeira vez em meses, o filho havia terminado o dia sem perguntar qual seria a próxima babá.
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