"Naquela Noite, o Bilionário Me Escolheu" Parte 3 — O Beijo e a Voz
Parte 3 — O Beijo e a Voz
Puxei a cadeira.
“Senta.”
Henrique obedeceu.
Na noite em que nos conhecemos, eu teria achado impossível mandar aquele homem fazer qualquer coisa.
Agora não suportaria ouvir a história olhando para cima.
Coloquei a fotografia entre nós.
“Meu padrasto disse que ela foi embora com outro homem. Que cansou de ter uma filha.”
Henrique fechou os olhos por um instante.
“Osvaldo mentiu.”
O nome na boca dele me fez gelar.
“Você conhece Osvaldo?”
“Sei quem ele é.”
“Então começa daí.”
Ele apoiou os antebraços na mesa.
“Teresa trabalhava como voluntária no Santa Clara. Ajudava mulheres que chegavam à região com promessa de emprego e acabavam sem documentos, sem dinheiro e sem poder ir embora.”
Lembrei do portão dos fundos da nossa casa.
Das mulheres que Osvaldo mandava esperar na garagem.
Da minha mãe fechando a porta da cozinha para discutir com ele.
Eu tinha aprendido a assistir à televisão com o volume alto.
“Ele fazia isso?”
Henrique assentiu.
“A empresa em que eu trabalhava tinha negócios com a transportadora dele. Eu encontrei pagamentos que não faziam sentido. Teresa procurou alguém que pudesse explicar os registros.”
“Você.”
“Eu tinha vinte e dois anos. Trabalhava no financeiro e achava que entendia tudo.”
“E ela mostrou que não entendia.”
Um sorriso triste passou pelo rosto dele.
“Bem rápido.”
Olhei para a fotografia.
Minha mãe tinha um jeito de apertar os lábios quando desconfiava de uma resposta. Eu fazia igual.
“Você estava apaixonado por ela?”
Henrique me encarou, surpreso.
“Não.”
“Estou perguntando.”
“Ela me tratava como um rapaz que precisava tomar jeito. E tinha razão.”
Meu rosto esquentou.
“Certo.”
Ele não comentou meu constrangimento.
Agradeci em silêncio.
“Combinamos uma entrega de documentos no Santa Clara. Eu deveria levar alguns registros. Antes de sair, recebi uma ameaça contra meu irmão.”
“E não foi.”
“Não cheguei na hora combinada.”
“Ela sabia da ameaça?”
“Sabia que estavam tentando me intimidar. Não sabia que eu ia atrasar.”
“Depois?”
Henrique olhou para a janela.
“Houve um incêndio naquela noite.”
Minha mão se fechou sobre a fotografia.
Ele voltou a me olhar.
“Ainda há muita coisa nos documentos. Não vou te dar uma versão incompleta e pedir que aceite.”
“Mas acha que ela morreu.”
“Passei muitos anos acreditando nisso.”
A resposta me deixou sem chão.
Ele afastou a cadeira, mas não se aproximou.
“Lívia, eu sinto muito.”
Eu queria continuar perguntando. Também queria que ele não dissesse mais nada.
Olhei de novo para a foto.
Foi quando percebi as marcas no canto.
Três estrelas pequenas, desenhadas a caneta.
Virei o papel.
Quando faltar luz, procure as estrelas.
Abaixo, um número de telefone antigo e um sobrenome: Mendonça.
Passei o polegar sobre a frase.
“Ela desenhava isso nos meus cartões.”
Henrique se inclinou.
“As estrelas?”
“Uma para ela. Uma para mim. E uma para quem precisasse achar o caminho de casa.”
Fotografei o verso.
“Temos que procurar essa pessoa.”
Caio fez as primeiras ligações enquanto eu separava outras imagens. Em duas delas apareceu o mesmo sobrenome, associado a recibos de transporte de móveis.
No fim da tarde, ele encontrou a filha de um antigo funcionário do centro.
O pai havia morrido. Ela continuava pagando um pequeno espaço onde guardava caixas de antigas voluntárias.
O telefone do recibo estava desativado, mas o nome tinha levado ao endereço certo.
A mulher autorizou a abertura do compartimento e enviou os dados para o responsável.
“Podemos ir amanhã”, Caio disse.
“Hoje”, respondi.
Henrique olhou para mim.
“O local fecha em duas horas.”
“Então vamos.”
Antes, eu precisava passar na Vértice. Minha carteira de documentos e um par de tênis tinham ficado na gaveta do vestiário. Caio sugeriu buscar, mas eu queria agradecer a Márcia pessoalmente.
Henrique foi comigo.
Na porta, senti os olhos do funcionário acompanharem nossa chegada.
Dessa vez, ninguém olhou para o meu tênis.
Eu odiava saber por quê.
Enquanto Márcia buscava a chave do armário, esperei perto do bar vazio. Um homem de camisa azul me reconheceu.
Ele organizava algumas caixas com um funcionário. Parecia fornecedor ou conhecido da casa.
“Você é a moça do show.”
“Sou.”
O olhar dele passou por Henrique, que atendia uma ligação a alguns metros.
“Subiu rápido, hein?”
Meu rosto esquentou.
Mas minha voz saiu firme.
“Desci do palco. O resto foi você que inventou.”
Ele soltou uma risada.
“Só estou brincando.”
“Então melhora a piada.”
Márcia apareceu na porta com a chave.
Henrique encerrou a ligação.
“O que aconteceu?”
O homem abriu um sorriso fácil.
“Nada. Estava conversando com sua convidada.”
“Comigo”, corrigi. “Pode falar olhando para mim.”
Henrique parou ao meu lado.
Não me tocou.
O homem deu de ombros.
“Não sabia que precisava pedir autorização.”
“Não precisa”, eu disse. “Só precisa saber quando parar.”
Ele olhou para Henrique, esperando cumplicidade.
Encontrou outra coisa.
“Eu também fui grosseiro com a Lívia na noite em que ela veio procurar trabalho”, Henrique falou. “Ela não tinha feito nada para merecer. Eu estava errado.”
A vergonha mudou de lado.
O homem abriu a boca.
Henrique continuou, sem elevar a voz:
“E não quero repetir esse erro permitindo que façam o mesmo aqui.”
Márcia me entregou a chave.
Eu peguei antes que minhas mãos denunciassem o efeito daquilo.
No carro, esperei Caio levantar a divisória entre os bancos.
“Você podia ter me deixado terminar.”
“Eu deixei.”
“Falou logo depois.”
“Porque também tinha algo para dizer.”
Virei o rosto para ele.
“Vai pedir desculpa na frente de toda pessoa que aparecer?”
“Se for necessário.”
Aquilo desarmou minha irritação.
Não completamente.
O suficiente para eu fazer a pergunta que evitava desde a cozinha.
“Você trata assim todo mundo que sua consciência manda ajudar?”
Henrique ficou quieto.
“É uma pergunta séria”, acrescentei. “Você olha para mim e lembra dela?”
“No começo, sim.”
Doeu mais do que eu esperava.
Olhei para a janela.
“Entendi.”
“Não terminou.”
“Pode terminar.”
Ele se aproximou apenas o suficiente para eu não conseguir fingir que a conversa era sobre outra pessoa.
“Lembro de Teresa quando vejo as fotografias. Quando encontro o nome dela nos documentos. Quando você fala da sua infância.”
Esperei.
“Quando você entra na cozinha descalça e começa a discutir o preço de um ovo, eu penso em você.”
Meu coração deu uma batida errada.
“Isso foi estranhamente específico.”
“Porque aconteceu.”
“E as roupas?”
“Escolhi mal.”
“Escolheu muito mal.”
“Estou começando a desconfiar.”
Eu ri antes de conseguir evitar.
Ele olhou para minha boca.
Depois voltou aos meus olhos.
“A gratidão que devo à sua mãe não explica o que acontece quando você está perto.”
Fiquei sem uma resposta inteligente.
Pela primeira vez desde que o conhecera, aquilo me pareceu um problema agradável.
O depósito ficava numa área de galpões, longe das fachadas bonitas da cidade. O responsável conferiu as autorizações, nos acompanhou até um corredor e abriu o compartimento.
Caio ficou conversando com ele sobre os recibos.
Eu entrei primeiro.
Reconheci a cadeira antes de qualquer outra coisa.
Madeira escura.
Um dos braços gasto onde eu costumava bater uma colher.
Uma borboleta entalhada no encosto.
Meu avô tinha feito aquela cadeira para mim.
Eu me ajoelhei.
Passei a mão pela borboleta.
“Ela disse que tinha jogado fora.”
Henrique ficou atrás de mim.
“Quem?”
“Minha mãe, antes de desaparecer. Disse que estava velha demais.”
Agora percebia que talvez tivesse apenas tentado guardar alguma coisa nossa longe de Osvaldo.
Sobre um baú havia um casaco azul.
Faltava um botão.
Eu o puxei contra o peito antes de decidir fazer isso.
O tecido não cheirava mais a ela.
Ainda assim, fiquei esperando sentir o abraço.
Henrique se agachou ao meu lado.
“Quer um pouco de tempo?”
Assenti.
Ele se levantou e foi até a entrada, sem sair do meu campo de visão.
Abri o baú.
Desenhos.
Um envelope com meu nome.
Depois outro.
Lívia, onze anos.
Lívia, doze anos.
Lívia, quando terminar a escola.
Minhas mãos começaram a tremer.
Abri o primeiro.
Minha menina,
Hoje é seu aniversário. Eu devia estar fazendo o bolo que você sempre pede e tirando a cobertura da sua mão antes que acabasse na parede.
Se disserem que esqueci, não acredite.
Eu lembro até do seu jeito de dormir segurando a ponta da minha camisola.
Parei de ler.
As letras tinham perdido as bordas.
Ela havia escrito para mim.
Depois de ir embora.
Havia pensado no meu aniversário.
No meu bolo.
Em coisas que eu achava que só existiam na minha memória.
Henrique voltou quando me ouviu chorar.
“Lívia?”
Eu me levantei tão depressa que ele também ficou de pé.
Não pedi licença.
Abracei a cintura dele e escondi o rosto na camisa.
Ele demorou um instante antes de me envolver.
Depois me segurou com firmeza, uma mão nas minhas costas, outra entre meus ombros.
“Ela lembrou”, falei contra o peito dele.
“Lembrou.”
“Eu achei que tinha feito alguma coisa.”
“Você era uma criança.”
A voz dele saiu perto do meu cabelo.
“Você não fez nada.”
Fiquei ali até conseguir respirar.
Quando me afastei, havia uma marca molhada na camisa branca.
“Estraguei.”
“Ela seca.”
“Deve custar um salário.”
“Lívia.”
Ergui os olhos.
Ele passou o polegar pela minha bochecha e parou, deixando a mão ali por um segundo.
Eu poderia ter recuado.
Não quis.
“Você está me olhando daquele jeito de novo”, murmurei.
“Qual jeito?”
“Como se tivesse esquecido o que ia dizer.”
“Esqueci.”
Minha mão ainda segurava a camisa dele.
Henrique baixou os olhos para ela.
Depois para a minha boca.
“Eu quero beijar você.”
Meu estômago inteiro pareceu se mover.
“Eu ouvi.”
“E quero saber se você quer.”
Eu devia ter feito uma piada.
Tinha várias disponíveis em dias normais.
Naquele momento, puxei de leve a camisa dele.
“Quero.”
Henrique se inclinou devagar.
O primeiro contato foi suave, quase cuidadoso demais. Então me aproximei, passei os braços ao redor do pescoço dele e senti sua mão encontrar minha cintura.
Ele me beijou outra vez.
Sem a hesitação da primeira.
Meu corpo esqueceu o frio do depósito.
Esqueceu os sapatos.
Quando nos afastamos, ele manteve a testa junto à minha.
Eu estava sorrindo.
Percebi pelo jeito como ele também sorriu.
“Melhor que escolher roupas”, sussurrei.
Henrique soltou uma risada baixa.
“Muito melhor.”
Caio pigarreou do lado de fora.
Afastamo-nos, mas Henrique demorou a soltar minha mão.
Voltei ao baú, ainda sentindo o beijo, e encontrei um gravador dentro de uma bolsa pequena.
Na fita colada ao aparelho estava escrito:
Para Lívia, quando estiver segura.
A bateria estava descarregada. Caio encontrou o cabo na mesma bolsa e buscou um carregador portátil no carro.
Segurei o aparelho enquanto a tela acendia.
Henrique ficou ao meu lado.
Apertei o botão.
Um ruído.
Uma respiração.
Então a voz que eu havia tentado preservar durante quinze anos.
“Lívia, meu amor.”
Cobri a boca.
Henrique ficou imóvel.
“Se você está ouvindo isso, espero que finalmente tenham encontrado você. Há coisas que preciso explicar. Mas primeiro, por favor, me escute.”
O polegar dele se afastou da minha mão.
Minha mãe respirou outra vez.
“Não confie em Osvaldo. E não confie em Henrique Valença até que ele conte, com a própria boca, o que aconteceu naquela noite no Santa Clara.”
Olhei para o homem que acabara de me beijar.
Ele já estava olhando para mim.
“Naquela noite, ele me prometeu uma coisa, Lívia.”
A voz dela tremeu.
“E você precisa saber o que ele fez depois.”
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