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"Naquela Noite, o Bilionário Me Escolheu" Parte 2 — As Minhas Regras

正文开头

Parte 2 — As Minhas Regras

Henrique percebeu que tinha ido longe demais.

Olhou para Márcia, depois voltou a atenção para mim.

“Não quero assustar você.”

“Está fazendo um trabalho excelente.”

“Conheci uma mulher que contou essa história.”

Minha mão continuava escondida.

“Que mulher?”

“Teresa.”

O nome me atravessou antes que eu conseguisse me proteger.

Teresa Duarte.

Minha mãe.

“Conheceu onde?”

“Em Minas. Há muitos anos.”

Eu esperei.

Ele não acrescentou nada.

“E achou melhor oferecer emprego antes de falar isso?”

“Eu não tinha certeza de que era você.”

“Agora tem?”

“Tenho razões para acreditar.”

Puxei o celular da bolsa, abri a fotografia antiga que havia digitalizado para não perder o original e mostrei a tela.

Minha mãe estava na cozinha, de vestido amarelo, com uma das mãos levantadas para impedir que eu tirasse a foto.

Henrique ficou olhando por tempo demais.

“É ela?”

“É.”

Senti uma vontade absurda de fazer todas as perguntas ao mesmo tempo.

Por que tinha ido embora.

Se estava bem quando ele a conheceu.

Se falava de mim.

Mas Márcia colocou um copo de água na minha mão, e eu percebi que estava tremendo.

“Vamos sentar”, ela disse.

Sentamos no escritório dela.

Henrique ficou do outro lado da mesa. Caio permaneceu junto à porta.

“Os documentos têm relação com minha mãe?”

“Parte deles tem”, ele respondeu. “O material está misturado. Foi recuperado há poucos dias.”

“Por que você guardou?”

“Não estava comigo. O imóvel pertenceu à empresa onde eu trabalhava.”

“E agora é seu?”

“Comprei o prédio há alguns anos. Uma área do depósito ficou fechada até a reforma.”

Eu olhei para o cartão.

Depois para ele.

“Quero ver esses documentos. Mas não vou aceitar dinheiro por ser filha de alguém que você conheceu.”

“O trabalho existe.”

“Então eu faço o trabalho. E você me mostra tudo que encontrar sobre ela.”

Ele assentiu.

“Tudo.”

Na manhã seguinte, li a proposta com uma advogada de um serviço de orientação gratuita indicado por Márcia. Pedi mudanças em duas cláusulas e só assinei depois que recebi a versão corrigida.

O adiantamento era de dois mil reais, descontado do pagamento final.

Transferi mil e oitocentos para quitar os três aluguéis atrasados da minha parte. A proprietária respondeu com um recibo e um ponto de exclamação que não usava comigo havia meses.

Eu avisei que ficaria fora por algumas semanas.

Antes de guardar o celular, apareceu uma mensagem de número desconhecido.

Soube que arrumou trabalho à noite. Não precisa passar vergonha. Volta para casa.

Osvaldo.

Mesmo a quilômetros de distância, ele encontrava uma maneira de enfiar a mão na minha vida.

Salvei a mensagem.

Bloqueei o número.

E desci com a mala quando Caio chegou.

A casa de Henrique ficava num condomínio onde até as árvores pareciam ter passado por uma entrevista.

Eu acompanhei os muros pela janela.

“Ele mora sozinho?”

“Com funcionários.”

“Você incluído?”

“Tenho um apartamento na cidade.”

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“E trabalha para ele há quanto tempo?”

“Doze anos.”

“Já precisou jogar alguém para fora por desobedecer?”

Caio me olhou pelo retrovisor.

“Você pretende começar hoje?”

“Depende do café.”

Ele riu.

Foi a primeira vez.

Dona Célia abriu a porta antes que eu tocasse a campainha. Tinha cabelos grisalhos presos num coque e olhos que encontraram meu tênis sem julgar.

“Você deve ser a Lívia. Quer comer antes de conhecer o quarto?”

Quase abracei aquela mulher.

O quarto tinha uma cama larga, uma escrivaninha e uma porta que trancava por dentro.

Testei a chave.

Dona Célia fingiu não notar.

No armário, encontrei vestidos, calças, sapatos e caixas ainda fechadas.

“Isso estava aqui?”

“Chegou hoje.”

“Tudo?”

“Tudo.”

Peguei uma blusa de tecido tão macio que minha mão quis ficar ali.

Depois vi a etiqueta.

Guardei com cuidado.

Henrique estava na biblioteca, falando ao telefone, quando entrei com duas caixas nos braços.

Ele encerrou a ligação.

“Não serviu?”

“Não experimentei.”

“Podemos trocar.”

“Você pode devolver.”

Olhou para as caixas.

“Precisará de roupas para trabalhar.”

“Trouxe roupas.”

“Há reuniões—”

“Vou organizar papel, Henrique. Não representar o Brasil numa recepção diplomática.”

Ele apoiou as mãos na mesa.

“Não era minha intenção ofender.”

“Então pergunta antes.”

Eu gostei das roupas.

Gostei tanto que estava irritada por não poder simplesmente ficar feliz com elas.

Ele me encarou por alguns segundos.

“Você gostaria de escolher o que precisa?”

Aquilo foi melhor.

“Duas calças e três blusas. Para trabalhar. Os vestidos podem voltar para o reino de onde vieram.”

“Há algum problema com os vestidos?”

“Um deles parece cortina de hotel caro.”

Henrique olhou para a caixa aberta.

“Foi a vendedora que escolheu.”

“Ela precisa conhecer você melhor.”

Ele ergueu uma sobrancelha.

“Você me conhece?”

“Ainda não. Mas já sei que entra numa loja e aponta.”

O canto da boca dele se moveu.

“Vou me esforçar para melhorar.”

A tarde passou entre fotografias, recibos e pastas.

Montei categorias, separei os documentos frágeis e fiz uma planilha com datas, nomes e origem. Um curso noturno interrompido por falta de dinheiro finalmente servia para alguma coisa.

Henrique voltou quando eu estava abrindo uma caixa identificada como despesas de manutenção.

“Essas ficam para depois”, ele disse.

“Não são despesas de manutenção.”

Mostrei a pasta.

Havia registros de um projeto comunitário misturados entre notas de material de construção.

“Alguém aproveitou a caixa errada.”

Ele se aproximou, inclinando o corpo sobre a mesa.

Senti o perfume dele.

Limpo, discreto, irritantemente agradável.

“Você encontrou isso agora?”

“Há vinte minutos. Já registrei.”

Pegou uma folha, leu e olhou para a planilha.

“Está muito bem organizado.”

“Pode repetir? Quero mandar para minha antiga professora.”

Ele soltou uma risada curta.

Meu corpo inteiro prestou atenção.

Eu fingi que só procurava uma caneta.

Perto da meia-noite, acordei com fome. Tinha recusado repetir o jantar por educação e agora meu estômago cobrava a decisão.

Desci de pijama e encontrei Henrique diante da geladeira.

正文2

Sem paletó.

Sem sapatos.

Com as mangas da camisa dobradas e uma expressão de quem esperava que a comida se preparasse sozinha.

“Perdeu alguma coisa?”, perguntei.

“O jantar.”

“Ele estava na mesa umas cinco horas atrás.”

“Tive uma reunião.”

Peguei ovos, pão e manteiga.

“Vai cozinhar?”, ele perguntou.

“Não. Vou fazer uma instalação artística sobre a fome.”

Ele fechou a geladeira.

“Você sempre responde assim?”

“Só quando a pergunta ajuda.”

Quebrei os ovos numa tigela. Henrique pegou dois pratos sem precisar de orientação.

Observei as mãos dele.

Grandes. Uma pequena cicatriz perto do polegar. Nada que lembrasse as fotografias perfeitas das revistas.

“Pode dividir?”, perguntou.

“Dez reais.”

“Só dez?”

“Se reclamar, vira vinte.”

Ele puxou o celular.

O meu vibrou sobre a bancada.

Vinte reais.

“Você não sabe negociar”, falei.

“Estou descobrindo.”

Comemos sentados lado a lado na ilha.

Ele não pegou o telefone.

Eu não soube o que fazer com aquela atenção inteira.

“Aprendeu a cozinhar cedo?”, perguntou.

“Ou aprendia, ou jantava biscoito.”

“Eu roubava pão da cozinha de uma padaria.”

Virei o rosto.

“Você?”

“Eu não nasci com essa casa.”

Olhei para o relógio dele, deixado na bancada.

“Difícil imaginar.”

“Meu primeiro quarto tinha infiltração. Eu mudava a cama quando chovia.”

Eu conhecia aquela logística.

Meu olhar demorou no rosto dele.

Por um instante, consegui imaginar um rapaz sem aquele relógio, sem aquela segurança, tentando encontrar um canto seco para dormir.

“Agora você tem tantos quartos que pode trocar de cama todo dia.”

“Prefiro dormir na mesma.”

“Quando dorme.”

Ele olhou para mim.

“Você também está acordada.”

“Minha fome é mais organizada que a sua. Tem horário.”

Ficamos ali até o café esfriar.

Na manhã seguinte, encontrei uma fotografia entre os registros que havia separado.

Um grupo de mulheres na frente de um prédio simples.

O nome Santa Clara sobre a porta.

Minha mãe na ponta esquerda, segurando uma sacola de pães.

Henrique entrou e me encontrou de pé, com a fotografia nas mãos.

Eu não quis rodeios.

“Por que você conhece a minha mãe?”

Ele deixou a xícara sobre a mesa.

“Ela me procurou quando precisava de ajuda.”

“Você ajudou?”

A pergunta pareceu doer.

“Não como deveria.”

Apertei a borda da fotografia.

“Então por que se importa tanto?”

Henrique olhou para Teresa.

Depois para mim.

“Porque ela salvou a minha vida.”

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