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"Nos Braços do Rival do Meu Marido" Parte 3 — O Homem que Ele Temia

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Parte 3 — O Homem que Ele Temia

“Então conta agora.”

Tomás apoiou as mãos no volante.

O semáforo abriu. Ele avançou até encontrar um lugar seguro para parar, junto a uma praça quase vazia.

Desligou o motor.

O som da chuva ficou mais alto.

“Eu presido a Ferraz Participações.”

Conhecia o nome.

Mesmo afastada do trabalho, tinha visto notícias sobre a expansão do grupo na área de diagnóstico e tecnologia hospitalar.

Voltei a olhar para a camisa escura, para o carro sem motorista, para o homem que passara horas numa cadeira de plástico.

“Você é o Tomás Ferraz.”

Ele assentiu.

“Não só o Tomás que ajuda um projeto no hospital.”

“Sou as duas coisas.”

“E meu marido?”

“Quis vender uma divisão de administração de benefícios. Nossa equipe analisou a proposta meses atrás.”

“Você queria comprar?”

“No início, avaliamos. Depois encontramos inconsistências e saímos da negociação.”

Apertei a urna contra o corpo.

“Você sabia o que estava acontecendo com a Clara?”

“Eu sabia o que você me contou no hospital. Não tinha acesso às decisões internas do Henrique.”

“Mas tinha dinheiro.”

A pergunta saiu mais dura do que eu pretendia.

Tomás recebeu sem se afastar.

“Tinha.”

“Então por que…”

Não consegui terminar.

Ele baixou os olhos para as próprias mãos.

“Eu pedi que a equipe do projeto verificasse alternativas. Conversei com o Gabriel sobre o que precisava ser organizado. Ele pode te mostrar o que tentamos.”

“E não conseguiu.”

“Não.”

A palavra não veio acompanhada de desculpa.

“Eu não vou dizer que poderia ter salvado sua filha, Lívia. Eu não sei. Sei que tentei ajudar e não consegui fazer a tempo.”

Fechei os olhos.

Durante dias, eu tinha procurado uma pessoa que pudesse prometer que ainda havia solução.

Agora não havia mais.

“Você ficou perto de mim por causa do Henrique?”

“Não.”

“Como eu posso saber?”

“Você não precisa acreditar em mim hoje.”

Olhei para ele.

“Eu quero que o Álvaro confira tudo. Inclusive o que você acabou de dizer.”

“Está certo.”

“E não quero que você pague advogado, escolha investigação ou fale por mim.”

Tomás assentiu.

“Entendi.”

A ausência de resistência me desarmou mais do que qualquer explicação.

Ainda assim, mantive o espaço entre nós.

“Me leva até o apartamento.”

Ele ligou o carro.

Não tentou tocar minha mão.

Álvaro estava esperando na sala.

Quando me viu, veio até a porta e me abraçou.

Não perguntou antes o que Henrique tinha feito. Não procurou uma maneira de explicar sua ausência.

Apenas me segurou.

Eu mantive Clara entre nós, protegida nos meus braços.

Álvaro percebeu e afrouxou o abraço, sem me soltar completamente.

“Você não precisa resolver tudo esta noite.”

“Preciso entender alguma coisa.”

Ele olhou para Tomás.

“Obrigado por trazê-la.”

Tomás colocou as bolsas perto do sofá.

“Vou deixar meu número com você.”

Antes de sair, voltou-se para mim.

“A luminária está na bolsa?”

Balancei a cabeça.

“Ficou no quarto.”

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“Tudo bem.”

Sua voz mudou um pouco.

“Você pode buscar depois.”

Eu sabia que não estávamos falando apenas da luminária.

Ele saiu sem pedir que eu ligasse.

A porta fechou.

Álvaro me levou até um quarto com uma cama feita e uma mesa pequena. Coloquei a urna sobre a mesa, depois ajeitei o coelho ao lado.

Só então voltei à sala.

“Quero ver os documentos.”

Ele observou meu rosto.

“Podemos começar pelo que garante sua independência. O restante exige mais cuidado.”

“Começa.”

Meu pai aparecia em cada página.

Assinaturas. Anotações nas margens. Uma folha de cálculo impressa, com correções feitas a caneta.

Álvaro explicou que Eduardo Amaral havia participado da recuperação financeira do grupo anos antes de eu conhecer Henrique.

Em vez de receber toda a remuneração em dinheiro, aceitara participação na empresa e direitos definidos em acordos posteriores.

“Eu sabia que ele tinha investimentos.”

“Sabia de parte deles.”

“Por que esconder de mim?”

Álvaro retirou os óculos.

“Ele queria manter o patrimônio separado da administração dos Vasconcelos. E você tinha pedido que ele parasse de interferir no seu casamento.”

A lembrança me atingiu.

Eu tinha pedido.

Depois de uma discussão, dissera ao meu pai que Henrique não era um projeto para ser analisado.

Ele ficara calado por alguns segundos.

Na manhã seguinte, entregara a caixa de madeira.

“Isso não justifica não me contar.”

“Não”, Álvaro concordou. “Mas explica parte da decisão. Seu pai também errou tentando protegê-la.”

A franqueza me fez confiar mais nele.

Não queria transformar meu pai num homem infalível porque já não podia discutir com ele.

Álvaro mostrou contas que não dependiam da família do meu marido.

Mostrou rendimentos.

Mostrou a participação herdada.

Eu possuía trinta e oito vírgula seis por cento das ações do grupo por meio de uma estrutura patrimonial administrada conforme os documentos do meu pai.

Li o número três vezes.

“E eu precisei pedir autorização para comprar uma medicação.”

Minha voz saiu sem força.

“O acesso a esses recursos deveria ter sido esclarecido antes.”

“Deveria.”

Álvaro assentiu.

“Vou prestar contas de tudo que ficou sob minha administração.”

Foi a primeira pessoa naquela semana que não tentou escapar de uma pergunta difícil.

Passei a mão pela assinatura do meu pai.

“Isso me torna dona da empresa?”

“De uma participação importante. Não lhe dá controle automático. Existem acordos de voto e mecanismos de proteção que precisamos examinar, além dos procedimentos para qualquer mudança.”

“Mas posso pedir informações.”

“Pode. E já temos motivos para exigir que registros relevantes sejam preservados.”

Empurrei o celular para ele.

“Então começa por esses.”

Dormi pouco.

Na manhã seguinte, conversei com Gabriel pelo telefone.

Ele confirmou que Tomás havia tentado coordenar ajuda com o projeto e com outras instituições.

Não ofereceu certezas.

Explicou que a situação de Clara era grave e que o tratamento buscava estabilizá-la para os próximos passos.

“Lívia, eu não posso afirmar o que teria acontecido se tudo tivesse sido feito antes.”

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“Eu sei.”

Minha mão estava sobre a manta.

“Mas o risco foi comunicado?”

“Foi.”

“Por escrito?”

“Sim.”

Pedi cópias dos documentos que eu tinha direito de receber.

Álvaro cuidou dos pedidos referentes à empresa. Profissionais independentes foram chamados para preservar e organizar os registros disponíveis.

Ninguém me entregou, de repente, os dados pessoais de milhares de pacientes.

O primeiro conjunto de trabalho continha relatórios operacionais, datas de solicitações e categorias de despesas. Onde havia informações clínicas identificáveis, o acesso ficou restrito a quem deveria examiná-las.

Eu precisava do padrão.

Não dos nomes.

Liguei meu computador antigo.

Na primeira hora, me senti lenta.

Na segunda, comecei a lembrar.

Havia despesas aprovadas rapidamente e outras que permaneciam sem resposta. O tempo de espera crescia conforme o valor e aumentava ainda mais quando a solicitação precisava de uma autorização extraordinária.

Separei períodos.

Comparei equipes.

Excluí atrasos provocados por documentação incompleta.

O padrão permaneceu.

Peguei um caderno.

Ao meio-dia, tinha uma pergunta precisa.

“Quem mudou a orientação para esses casos?”

Álvaro se aproximou da mesa.

“Vamos verificar.”

Tomás apareceu naquela tarde, depois de perguntar por mensagem se podia trazer comida.

Álvaro autorizou a entrada somente após me consultar.

Ele colocou duas sacolas na cozinha.

Não veio olhar minha tela.

“Tem sopa e pão. Não sabia o que você conseguiria comer.”

“Obrigada.”

Ele observou a xícara de café frio ao meu lado.

“Você está trabalhando desde cedo?”

“Estou tentando entender.”

“Quer que eu vá?”

Olhei para a cadeira vazia.

“Pode ficar um pouco.”

Ele se sentou longe o suficiente para não invadir a mesa.

Comi algumas colheradas enquanto ele atendia uma mensagem, sem esconder a tela nem me oferecer uma intimidade que eu não tinha pedido.

“Você falou com o Gabriel”, comentou.

“Falei.”

“Ele explicou?”

“Explicou o que você tentou fazer.”

Tomás assentiu.

“E também explicou que não podia prometer um resultado.”

Seu olhar encontrou o meu.

“Ele está certo.”

Coloquei a colher no prato.

“Eu precisava que alguém tivesse levado a sério.”

Tomás não respondeu imediatamente.

“Eu levei.”

Uma lágrima caiu antes que eu conseguisse baixar a cabeça.

Ele moveu a mão, mas parou sobre a mesa.

“Posso?”

Olhei para seus dedos.

Assenti.

Tomás segurou minha mão sem puxar.

Fiquei assim por alguns segundos.

Não houve nada parecido com esquecer.

Eu continuava sabendo onde estava a urna, qual era o nome da minha filha e o que tinha perdido.

Ainda assim, aquela mão quente me ajudou a terminar de respirar.

Quando me soltei, ele não tentou me prender.

No fim da tarde, Álvaro voltou com uma sequência de mensagens obtidas entre os registros preservados.

A solicitação de Clara tinha sido encaminhada com uma indicação clara de urgência.

Gabriel apontara risco de deterioração irreversível.

A orientação seguinte vinha de Henrique.

Mantenham as despesas extraordinárias suspensas até segunda-feira. Preciso revisar pessoalmente.

Patrícia respondera:

A solicitação da Clara está incluída. A cardiologia informou risco crítico. Confirma a suspensão?

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Eu fiquei olhando para a tela.

A resposta aparecia logo abaixo.

Confirmo. A Lívia se desespera e aumenta tudo. Vou resolver depois.

Não chorei.

Li a mensagem outra vez.

Olhei a data.

Era o dia em que eu tinha esperado por ele no escritório.

Henrique recebera o aviso antes de passar por mim com Bianca.

Ele sabia o suficiente para perguntar.

Sabia o suficiente para ir ao hospital.

Escolhera não fazer nenhuma das duas coisas.

Álvaro puxou uma cadeira.

“Precisamos verificar a integridade e o contexto completo antes de apresentar.”

“Verifiquem.”

Minha voz saiu firme.

“E preservem tudo.”

Peguei o telefone.

Henrique tinha enviado diversas mensagens desde minha saída.

Respondi com uma pergunta.

Você recebeu um aviso de risco crítico sobre a Clara e confirmou que a solicitação podia esperar?

Ele ligou imediatamente.

Atendi.

“Lívia, quem está colocando essas coisas na sua cabeça?”

“A sua mensagem.”

O silêncio durou alguns segundos.

“Isso faz parte de uma conversa administrativa. Você não pode interpretar uma frase isolada.”

“Eu li a pergunta da Patrícia também.”

Ouvi sua respiração.

“Você está com o Ferraz?”

“Estou com os documentos.”

“Você não entende o que ele quer.”

“Então me explica o que você queria quando mandou esperar.”

Henrique não respondeu.

Desliguei.

Olhei para Álvaro.

“Quero uma reunião.”

A convocação levou alguns dias e exigiu mais documentos do que eu imaginava.

Usei o tempo para trabalhar.

Organizei uma linha do tempo. Separei o que tinha confirmação do que ainda era suspeita. Pedi que minhas conclusões fossem revisadas antes de qualquer apresentação.

Tomás entregou a Álvaro os materiais relacionados à negociação da qual seu grupo se retirara.

Eu não os tratei como prova de nada antes de serem examinados.

Na noite anterior à reunião, ele veio buscar um casaco que havia esquecido.

Eu estava diante do espelho, com um vestido preto nas mãos.

“Não sei se consigo entrar naquela sala.”

Tomás ficou junto à porta.

“Você não precisa entrar sozinha.”

“Mas preciso falar por mim.”

“Precisa.”

Olhei para ele pelo espelho.

“Você não vai tentar resolver se eu travar?”

“Só se você pedir.”

Pendurei o vestido.

“Eu quero que esteja lá.”

Ele assentiu, devagar.

“Eu vou.”

Na manhã da reunião, coloquei o pequeno pingente de Clara no pescoço.

Deixei a urna no apartamento.

Minha filha não precisava atravessar mais uma sala cheia de pessoas que haviam ignorado sua existência enquanto ela estava viva.

Levei a manta dobrada dentro da bolsa.

Era para mim.

Quando as portas do elevador se abriram, Henrique estava no corredor.

Olhou para Álvaro.

Depois para Tomás.

Por fim, para mim.

“Precisamos conversar antes.”

“Você teve dias para responder à minha pergunta.”

“Em particular.”

“Agora vou entrar.”

Ele tentou acompanhar meu passo.

“Você está cometendo um erro que não vai conseguir desfazer.”

Parei diante da porta.

“É justamente por isso que eu conferi tudo.”

Entrei.

Cecília estava perto da janela. Bianca fechou o computador quando me viu. Patrícia manteve os olhos baixos.

Henrique passou por mim e tomou seu lugar à mesa.

“O que é isso?”, perguntou um dos conselheiros.

Álvaro começou a responder, mas Henrique o interrompeu.

“Minha esposa está atravessando uma situação pessoal delicada. Eu pedi que ela descansasse, mas alguém decidiu transformar nosso luto numa disputa comercial.”

Senti meu coração bater contra o pingente.

Tomás permaneceu em silêncio atrás de mim.

Eu coloquei a pasta sobre a mesa.

“Não fale por mim.”

Henrique apontou para a porta.

“Lívia, você não participa desta reunião.”

Abri a pasta.

Álvaro retirou as cópias dos documentos e começou a distribuí-las.

Meu marido olhou para a primeira página.

Depois para a assinatura do meu pai.

Eu empurrei minha cópia até ele.

“Então leia com atenção, Henrique.”

Esperei que levantasse os olhos.

“Antes de mandar que eu saia, descubra quem tem o direito de estar nesta mesa.”

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