"Nos Braços do Rival do Meu Marido" Parte 2 — Não Toque Nela
Parte 2 — Não Toque Nela
Henrique estendeu a mão para o celular.
Eu recuei.
“Não pega.”
Ele parou, surpreso com o meu tom.
“Quero falar com ele.”
“Você pode ligar do seu telefone.”
Por alguns segundos, ficamos nos olhando.
Eu conhecia aquela expressão. Henrique a usava quando algum funcionário contrariava uma decisão dele diante de outras pessoas.
Só que não havia funcionário ali.
Havia a mulher que tinha passado sete noites pedindo sua presença.
“Lívia”, Álvaro chamou. “Você quer que eu permaneça na linha?”
“Quero.”
Henrique olhou para a porta do quarto de Clara.
“Cecília disse uma coisa absurda lá embaixo.”
Minha garganta apertou.
“Então ela finalmente contou.”
Ele saiu do meu quarto.
Eu o acompanhei.
Vi quando empurrou a porta da nossa filha e procurou a cama, como se esperasse encontrá-la dormindo.
Depois seus olhos chegaram à cômoda.
A urna branca estava ao lado da luminária em forma de lua.
Henrique franziu a testa.
“O que é aquilo?”
Não consegui responder imediatamente.
Ele deu um passo.
“Lívia.”
“As cinzas dela.”
Seu rosto perdeu a cor.
“Não.”
A palavra saiu baixa.
Ele olhou para mim, esperando uma correção.
Não havia nenhuma.
“Clara morreu às quatro e dezoito da manhã. Há três dias.”
Henrique agarrou o encosto da poltrona.
“Três dias?”
“Eu liguei. Mandei mensagem. O hospital também tentou falar com você.”
“Eu achei que…”
Ele não terminou.
Esperei.
“Você disse que ela estava piorando antes. Outras vezes ela piorou e depois ficou bem.”
Abri o histórico de chamadas e virei a tela.
“Dezessete vezes, Henrique.”
Ele não olhou.
“Por que você não foi até mim?”
“Eu fui.”
A lembrança veio inteira.
O banco duro da recepção. As cinco horas esperando. Bianca saindo do elevador com a mão no braço dele.
“Você mandou que eu resolvesse com a Patrícia.”
Henrique passou a mão pelo rosto.
“Eu não sabia que ela ia morrer.”
“O Gabriel escreveu que havia risco imediato. Eu repeti isso para você.”
“Eu recebo centenas de solicitações.”
“A Clara não era uma solicitação.”
Ele fechou os olhos.
A frase ficou entre nós.
Por muito tempo, eu tinha facilitado suas respostas. Antecipava desculpas, diminuía minhas perguntas, agradecia por coisas que ele deveria ter feito sem ser lembrado.
Naquela noite, deixei que enfrentasse sozinho o silêncio que havia criado.
Henrique se aproximou da cômoda.
Eu entrei na frente.
“Não.”
“Ela é minha filha.”
“Eu sei.”
“Então sai da frente.”
“Você não vai pegar a urna enquanto está tremendo desse jeito.”
Ele olhou para as próprias mãos.
Talvez só então tivesse percebido.
Sentou na poltrona, curvado, com os cotovelos nos joelhos.
“Ela perguntou por mim?”
A pergunta atingiu um lugar que eu tentava manter fechado.
Olhei para o desenho colado na parede.
Três pessoas de mãos dadas.
Clara fizera o braço do pai comprido demais porque, segundo ela, assim ele poderia segurá-la mesmo quando estivesse trabalhando.
“Perguntou.”
Henrique cobriu a boca.
“Lívia…”
“Eu disse que você estava vindo.”
A poltrona rangeu quando ele se inclinou.
Eu esperei sentir alguma satisfação.
Não senti.
A dor dele não diminuía a minha.
E nenhuma lágrima devolveria minha filha ao quarto.
Álvaro falou quando saí para o corredor.
“Tenho um apartamento disponível para você esta noite. Amanhã conversamos com calma.”
“Eu não quero deixar as coisas dela.”
“Você pode levar o que precisar. O restante nós organizamos depois.”
Henrique apareceu na porta.
“Você está indo embora?”
“Estou.”
“Agora?”
“Agora.”
Ele olhou para o telefone.
“Foi isso que ele mandou você fazer?”
“Eu decidi.”
“Você não está em condições de decidir nada.”
A familiaridade daquela frase me deu náusea.
Quando eu estava cansada, não podia decidir.
Quando chorava, não podia decidir.
Quando insistia, estava nervosa demais.
“Eu consegui decidir sobre cada procedimento da nossa filha enquanto você estava ocupado. Consigo escolher onde vou dormir.”
Entrei no quarto e abri uma mala.
Não peguei os vestidos de festas que Henrique escolhia com a ajuda de uma vendedora.
Peguei roupas confortáveis, documentos, o computador antigo e a pasta do hospital.
Ele permaneceu junto à porta.
“Não precisamos fazer isso hoje.”
Coloquei o carregador na mala.
“Você tem razão. Eu devia ter feito antes.”
O celular vibrou.
Tomás.
Recusei a ligação e enviei uma mensagem.
Vou sair de casa. O Álvaro está organizando.
Ele respondeu:
Você quer companhia no caminho?
Desta vez, não demorei.
Quero.
Passei seu número para Álvaro, que pediu alguns minutos para combinar a chegada.
Henrique viu o nome na tela quando guardei o telefone.
“Tomás?”
Meu movimento parou.
“Você conhece?”
Ele desviou os olhos para a mala.
“De onde você conhece esse homem?”
“Do hospital.”
“Ele esteve com você?”
“Esteve com a Clara também.”
Henrique saiu do quarto sem responder.
Eu continuei arrumando.
Tirei fotografias dos armários e das gavetas antes de fechar a mala. Peguei meus documentos pessoais e deixei os arquivos da empresa onde estavam.
No computador, confirmei que as mensagens tinham chegado ao meu e-mail.
Só então voltei ao quarto de Clara.
Escolhi o coelho, a manta, três desenhos e o livro da lua.
Não consegui escolher mais nada.
Coloquei os objetos numa bolsa.
A urna foi nos meus braços.
Cecília nos esperava no hall.
“Você não pode sair assim.”
Parei no último degrau.
“Assim como?”
“Abalada, no meio da noite, acompanhada de pessoas que têm interesses contra a nossa família.”
Olhei para Henrique.
Ele estava atrás de mim, com a gravata frouxa e os olhos vermelhos.
“Quem falou de interesses?”
Cecília ignorou.
“Podemos chamar um médico. Você precisa descansar.”
“Já conversei com médicos o suficiente esta semana.”
“O que você está fazendo só vai tornar tudo mais difícil.”
Eu segurei a urna com mais firmeza.
“Para quem?”
Ela não respondeu.
A campainha tocou.
Henrique caminhou até a porta antes da funcionária.
Tomás estava do outro lado.
Usava uma camisa escura, molhada nos ombros. Não havia motorista atrás dele. O carro estava parado próximo ao portão.
Seu olhar me encontrou por cima do ombro de Henrique.
Depois desceu para os meus braços.
A expressão dele mudou, mas não de surpresa.
Ele sabia exatamente o que eu carregava.
“Você está pronta?”
Henrique deu um passo para fora.
“Você não entra na minha casa.”
Tomás ficou onde estava.
“Eu vim buscar a Lívia.”
“Eu não autorizei.”
“Ela autorizou.”
A resposta foi baixa.
Henrique olhou para mim.
“É isso? Você vai sair com ele?”
“Vou sair de carro com alguém que eu pedi para vir.”
“Você não sabe com quem está se envolvendo.”
Tomás não se defendeu.
Isso me incomodou.
Mas havia uma pergunta mais urgente.
“Se você sabe alguma coisa importante, pode me dizer. Não vai usar isso para me manter aqui.”
Henrique aproximou a mão do meu braço.
Antes que me tocasse, dei um passo para trás.
“Não me segura.”
Ele deixou a mão cair.
Atravessei a porta.
Tomás olhou para a mala.
“Posso levar?”
Assenti.
Ele pegou a mala e a bolsa. Deixou que eu caminhasse no meu ritmo.
Perto do carro, estendeu o guarda-chuva sobre mim.
Percebi um corte pequeno no lado da mão dele.
Lembrei do hospital. Da embalagem de um sanduíche que eu não conseguira abrir, do jeito como ele puxara o plástico sem reclamar.
Detalhes inúteis começaram a voltar agora que eu já não precisava vigiar um monitor.
Tomás abriu a porta do passageiro.
“Você prefere que eu coloque a urna no banco de trás?”
“Ela fica comigo.”
“Tudo bem.”
Quando sentei, ele esperou que eu acomodasse Clara antes de fechar a porta.
Henrique veio atrás de nós.
Tomás permaneceu ao lado do carro.
“Você sempre quis usar alguma coisa contra mim, Ferraz. Só não imaginei que teria coragem de usar minha mulher.”
Ferraz.
Guardei o sobrenome.
Tomás olhou para ele.
“Ela passou dias procurando você. Não fui eu que impedi sua presença.”
Henrique avançou meio passo.
“Você acha que sabe alguma coisa sobre o meu casamento?”
“Sei que ela pediu para sair.”
“E você veio correndo.”
Tomás apertou a alça da bolsa, depois relaxou os dedos.
“Vim.”
Uma resposta simples.
Henrique olhou para mim através da porta aberta.
“Lívia, olha para o que você está fazendo.”
Eu levantei os olhos.
“Estou indo embora.”
Ele ficou imóvel.
Tomás fechou a porta com cuidado, guardou a bagagem e entrou pelo outro lado.
Não ligou o carro imediatamente.
“Você quer esperar?”
Balancei a cabeça.
Ele deu partida.
Só voltei a respirar normalmente quando o portão ficou para trás.
No primeiro semáforo, Tomás colocou uma garrafa de água no espaço entre os bancos.
Não disse nada.
Bebi.
O trânsito avançou devagar, sob a chuva.
“Eu tenho uma pergunta.”
Ele manteve os olhos na rua.
“Pode fazer.”
“Por que meu marido falou daquele jeito com você?”
Sua mandíbula se moveu.
“Porque nós já estivemos em lados opostos de uma negociação.”
“Só isso?”
“Não.”
Olhei para o perfil dele.
Eu conhecia aquele rosto cansado sob a luz branca do hospital. Conhecia suas mãos segurando um copo, sua voz lendo uma página para Clara quando eu fui falar com Gabriel.
Não conhecia o homem que Henrique chamava pelo sobrenome com tanto ódio.
“O que mais?”
Tomás diminuiu a velocidade antes de virar.
“Eu vou te explicar. E, se depois você preferir que eu vá embora, eu vou.”
Meu telefone vibrou no colo.
Uma mensagem de Henrique.
Pergunta ao Tomás o que ele queria comprar de mim antes de decidir que ele é um homem bom.
Virei a tela para ele.
Tomás leu quando paramos.
Não pareceu surpreso.
“Eu queria impedir uma venda”, respondeu.
“Quem é você?”
Ele me olhou.
“Alguém que devia ter contado isso antes.”
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