"Nos Braços do Rival do Meu Marido" Parte 1 — Dezessete Ligações
Parte 1 — Dezessete Ligações
“Para de fazer escândalo, Lívia. A conta já foi paga. Pega a Clara e volta para casa.”
Meu marido disse isso enquanto eu segurava as cinzas da nossa filha.
Fiquei parada na calçada, diante da funerária, com o celular apertado contra a orelha. A chuva atingia a ponta dos meus sapatos. A pequena urna branca estava protegida pelo meu casaco.
Henrique continuou falando.
“Não posso interromper meu dia toda vez que você se assusta. A Patrícia resolveu tudo.”
Ao fundo, ouvi o tilintar de uma taça.
Depois uma risada feminina.
Bianca.
Eu conhecia aquela risada. Tinha ouvido a mesma coisa nos áudios que Henrique reproduzia durante o jantar, antes de levantar da mesa para responder à sua consultora em algum cômodo onde eu não estivesse.
“Lívia? Você está ouvindo?”
Olhei para a linha dourada na tampa da urna. Tinha escolhido aquele modelo porque os outros pareciam grandes demais.
Clara era pequena.
Ainda precisava de ajuda para alcançar a torneira.
“Estou.”
“Então para com isso. Tenho uma reunião.”
Desliguei antes que ele terminasse.
Por alguns segundos, não soube onde guardar o telefone. A bolsa estava no meu ombro, mas abrir o zíper exigia soltar uma das mãos.
Eu não queria soltá-la.
Um funcionário veio até a porta.
“A senhora gostaria que eu chamasse alguém?”
Balancei a cabeça.
Ele não insistiu. Apenas abriu meu guarda-chuva e me acompanhou até o carro, andando devagar para que eu conseguisse acompanhar.
Henrique não tinha ido ao hospital.
Não tinha ido à despedida.
E ainda não sabia que nossa filha havia morrido.
Eu mesma custava a acreditar que o mundo permitisse tamanha diferença entre duas pessoas casadas.
Enquanto eu aprendia a carregar uma urna, ele continuava preocupado com o horário de uma reunião.
Coloquei Clara no banco do passageiro, sobre a manta rosa que trouxera do hospital. Passei o cinto ao redor da caixa de transporte.
Quando terminei, minhas mãos começaram a tremer.
Esperei até conseguir segurar o volante.
Antes de sair, abri o histórico de chamadas.
Dezessete ligações.
Na última mensagem de voz, eu quase não reconheci minha própria voz.
“Henrique, o Gabriel disse que ela está piorando. Por favor, atende. Eu preciso que você venha.”
A gravação terminava com o som da porta do quarto se abrindo.
Eu me lembrava de quem tinha entrado.
Uma enfermeira, carregando material.
Não o pai da minha filha.
Tirei capturas de tela do histórico. Salvei as mensagens de Patrícia. Enviei tudo para o meu e-mail pessoal, aquele que não usava havia meses.
Não sabia o que faria com aquilo.
Só sabia que não suportaria ouvir, mais uma vez, que eu não tinha explicado direito.
Cecília estava no hall quando cheguei.
Usava uma calça clara e segurava uma xícara. Atrás dela, uma funcionária recolhia flores de um vaso.
“Ainda bem que você apareceu. O Henrique está tentando falar com você.”
Passei por ela.
“Lívia.”
Parei diante da escada.
Seu olhar desceu para os meus braços.
“O que é isso?”
A pergunta saiu impaciente, como se eu tivesse trazido alguma coisa inconveniente para dentro da casa.
“As cinzas da Clara.”
A xícara bateu no pires.
Cecília olhou para a urna, depois para mim.
“Como assim?”
“Nossa filha morreu.”
Ela levou a mão ao pescoço.
Por um instante, pensei que fosse me abraçar.
Esperei.
Cecília apenas perguntou:
“O Henrique sabe?”
Aquela pergunta me deu uma clareza que a dor vinha me negando.
Não era comigo que ela estava preocupada.
“Você pode contar a ele.”
“Lívia, espera. Precisamos conversar.”
“Agora não.”
Subi antes que ela encontrasse alguma maneira de tornar aquilo uma discussão sobre o irmão.
O quarto de Clara estava exatamente como eu havia deixado.
Uma sandália de cada lado da cômoda. O copo amarelo sobre a mesa. Um livro aberto no chão, na página em que o coelho procurava a lua.
Clara nunca aceitava o final.
Dizia que a lua precisava descer, porque o coelho era pequeno e não conseguiria subir sozinho.
Coloquei a urna sobre a cômoda, longe da beirada.
Depois fechei a porta.
O silêncio não durou.
Meu corpo se dobrou antes que eu alcançasse a poltrona. Sentei no tapete e puxei a manta rosa para o colo.
Ainda havia um fio do cabelo dela preso no tecido.
Segurei aquele fio entre os dedos.
Na última noite, Clara tinha pedido que eu prendesse seu cabelo. O elástico incomodava quando ela virava a cabeça no travesseiro.
Eu fiz uma trança pequena, torta.
Ela disse que eu precisava praticar.
Uma criança de três anos, com falta de ar, tinha encontrado disposição para rir de mim.
Eu encostei a manta no rosto.
Não havia ninguém ali para ouvir quando comecei a chorar.
O celular vibrou depois de algum tempo.
Tomás: Você conseguiu chegar?
Li a mensagem duas vezes.
Conhecera Tomás no corredor do hospital, seis semanas antes. Ele acompanhava uma visita ao projeto infantil que ajudava a financiar. Clara estava sentada numa cadeira de rodas, irritada porque ninguém entendia que o coelho precisava levar a lua para casa.
Tomás tinha parado para ouvi-la.
Na visita seguinte, trouxe uma pequena luminária em forma de lua.
Perguntou a mim antes de entregar.
Nas semanas seguintes, apareceu outras vezes. Às vezes ficava poucos minutos. Às vezes levava café e permanecia no corredor enquanto eu conversava com Gabriel.
Nunca entrou no quarto sem perguntar.
Na madrugada em que Clara morreu, estava no hospital.
Eu não lembrava de ter telefonado para ele.
Lembrava apenas de uma cadeira sendo puxada para perto da minha, de um copo de água colocado na minha mão e de uma voz dizendo que eu não precisava levantar naquele momento.
Ele tinha oferecido companhia para a despedida.
Eu recusara.
Ainda estava tentando proteger Henrique da vergonha de ser substituído em mais uma ausência.
Respondi:
Cheguei.
A resposta veio quase imediatamente.
Tem alguém com você?
Olhei para a porta fechada.
Não.
O telefone tocou.
Atendi sem dizer nada.
“Você quer que eu vá?”
A pergunta me fez chorar de novo.
Não porque ele tivesse prometido resolver alguma coisa.
Porque tinha perguntado.
“Eu não sei.”
“Tudo bem. Você não precisa decidir agora.”
Ouvi um ruído baixo, como se ele tivesse fechado uma porta.
“Você conseguiu beber água?”
“Não estou com sede.”
“Mesmo assim, tenta um pouco.”
Olhei para o copo amarelo de Clara.
Não consegui tocá-lo.
“Tomás?”
“Estou aqui.”
“Eu trouxe ela para casa.”
Ele demorou um instante para responder.
“Eu sei, Lívia.”
“A casa está igual.”
Minha voz falhou.
“Até o livro ficou aberto.”
Ele ficou em silêncio comigo.
Não falou de Deus. Não disse que ela estava num lugar melhor. Não tentou encontrar um benefício naquela perda.
Quando consegui respirar, perguntei:
“Você pode me ligar mais tarde?”
“Posso.”
Desliguei.
Fui ao banheiro e bebi água com as mãos.
Depois lavei o rosto.
No espelho, vi uma mulher que Henrique chamava de exagerada havia tanto tempo que já começara a desconfiar dos próprios olhos.
Eu tinha sido analista de riscos.
Antes de deixar meu emprego, passava os dias procurando padrões que outras pessoas ignoravam. Sabia distinguir um erro de um procedimento repetido.
Dentro daquela casa, porém, cada restrição tinha recebido outro nome.
O bloqueio do cartão era organização.
A aprovação das despesas era segurança.
A transferência dos meus investimentos para uma administração que eu não compreendia era comodidade.
Quando Clara adoeceu, qualquer pergunta minha parecia uma distração egoísta.
Henrique dizia que eu devia me concentrar na nossa filha.
Eu me concentrei.
Ele ficou com todo o resto.
Já estava escuro quando ouvi a porta da frente.
Desci alguns degraus, mas parei antes de chegar ao hall.
“Eu avisei que ela estava perdendo o controle”, Cecília dizia.
“Onde ela está?”
“No quarto da Clara.”
Henrique soltou o ar.
“Claro. Eu passei a semana inteira tentando trabalhar enquanto ela ligava sem parar.”
Minha mão apertou o corrimão.
“Henrique, você precisa subir.”
“Primeiro eu quero saber o que aconteceu com a Patrícia. Ela disse que a Lívia ameaçou aparecer no escritório de novo.”
“Não é sobre isso.”
“É sempre sobre isso. Ela não aceita ouvir um não. A Patrícia fez certo em segurar as despesas até eu revisar.”
Voltei para o corredor.
O quarto de Clara estava a poucos passos.
Olhei para a porta, depois para o meu quarto.
No fundo do armário, atrás de uma caixa de sapatos, havia uma pequena caixa de madeira.
Meu pai a entregara antes do casamento.
Dentro estavam uma chave, um cartão com o telefone de Álvaro Bastos e um envelope fechado.
“Se um dia você precisar sair e não souber por onde começar, liga para ele.”
Na época, eu tinha ficado ofendida.
Meu pai não discutira.
Apenas pedira que eu guardasse.
Peguei o cartão.
Disquei antes que pudesse inventar uma desculpa para adiar.
“Álvaro?”
“Lívia?”
A familiaridade da voz quase me derrubou.
“Eu preciso de ajuda.”
“O que aconteceu?”
Contei.
Não tudo. Não conseguia.
Disse o nome de Clara. Disse hospital. Disse que Henrique não tinha atendido.
Álvaro não me interrompeu.
Quando terminei, ouvi uma cadeira se mover do outro lado.
“Você está segura?”
“Estou no quarto.”
“Ele está em casa?”
“Está.”
“Houve alguma ameaça?”
Olhei para a caixa aberta.
“Ainda não.”
“Lívia, preciso que você separe seus documentos e mantenha o telefone com você.”
“O que meu pai deixou?”
“Recursos para que você não dependa deles. E documentos que precisamos examinar.”
Ouvi passos na escada.
“Eu quero saber tudo.”
“Isso inclui verificar decisões do seu marido. Você está preparada para permitir que eu examine cada documento que ele assinou?”
Olhei para a manta sobre a cama.
“Estou.”
A maçaneta girou.
Henrique entrou e viu o cartão na minha mão.
“Com quem você está falando?”
Não respondi.
A voz de Álvaro veio pelo telefone.
“Lívia?”
O rosto de Henrique mudou.
“Bastos?”
Ele fechou a porta atrás de si.
“Por que você ligou para esse homem?”
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