"Meu Refúgio Era um Bilionário" Parte 9 — A decisão que eu não podia tomar sozinha
Parte 9 — A decisão que eu não podia tomar sozinha
Saí da varanda com Samuel ao meu lado.
Ricardo ainda estava perto do bar.
Esperei que terminasse de falar com os convidados e me aproximei.
“Preciso conversar com você amanhã às nove.”
Ele percebeu minha expressão.
“Sobre o quê?”
“Os documentos enviados ao grupo de Otávio.”
O sorriso dele desapareceu.
“Não é lugar para isso.”
“Por isso marquei amanhã.”
Ricardo olhou para Samuel, depois para mim.
“Você está tirando conclusões sem entender a negociação.”
“Vou ouvir sua explicação.”
Não discuti diante dos convidados.
Concluí minhas obrigações, agradeci às equipes e pedi o carro.
No estacionamento, Samuel abriu a porta para mim, mas não a fechou imediatamente.
“Quer que eu vá com você?”
Assenti.
Durante o trajeto, fiquei olhando as luzes da cidade.
Ele não ocupou o silêncio com perguntas.
Quando chegamos ao apartamento, tirei os sapatos perto da entrada e fui direto à cozinha buscar água.
Samuel ficou no corredor, esperando que eu dissesse o que precisava.
“Você pode ficar?”
“Posso.”
Abracei-o.
Foi diferente dos abraços na oficina. Eu não estava feliz, nem flertando, nem tentando prolongar uma despedida.
Estava cansada.
Samuel me segurou sem pedir que eu transformasse aquele cansaço numa explicação.
Mais tarde, deitada ao lado dele, contei o que sabia sobre as planilhas.
“Não quero olhar material que eu não deveria receber”, ele disse.
“Eu sei. Não vou mostrar.”
“Mas posso te ouvir.”
Virei para ele.
Era uma ajuda limitada e, justamente por isso, segura.
Na manhã seguinte, Ricardo chegou à sala acompanhado de seu assistente.
A diretora jurídica e a responsável pela revisão já estavam presentes.
Eu havia pedido que a conversa não fosse apenas entre irmãos.
Ricardo reparou nas duas.
“Isso virou uma investigação formal?”
“A revisão de despesas já estava em andamento”, a diretora respondeu. “Agora precisamos esclarecer o envio de documentos.”
Meu irmão sentou.
Argumentou que havia encaminhado informações para agilizar a negociação. Disse que o grupo de Otávio precisava entender a operação e que uma autorização completa chegaria depois.
A diretora perguntou quem havia aprovado o envio daquela versão.
Ricardo não apresentou uma aprovação.
Quando lhe mostraram as observações retiradas da apresentação, ele afirmou que eram dúvidas preliminares, já superadas.
Abri meu caderno.
“Eu pedi resposta a essas dúvidas duas vezes.”
“Recebeu novos números.”
“Recebi projeções mais altas. Não recebi a justificativa que solicitei.”
Ele olhou para as outras pessoas na sala.
“Estamos perdendo o foco.”
“Estamos verificando quais informações foram fornecidas”, a diretora respondeu.
Naquela mesma manhã, o assistente confirmou por escrito que comprara o aparelho a pedido de Ricardo e o entregara a ele.
Não sabia quem digitara as mensagens.
Isso ficou registrado.
Eu não precisava transformar a confirmação numa prova maior do que era.
As despesas de telefonia estavam associadas à mesma área. O fornecedor da consultoria havia confirmado o pedido de pesquisa sobre Samuel e enviado a correspondência preservada.
Cada peça mostrava uma parte.
Juntas, formavam uma história que meu irmão já não podia reduzir a um gesto inocente de proteção.
À tarde, Otávio me telefonou.
“Recebi um contato da equipe jurídica.”
“Imagino.”
“Eles querem confirmar as versões de material que minha empresa recebeu.”
“Você vai colaborar?”
“Vou.”
Houve uma pausa.
“Ricardo disse que você está fazendo isso porque ele se opôs ao seu relacionamento.”
Fechei os olhos.
“E você acredita?”
“Depois das mensagens que te mandei, não.”
Otávio parecia tão cansado quanto eu.
“Eu deveria ter perguntado a você antes”, acrescentou.
“Deveria.”
“Não posso mudar isso. Mas posso explicar o que aconteceu.”
Agradeci.
Na sexta-feira, Ricardo me esperou na garagem.
Eu vinha carregando o computador e uma pasta quando o vi junto ao meu carro.
“Preciso falar sem plateia.”
Parei a alguns passos.
“Pode falar.”
Ele olhou para as câmeras e depois para mim.
“Você tem ideia do que essa revisão pode fazer?”
“Tenho.”
“Eu posso perder meu cargo.”
Senti a frase no corpo.
Meu irmão tinha sido a pessoa que me levara para casa depois do funeral do nosso pai. Tinha se sentado na cozinha comigo quando nenhum de nós sabia o que fazer na manhã seguinte.
Eu não conseguia apagar aquele homem só porque estava zangada com o que ele se tornara.
Ricardo percebeu minha hesitação.
“Podemos devolver os gastos. Corrigir os documentos. Não precisamos levar isso ao conselho.”
“Não depende só de mim.”
“Você pediu a revisão.”
“Porque precisava ser feita.”
Ele se aproximou.
“Você quer me punir.”
“Quero que pare.”
“Eu já parei.”
“Agora que não conseguiu afastar Samuel?”
Ricardo virou o rosto.
Continuei antes de perder a coragem.
“Você podia ter me procurado. Podia ter dito que estava preocupado. Escolheu enviar informação falsa e procurar maneiras de pressioná-lo.”
“Eu não mandei…”
“Então explique quem recebeu o aparelho. Explique as mensagens para o fornecedor. Faça isso dentro da revisão.”
Meu irmão respirou fundo.
“Pai não ia querer ver a família assim.”
A lembrança do nosso pai doeu.
Não me deu uma resposta.
“Eu também não queria.”
Ricardo ficou imóvel.
Entrei no carro.
Chorei antes de ligar o motor.
Não havia ninguém para ver, e eu não tinha mais energia para tentar controlar o rosto.
Quando cheguei em casa, Samuel tinha enviado uma fotografia de duas canecas na varanda.
Uma estava vazia.
Escreveu:
A sua está esperando o fim de semana.
Liguei.
Ele atendeu com uma risada na voz que desapareceu quando me ouviu respirar.
“Helena?”
Contei sobre a garagem.
Samuel escutou.
Depois perguntou:
“Você quer vir hoje?”
Olhei a bolsa no sofá.
“Quero. Mas acho melhor você não vir a São Paulo por enquanto.”
O silêncio durou alguns segundos.
“Por quê?”
“Porque podem usar qualquer encontro nosso para dizer que você está interferindo. Precisamos diminuir…”
Parei.
Eu conhecia aquela frase.
Precisamos diminuir a exposição.
Samuel falou com calma.
“Você quer se afastar de mim?”
“Não.”
“Quer deixar de me ver aqui?”
“Não é isso.”
“Então me explica o que estamos decidindo.”
Sentei no sofá.
Minha primeira reação foi ficar irritada. Eu estava tentando protegê-lo, proteger a investigação, proteger tudo ao mesmo tempo.
Então ouvi minha própria frase novamente.
“Eu decidi sozinha”, admiti.
“Decidiu.”
“Estou com medo de arrastar você para isso.”
“Eu já estou envolvido. Minha vida foi investigada. Não posso apagar isso ficando longe do seu apartamento.”
A verdade me obrigou a respirar mais devagar.
“Não quero que apareça no conselho como se fosse me salvar.”
“Eu não iria.”
“Nem que ligue para alguém pedindo uma decisão contra Ricardo.”
“Não fiz isso.”
“Eu sei.”
Samuel esperou.
“Podemos evitar conversas de negócio fora das equipes”, propus. “Guardar o que for necessário. E continuar nos vendo.”
“Podemos.”
“Mas preciso que me diga se alguma coisa estiver ficando pesada demais.”
“Você também.”
Fiquei olhando para a parede.
“Quero ir amanhã.”
“Então vem.”
Viajei na manhã seguinte.
Samuel me recebeu sem perguntar se eu estava melhor. Pegou minha bolsa, deixou-a no quarto e voltou para me abraçar.
Eu tinha trazido uma camisa esquecida no fundo do armário.
“Posso deixar aqui?”
Ele olhou para a peça.
“Pode.”
Não comentou o quanto aquilo significava.
Coloquei a camisa numa gaveta vazia e fiquei um momento olhando para ela.
Na oficina, Samuel me mostrou um orçamento de equipamento. Estudava ampliar a capacidade de trabalho, mas ainda estava comparando custos.
Pedi para ver.
Ele me entregou os papéis.
Dessa vez, discutimos o assunto porque ele tinha me convidado.
No domingo, preparei minha contribuição para o relatório enquanto Samuel terminava uma peça.
A equipe havia organizado os documentos, as explicações recebidas e os pontos ainda sem resposta. Caberia aos responsáveis avaliar as medidas. Eu precisava registrar minha solicitação sem transformar o relatório numa carta de mágoa.
Samuel deixou uma caneca ao lado do computador.
Não tentou ler.
Fiquei olhando a tela por alguns minutos.
Depois assinei o pedido de reunião extraordinária.
A confirmação de envio apareceu.
Samuel levantou os olhos da bancada.
“Foi?”
Assenti.
Na segunda-feira seguinte, meu irmão teria de responder diante de pessoas que não podiam ser interrompidas com uma lembrança do nosso pai.
Meu telefone vibrou pouco depois.
Era Ricardo.
Você vai mesmo levar isso até o fim?
Olhei para Samuel, que continuava trabalhando.
Olhei para a camisa guardada no quarto.
Então respondi:
Vou levar até onde os fatos exigirem.
Não esperei os três pontos desaparecerem.
Fechei o computador e fui até a oficina.
Samuel colocou a ferramenta de lado quando me aproximei.
Eu o beijei, apoiando as mãos nos ombros dele.
Dessa vez, não era uma fuga.
Na manhã seguinte, eu voltaria para São Paulo.
E entraria naquela sala por conta própria.
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