"Meu Refúgio Era um Bilionário" Parte 8 — Não vou esconder você
Parte 8 — Não vou esconder você
“Quem tirou a foto?”
Samuel ampliou a imagem.
“Não sei.”
Eu lembrava da rua, da sacola, de ter parado para cumprimentar dona Célia. Não lembrava de ninguém apontando um celular.
“Foi publicada em algum perfil?”, ele perguntou.
“Bianca recebeu num grupo de contatos profissionais. Está verificando de onde veio.”
Samuel devolveu o aparelho.
“Quer ir para São Paulo?”
A pergunta me fez erguer os olhos.
“Você acha que devo ir?”
“Estou perguntando o que você quer fazer.”
Respirei.
A distinção era pequena. Tinha se tornado importante.
“Quero terminar o café. Depois preciso fazer duas ligações.”
“Então termine o café.”
Samuel colocou uma fatia de pão no meu prato e sentou.
Não tentou minimizar a mensagem. Também não começou a telefonar para pessoas que poderiam apagá-la da circulação.
Esperei alguns minutos antes de ligar para Bianca.
Pedi que guardasse a imagem recebida, com data e contexto, e que evitasse reenviá-la por curiosidade.
Depois falei com a responsável pela comunicação do grupo.
Não autorizaria uma resposta sobre meu relacionamento. Se alguém questionasse minha avaliação do projeto, a empresa poderia informar que ele continuava em análise e que as posições técnicas estavam documentadas.
Eu tinha dúvidas anteriores à enchente.
Não precisava inventar outra história.
Ricardo ligou quando eu estava terminando.
“Você viu o que estão dizendo?”
“Vi.”
“Precisamos evitar que isso cresça.”
“Concordo. Não fale da minha vida pessoal com terceiros.”
“Helena, estou tentando ajudar. Talvez vocês possam diminuir a exposição por enquanto.”
Olhei para Samuel, que retirava a louça da mesa.
“Você está pedindo que eu pare de aparecer com ele?”
“Estou pedindo prudência.”
“A fotografia mostra duas pessoas comprando pão.”
“Mostra a diretora do Grupo Bastos com o controlador do potencial investidor.”
“Essa informação será tratada com transparência no processo. Não vou fingir que Samuel não existe.”
Meu irmão ficou quieto por um instante.
“Você pode estar colocando sua credibilidade em risco.”
“Minha credibilidade também depende de eu não mentir.”
Desliguei.
Samuel estava na pia.
“Você ouviu.”
“Parte.”
Aproximei-me.
“Ele quer que a gente desapareça até terminar a negociação.”
Samuel enxugou as mãos.
“E você?”
“Quero que a nossa vida não seja organizada por uma mensagem anônima.”
Ele assentiu.
“Eu também.”
Na segunda-feira, pedi uma reunião com a diretora jurídica e a responsável pela avaliação do projeto.
Expliquei minha aproximação com Samuel. Registrei o vínculo e solicitei orientação sobre minha participação.
Ficou combinado que minhas análises operacionais poderiam ser utilizadas, mas decisões sobre condições negociadas com a Aurora seriam conduzidas por pessoas sem aquele vínculo pessoal. Samuel faria uma comunicação equivalente do lado dele.
Não gostei de precisar explicar algo tão íntimo numa sala de reuniões.
Gostei menos da alternativa de deixar os outros construírem uma versão secreta para depois descobri-la por mim.
Ao sair, mandei uma mensagem.
Conversa difícil concluída.
Samuel respondeu:
A minha também. Almoço?
Eu tinha meia hora.
Encontramo-nos num restaurante próximo ao escritório. Ele chegou antes, mas deixou que eu escolhesse a mesa.
Durante a refeição, falamos de trabalho e de assuntos que nada tinham a ver com Ricardo. Samuel me contou que um ajudante queria aprender técnicas mais antigas de encaixe. Eu contei que um hóspede havia tentado levar uma luminária dizendo que pensava estar incluída na diária.
Quando ri, Samuel ficou me olhando.
“O quê?”
“Estava com saudade disso.”
“De hóspedes roubando luminárias?”
“De você esquecendo de olhar o relógio.”
Olhei imediatamente para o pulso.
Ele riu.
Na quinta-feira, o Grupo Bastos realizaria uma recepção para parceiros e equipes de dois hotéis reformados. Meu nome estava na lista de anfitriões.
Antes, eu pensaria em Samuel como alguém que ficaria longe daquele ambiente.
Agora sabia que ele também pertencia àquele mundo, embora preferisse passar parte dos dias com as mãos na madeira.
Convidei-o.
“Como convidado meu”, esclareci.
“Eu entendi.”
“Não quero que pareça uma demonstração de apoio ao projeto.”
“Também não.”
Samuel parou antes de responder.
“Tenho uma entrega na oficina na quinta à tarde. Consigo chegar depois das oito.”
“A recepção começa às sete.”
“Eu sei.”
Quase sugeri que mudasse a entrega.
Percebi a frase se formando e a interrompi.
“Tudo bem. Eu te encontro quando chegar.”
Ele sorriu.
Não era uma concessão enorme. Ainda assim, senti que tinha aprendido alguma coisa.
Naquela noite, quando Samuel apareceu, eu estava conversando com um casal perto da varanda do hotel.
Ele usava um terno escuro, sem ostentação. Não parecia desconfortável, mas procurou meus olhos antes de se aproximar.
Dei dois passos para encontrá-lo.
“Você chegou.”
“Terminei a entrega.”
Beijei seu rosto.
O casal observou com curiosidade.
“Este é Samuel”, apresentei. “Meu namorado.”
A palavra saiu antes de termos conversado formalmente sobre ela.
Samuel me olhou.
Eu também.
Seu sorriso foi pequeno, reservado para mim.
“Prazer”, disse aos dois.
Depois, perto do corredor, perguntei:
“Tudo bem com a apresentação?”
“Gostei bastante.”
“Você podia ter dito alguma coisa antes.”
“Você estava ocupada me promovendo.”
Ri.
Samuel segurou minha mão por um momento.
Meu irmão nos encontrou perto do salão principal.
“Samuel, que bom que veio.”
Falou como se nunca tivesse sentado naquela oficina com uma proposta de dinheiro.
“Boa noite, Ricardo.”
“Precisamos conversar sobre as novas projeções.”
“Envie para André.”
“Claro. Mas talvez possamos aproveitar…”
“Hoje vim acompanhar Helena.”
Meu irmão olhou para mim.
Eu não completei a frase por ele.
Mais tarde, um homem que eu conhecia de encontros empresariais perguntou a Samuel se ainda “brincava de restaurar móveis”.
Eu vi a mandíbula dele endurecer apenas um pouco.
“Trabalho com restauração”, respondeu.
“Com um grupo desse tamanho, imagino que seja uma distração agradável.”
“É um trabalho que exige atenção. Como qualquer outro.”
O homem tentou rir.
Samuel não o humilhou, não mencionou dinheiro, não procurou uma plateia.
Perguntou se ele havia visto a recuperação dos móveis do salão antigo. A conversa mudou para algo concreto.
Eu o observei com um orgulho que não tinha relação com a Aurora.
Perto das dez, finalmente consegui sair para a varanda com ele.
Estava frio.
Samuel colocou o paletó sobre meus ombros e ficou ao meu lado.
“Você precisa de um”, falei.
“Posso ficar perto.”
Aproximei-me.
Ele me beijou devagar.
Por alguns segundos, o salão desapareceu.
Depois Samuel encostou a testa na minha.
“Preciso te dizer uma coisa.”
Meu peito se apertou.
“O quê?”
“Quero vir quando você me convidar. Mas não consigo estar em todos os eventos, nem reorganizar a oficina sempre na última hora.”
Assenti.
“Eu não quero isso.”
“Hoje você esperou. Obrigado.”
Eu conhecia pessoas que teriam visto aquela entrega como um compromisso menor.
Não queria me tornar uma delas.
Antes que eu respondesse, Bianca apareceu na porta da varanda.
Sua expressão me fez afastar um pouco.
“A diretora jurídica pediu que você retornasse a ligação ainda hoje.”
Peguei o telefone.
Do outro lado, ouvi uma informação que mudava a dimensão da revisão.
O grupo de Otávio havia recebido planilhas internas detalhadas antes da autorização para compartilhá-las.
A mensagem de envio partira da área de Ricardo.
E uma das versões continha observações minhas que tinham sido retiradas da apresentação final.
Olhei através do vidro.
Meu irmão conversava com dois investidores, sorrindo sob a luz do salão.
Eu havia vindo preparada para defender minha vida pessoal.
Agora precisava descobrir o que ele fizera com o meu trabalho.
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