"Meu Refúgio Era um Bilionário" Parte 7 — A vida que eu deixei você conhecer
Parte 7 — A vida que eu deixei você conhecer
Samuel sentou ao meu lado no sofá, mas não tentou me beijar de novo imediatamente.
Olhou para minha mão ainda entrelaçada à dele.
“Você está sorrindo e apertando meus dedos como se estivesse numa reunião difícil.”
Afrouxei a mão.
“Desculpa.”
“Não precisa pedir desculpa. Só quero saber em qual das duas situações estamos.”
Ri.
“Nas duas, talvez.”
Ele passou o polegar sobre meus dedos.
“Posso esperar a reunião terminar.”
Virei o corpo para ele.
“Não quero que espere.”
Beijei-o antes de perder a coragem.
Samuel me recebeu com uma mão nas minhas costas. O beijo foi menos cuidadoso que o primeiro, mas ele ainda me dava espaço para escolher o ritmo.
Quando nos afastamos, fiquei com o rosto perto do dele.
Eu tinha passado anos administrando a impressão que causava. Com Otávio, até os encontros pareciam exigir uma versão adequada de mim: descansada, elegante, interessante sem ser cansativa.
Naquela noite, meus cabelos estavam presos com uma presilha torta. Eu havia discutido sobre documentos durante o jantar. Não sabia se teria energia para conversar até tarde.
Samuel parecia contente por estar ali.
“Você precisa voltar hoje?”, perguntei.
“Para a serra, não. Tenho apartamento aqui.”
“Perto?”
“Vinte minutos, sem trânsito.”
Assenti.
Ele esperou.
“Estou perguntando porque gostaria que ficasse.”
A expressão dele mudou devagar.
“Então eu fico.”
Mais tarde, quando o levei ao quarto, Samuel parou perto da porta.
“Tem certeza?”
Puxei sua mão.
“Tive um dia péssimo. Isso não me impede de saber o que quero.”
Ele sorriu, mas a voz saiu séria.
“Se mudar de ideia, me fala.”
“Você também.”
Fechei a porta.
Na manhã seguinte, acordei com o som baixo de louça na cozinha.
Por um instante, fiquei imóvel, tentando entender por que havia outro corpo na lembrança da minha cama.
Então sorri contra o travesseiro.
Encontrei Samuel diante da cafeteira, descalço, com a camisa aberta no colarinho e as mangas dobradas.
Ele olhou para o pacote de café.
“Isso estava lacrado há quanto tempo?”
“Prefiro não responder sem um advogado.”
“Seu advogado vai precisar de uma defesa boa.”
Aproximei-me e encostei a testa nas costas dele.
Samuel parou de mexer na máquina.
Sua mão encontrou a minha sobre o abdômen.
“Bom dia.”
“Bom dia.”
Ficamos assim por alguns segundos.
Depois meu celular começou a tocar no quarto.
Eu gemi.
Samuel riu baixinho.
“Agora reconheço a dona da casa.”
A ligação era de Bianca.
Um fornecedor de um dos hotéis tinha avisado que uma entrega não chegaria no prazo. Havia também uma reunião que precisava ser antecipada.
Pedi dez minutos, anotei duas providências e voltei à cozinha.
Samuel colocou minha caneca sobre a bancada.
O açúcar estava ao lado.
“Você tem tempo para sentar?”
Olhei o relógio.
“Doze minutos.”
“Então temos onze. Você gastou um respondendo.”
Sentei.
Ele tinha encontrado pão no congelador, tostado algumas fatias e cortado a única banana que eu ainda não havia deixado estragar.
Comemos conversando sobre nossas agendas.
Samuel partiria para a serra depois do almoço. Eu viajaria na quinta-feira para visitar um hotel.
“Posso ir no sábado?”, perguntei.
“Pode. Luana vai estar lá.”
“Vou conhecer a dona da blusa.”
“Ela já preparou perguntas.”
“Sobre mim?”
“Sobre a blusa, principalmente.”
Antes de sair, ele me beijou perto da porta e perguntou se podia escrever durante o dia.
“Pode escrever sem pedir autorização para cada mensagem.”
“Estou aprendendo os procedimentos.”
“Esse foi dispensado.”
A leveza durou até chegar ao escritório.
Na minha mesa, encontrei uma resposta de Ricardo.
Não vamos tratar uma oportunidade estratégica como se fosse um insulto pessoal. Precisamos pensar no grupo.
Abri uma mensagem nova.
Minha relação com Samuel não integra a negociação. Não fale em meu nome, não procure obter compromissos por meu intermédio e não compartilhe informações pessoais sem autorização.
Li antes de enviar.
Não havia nada ali que precisasse ser suavizado.
Depois chamei Bianca.
Ela entrou segurando uma pasta contra o peito.
“Você está brava comigo.”
“Estou preocupada com o que aconteceu. E precisamos corrigir isso.”
Mostrei a relação de documentos compartilhados durante a emergência.
“Eu entendo por que mandou a localização. Mas os dados de Samuel foram repassados sem que ele soubesse.”
Bianca assentiu.
“Ricardo disse que queria garantir sua segurança.”
“Eu sei. Da próxima vez, confirme comigo sempre que for possível. Em situação de risco imediato, envie o necessário. Depois registre quem recebeu.”
Ela colocou a pasta na mesa.
“Já revisei os acessos dos arquivos pessoais. Vou separar isso dos documentos de trabalho.”
“Obrigada.”
Bianca ficou na sala depois que terminamos.
“Eu sinto muito.”
Olhei para ela.
“Você tentou ajudar. Meu irmão decidiu fazer outra coisa com a informação.”
A expressão dela se desfez um pouco.
Não precisava carregar a responsabilidade dele.
No sábado, viajei cedo.
Samuel estava lavando as mãos na torneira externa quando entrei pelo portão. Secou-as na camiseta e veio me encontrar.
Dessa vez, não tive de inventar uma desculpa para abraçá-lo.
Ele me beijou antes que eu terminasse de fechar a porta do carro.
“Oi.”
“Oi.”
Uma voz veio da varanda.
“Agora entendi por que ele passou pano na cozinha.”
Samuel fechou os olhos.
Eu ri contra seu ombro.
Luana estava segurando uma caneca. Tinha o mesmo cabelo escuro do irmão e nenhuma disposição para fingir discrição.
“Sou Luana. Recebi minha blusa. Está perdoada.”
“Obrigada. Eu tinha medo de começar mal.”
“Começou bem. Devolveu lavada.”
Durante o almoço, ela me contou histórias que Samuel tentou interromper duas vezes e desistiu na terceira.
Descobri que ele havia desmontado uma cadeira aos treze anos e demorado uma semana para conseguir montá-la. Que a mãe nunca deixava ninguém usar uma toalha manchada para limpar verniz. Que Luana vinha à casa quando precisava dormir longe do barulho da cidade.
Depois que ela saiu, Samuel me mostrou uma pequena escrivaninha na sala.
Havia uma tomada próxima e espaço para meu computador.
“Você costuma trabalhar quando vem. Achei que seria melhor do que a mesa da cozinha.”
Passei a mão na superfície.
“Você fez isso para mim?”
“Recuperei uma que estava parada.”
Puxei a cadeira.
Ele observou meu rosto.
“Se não gostar…”
“Gostei.”
Abri o computador para enviar um documento que havia prometido. Samuel voltou à oficina.
Trabalhamos em cômodos separados por quase uma hora.
A cada movimento dele no quintal, eu levantava os olhos.
Não precisava abandonar minha vida para estar naquela casa. Pela primeira vez, começava a enxergar como as duas coisas poderiam caber no mesmo dia.
Ao fim da tarde, fomos caminhar até uma pequena venda.
Samuel comprou tomates, pão e uma escova de dentes.
Olhei o último item.
“Você já tem uma.”
“Você também. A sua está em São Paulo.”
Senti vontade de sorrir como uma adolescente.
Na volta, segurou minha mão na rua.
Não escondi a minha.
Passamos a noite juntos. Antes de dormir, contei que meu pai costumava trabalhar até durante as férias e que Ricardo, depois da morte dele, começara a agir como se tivesse herdado a obrigação de cuidar de mim.
Samuel ouviu sem interromper.
“Às vezes sinto falta do meu irmão”, falei. “Mesmo quando ele está na minha frente.”
Ele me puxou para perto.
“Não sei consertar isso.”
“Eu sei.”
Fiquei com a cabeça no peito dele.
Não precisava que soubesse.
Na manhã seguinte, uma mensagem de Bianca chegou enquanto preparávamos o café.
Havia uma fotografia nossa na saída da venda.
Samuel carregava a sacola. Eu segurava sua mão.
A imagem tinha começado a circular entre contatos ligados ao grupo.
Abaixo, alguém escrevera:
Agora ficou claro por que a diretora não consegue separar o projeto da vida pessoal.
Samuel viu meu rosto mudar.
Mostrei a tela.
Ele leu e ficou em silêncio.
Eu olhei para a escrivaninha que havia preparado para mim.
Em menos de um dia, alguém tinha encontrado uma maneira de transformar aquele lugar que começava a ser nosso em uma acusação.
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