"Meu Refúgio Era um Bilionário" Parte 6 — O beijo que eu escolhi
Parte 6 — O beijo que eu escolhi
“Ricardo disse que você não descartava voltar comigo.”
Otávio parecia desconfortável antes mesmo de terminar a frase.
Tínhamos nos encontrado numa cafeteria perto do escritório. Eu recusara o jantar que meu irmão continuava tentando organizar e propusera uma conversa direta.
“Eu nunca disse isso.”
“Percebi.”
“Quando?”
Ele olhou para a xícara.
“Quando você começou a pedir pauta por e-mail.”
Quase ri.
Não havia graça suficiente.
“Você e eu terminamos há mais de um ano. Tivemos uma conversa clara.”
“Eu sei.”
“Então por que aceitou que Ricardo falasse por mim?”
Otávio passou a mão pelo cabelo.
“Porque era conveniente acreditar que as coisas podiam mudar.”
Aquilo, pelo menos, era honesto.
“Ele vinculou nossa aproximação ao projeto?”
“Não dessa forma.”
Esperei.
Otávio continuou.
“Disse que a relação entre as famílias precisava permanecer boa. Que você andava resistente à operação e que eu poderia ajudar a abrir uma conversa.”
“Uma conversa sobre investimento ou sobre nós?”
Ele não respondeu.
Eu já tinha a resposta.
Peguei meu caderno.
“Você pode encaminhar as mensagens em que ele faz essas referências?”
“Helena, não quero participar de uma briga entre irmãos.”
“Você já participou. Estou pedindo que me ajude a esclarecer o que aconteceu.”
Otávio me observou.
Depois pegou o telefone.
“Vou mandar o que tenho. Só não atribua a mim uma coisa que eu não sabia.”
“Não vou.”
Antes de ir embora, ele perguntou:
“Você está com esse homem da serra?”
Pensei em Samuel segurando minha mão, na discussão sobre os móveis, na maneira como me ouvira contar sobre o telefone comprado por Ricardo.
“Estou tentando construir alguma coisa com ele.”
Otávio assentiu.
“Espero que dê certo.”
Voltei ao escritório e pedi os documentos mais recentes do projeto da Bahia.
Minha participação de trinta e seis por cento não me permitia impor tudo o que eu quisesse. Ainda assim, meu apoio tinha peso, especialmente numa operação que dependia de capital e compromissos de longo prazo.
Ricardo vinha apresentando minha aprovação como se fosse uma questão de tempo.
Não era.
Eu já havia apontado problemas nas estimativas de ocupação antes da enchente. Tinha solicitado cenários mais prudentes e informações sobre os custos de acesso e infraestrutura.
Procurei os e-mails.
As datas estavam ali.
Separei as mensagens, os pareceres e as versões dos números. Depois escrevi ao comitê responsável, deixando claro que eu não autorizara ninguém a anunciar meu apoio.
Também informei a necessidade de examinar as despesas da investigação pessoal.
Naquela tarde, a responsável pela verificação me chamou.
O fornecedor havia encaminhado o contrato e parte da correspondência.
O relatório reunia endereço comercial, fotografias públicas da oficina e nomes de clientes.
Uma mensagem de Ricardo perguntava se Samuel tinha dívidas que o tornassem mais disposto a aceitar uma proposta.
Outra solicitava informações sobre quanto a oficina dependia de determinados compradores.
Li as duas sem dizer nada.
“Vamos preservar o material”, a responsável explicou. “Precisamos ouvir os envolvidos e conferir o uso dessas informações.”
Assenti.
A investigação ainda tinha etapas.
O que eu sentia, porém, já não dependia delas.
Meu irmão havia pensado em como pressionar um homem que me ajudara.
E depois, ao descobrir quem ele era, pensara em como usá-lo.
Na saída, liguei para Samuel.
“Preciso conversar com você.”
“Quer que eu vá?”
Olhei para a fila de carros na avenida.
“Quero ir para aí. Amanhã.”
“Eu estou em São Paulo.”
Parei junto à porta do estacionamento.
“Você está aqui?”
“Reuniões da Aurora. Vou embora à noite.”
Houve um silêncio que ele percebeu.
“Eu devia ter mencionado.”
“Devia.”
“Posso te encontrar?”
Olhei para o relógio.
“Na minha casa. Vou mandar o endereço.”
Não queria mais uma conversa na qual ele me recebesse e eu voltasse sozinha para minha vida.
Se pretendíamos continuar, Samuel precisava conhecer o espaço onde eu realmente passava os dias.
Ele chegou pouco depois das oito, de camisa branca e calça escura.
Sem gravata.
Parecia o mesmo homem e, ao mesmo tempo, alguém que eu ainda não tinha visto.
Reparei no corte da roupa, na postura, no relógio discreto.
Ele percebeu que eu estava olhando.
“Ficou tão ruim?”
“Não.”
A resposta saiu rápida demais.
Samuel sorriu de leve.
Abri espaço para ele entrar.
Meu apartamento tinha uma vista bonita e quase nenhum sinal de que eu usava a cozinha. Uma caixa de entregas estava sobre a bancada. Havia papéis na mesa de jantar e dois sapatos largados perto do sofá.
“Não arrumei”, avisei.
“Eu vim ver você.”
Pedi comida. Enquanto esperávamos, contei sobre Otávio e mostrei as mensagens do fornecedor que podiam ser compartilhadas naquele contexto.
Samuel leu em silêncio.
Quando terminou, pousou o telefone.
“Ele estava procurando uma maneira de me apertar.”
“Sim.”
“E agora quer que eu invista.”
“Sim.”
Ele passou a mão pelo rosto.
“Você vai precisar lidar com muita coisa.”
“Já estou lidando.”
“Por minha causa…”
“Samuel, não.”
Minha voz o interrompeu.
“Eu tinha dúvidas sobre esse projeto antes de conhecer você. Meu irmão usou dinheiro da empresa para investigar sua vida. Tentou falar por mim com Otávio. Essas decisões são dele.”
Samuel me olhou.
“Eu não quero que você prejudique sua posição tentando me defender.”
“E eu não quero que você decida que sabe o que é melhor para minha carreira.”
Ele ficou quieto.
Eu também.
Não queria transformar cada cuidado numa disputa. Mas precisava que ele entendesse.
“Você pode perguntar do que eu preciso”, falei, mais baixo.
Samuel assentiu.
“Do que você precisa?”
A pergunta era tão simples que levei um tempo para responder.
“Que me conte as coisas antes de eu descobri-las por outra pessoa.”
Ele apoiou os antebraços nos joelhos.
“Eu soube que existia uma proposta do Grupo Bastos antes da tempestade. Não tinha visto sua apresentação nem seu nome na equipe operacional. André tinha me enviado um resumo.”
Ouvi sem interromper.
“Depois que você falou com Bianca, reconheci a empresa. Na manhã seguinte, conferi o material.”
Meu peito apertou.
“Então, enquanto eu raspava a mesa…”
“Eu já sabia que havia uma ligação comercial.”
Baixei os olhos.
“Você poderia ter dito.”
“Sim.”
“Por que não disse naquela hora?”
“Porque eu queria continuar ali com você. Você tinha acabado de me contar quem era e parecia aliviada por eu não mudar de atitude. Fiquei com medo de estragar aquilo.”
A explicação doía justamente por ser compreensível.
“Você me deixou mostrar uma parte da minha vida e guardou a sua.”
“Eu fiz isso.”
Samuel esperou até eu olhar para ele.
“Não vou repetir. Também não quero pedir que você confie porque eu prometi. Pode me perguntar o que precisar.”
Fiz perguntas.
Sobre a Aurora, sobre seus horários, sobre onde morava quando estava em São Paulo. Perguntei como dividia a oficina com as responsabilidades do grupo.
Ele respondeu sem transformar a conversa numa apresentação de sucesso.
Contou que Luana não trabalhava na empresa. Que André era diretor de investimentos, não seu assistente pessoal. Que algumas reuniões podiam ser delegadas e outras exigiam sua presença.
Quando a comida chegou, já estávamos cansados.
Mas a distância entre nós tinha mudado.
Depois de jantar, Samuel ajudou a recolher as embalagens.
Na cozinha estreita, ficamos lado a lado diante da pia.
Ele estendeu a mão para pegar um copo. A manga recuou, mostrando a marca ainda visível perto do pulso.
A corda.
Toquei a pele ao lado dela.
“Isso foi naquela noite?”
Samuel olhou para o próprio braço.
“Foi.”
“Você não disse.”
“Era só uma escoriação.”
Mantive os dedos ali por um instante.
Ele não se moveu.
Levantei o rosto.
“Eu senti sua falta mesmo estando com raiva.”
Samuel pousou o copo.
“Eu não sabia se podia dizer a mesma coisa.”
“Pode.”
Sua mão tocou minha cintura, devagar, dando tempo para que eu me afastasse.
Não me afastei.
“Helena…”
“Eu quero continuar”, falei. “Mas com você inteiro. Não só com a parte que achar mais fácil me mostrar.”
“Está bem.”
Olhei para a boca dele.
Samuel percebeu.
“Posso te beijar?”
“Pode.”
O primeiro toque foi breve, quase uma pergunta repetida sem palavras.
Segurei a frente da camisa dele e me aproximei.
Samuel me beijou outra vez.
Sua mão firmou minha cintura, e a outra subiu até meu rosto. Eu senti a barba contra a pele, o calor do corpo dele, a respiração mudando junto da minha.
Não havia corrente me puxando.
Não havia ninguém exigindo que eu fosse embora.
Quando nos afastamos, continuei perto.
Samuel encostou a testa na minha.
Sorri antes de conseguir dizer alguma coisa.
Ele sorriu também.
Meu telefone vibrou sobre a bancada.
Olhei por instinto.
Era Ricardo.
André disse que Samuel está em São Paulo. Precisamos alinhar sua posição antes da reunião. Você pode falar com ele por nós.
Virei o aparelho para baixo.
Samuel acompanhou o gesto.
“Está tudo bem?”
“Meu irmão acabou de descobrir outra utilidade para a minha vida amorosa.”
“Quer responder?”
“Quero. Mas amanhã.”
Peguei a mão dele e o levei para a sala.
Dessa vez, ninguém falaria por mim.
E eu ainda tinha muito a dizer ao homem que escolhera beijar.
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